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1572, ano bissexto

Fig01: Remanescente de Tycho.

Factos históricos  marcaram  o ano de 1572, diga-se de passagem um ano bissexto tal qual  2016. Entre os inúmeros acontecimentos daquele ano citemos dois: a publicação da epopeia do inigualável  Luís de Camões e  a eleição  do Papa Gregório XIII.

Fig02: Capa de “Os Lvsiadas” de Luís de Camões (1572).
Fig02: Capa de “Os Lvsiadas” de Luís de Camões (1572).

 Em “Os Lvsiadas” [Os Lusíadas] Camões celebra o grande explorador português Vasco da Gama e as conquistas de Tuga – que tinha como alcunha o nome “Província de Lusitânia” – eis, pois, a origem da obra-prima.

Fig03: Papa Gregório XIII.
Fig03: Papa Gregório XIII.

Gregório XIII foi o responsável  pela introdução  do calendário  actual,  por esse motivo o denominamos calendário gregoriano. A reformulação do antigo calendário (chamado calendário juliano) para  o calendário gregoriano foi  assinada  em fevereiro de 1582, portanto, após uma década de papado de Gregório XIII.

-Alto lá, bonitinho o texto, mas  o que tem a ver “Os Lusíadas”  e  o Papa Gregório XIII com a Astronomia?

– Gostei da pergunta. Em directo, vamos à resposta. Há tempos uma pequena estória de fim de mundo pairava  pelo velho mundo. Talvez, hoje, em pleno século XXI você, leitor, tenha ouvido algo parecido com “… quando dois sóis  estiverem no céu, quando  o novo Papa se levantar, será em um ano bissexto  e, então, o juízo final cairá sobre vós.”  Então, já ouviu algo parecido? Essa estória é antiga. Vamos corrigir a informação. O trecho citado acima está completamente descontextualizado. Foi retirado de uma profecia que previa o surgimento de “dois sóis” durante a parte clara do dia. [É de conhecimento de todos que o Sol é a única estrela que observamos no céu claro, ou seja, durante o dia.].

Segundo essa mesma profecia, este fenómeno ocorreria em um ano bissexto. Se houve coincidência eu não sei, mas, foi justamente o ano em que se teve eleição de mais um Papa. Assim como todos os demais Papas, Gregório XIII tinha conhecimentos sobre Astronomia. E então, após anos de estudos, apresentou uma profunda reforma no calendário juliano. O que culminou no calendário actual.

-Deixe-me entender: a estória dizia que apareceriam dois sóis quando o Papa se levantar. Tudo bem, o novo Papa surgiu e o ano era bissexto. Mas continuo sem entender onde está o tal do juízo final e o que Camões tem a ver com essa história toda, além do mais, e os tais dois sóis?

– Assim como as lendas a respeito dos mares, o juízo final nunca chegou. Não desta maneira. Foi um ano difícil e maravilhoso ao mesmo tempo. As pessoas não acreditavam nem na ciência e nem na religião. Por capricho ou por uma sabedoria maior, foram justamente a ciência e a religião que resgataram a fé do povo. Pois, eis que em novembro de 1572, surgem no céu “dois sóis”. [Silêncio! O mundo se calou.].

Muitos pensaram: a profecia se cumpriu. E tiveram ou sentiram o temor do Senhor Deus. Pela Astronomia, o povo reconciliou-se com seu próximo temendo o castigo e a fúria do Criador. Os Lusíadas foi (e ainda é) o marco de que a ciência, no caso, a Astronomia lusitana provou para a humanidade  que muitas teorias daquela época estavam erradas.

Fig04: Céu de novembro de 1572
Fig04: Céu de novembro de 1572

O que aconteceu afinal? Naquele ano, uma estrela explodiu. Ela era tão brilhante que até durante o dia, poderíamos vê-la. Naquele momento, estava a observá-la Tycho Brahe (astrónomo Dinamarquês) que escreveu um livro sobre as suas extensas observações daquele espetáculo estelar, por ser o único relato conhecido do mundo actual daquele evento, a estrela B Cassiopeia, actualmente, recebeu o nome de Tycho Brahe.

Fig05: Localização de Cassiopeia.
Fig05: Localização de Cassiopeia.

Até hoje os astrónomos usam os rastros deixados  pela remanescente de supernova de Tycho para  fins de  estudos em Astronomia. São usados  vários telescópios  dentre os quais cita-se o Chandra. Depois de  444 anos, os astrónomos  agora sabem que   o remanescente  de Tycho  fora criado  pela  explosão  de uma anã branca, o que fez com que ela se tornasse parte  do que denominamos por  Classe de Supernovas do Tipo Ia, ou seja, as mesmas usadas para o acompanhamento da expansão do Universo.

Como a maioria do material, lançado para fora da estrela moribunda, tinha sofrido aquecimento devido às ondas de choque, consequentemente, o remanescente tem intensas emissões na faixa dos raios-X.  Os astrónomos do Chandra, após 15 anos de pesquisas, criaram um filme da evolução de raios-X do remanescente Tycho. Como resultado, notou-se que aquela explosão ainda continua a expandir-se.  Isso mesmo, 444 anos mais tarde, quando visto e analisado cá da Terra (a uma distância aproximada de   10 mil anos-luz),  o remanescente de Tycho parece-nos  sempre a avançar. Outro detalhe importante pode ser notado após juntarmos as observações realizadas em raios-X com as demais feitas na faixa de rádio.  Os resultados mostraram uma “anomalia” na velocidade. A diferença nos valores das velocidades no movimento externo da onda de choque pode ser creditada às discrepâncias na densidade do gás que está a rodear o remanescente de supernova. Este gradiente de densidade faz com que a posição do local da explosão (em relação ao centro geométrico) seja deslocada. Estima-se que o deslocamento  esteja em 10% do raio actual do remanescente, o que implica dizer, também, que  que a velocidade máxima da onda de choque  alcança a altura dos 19,3 milhões de km/h.

Fig06: Diferentes fotos tiradas do remanescente de Tycho.
Fig06: Diferentes fotos tiradas do remanescente de Tycho.

Com a descoberta, espera-se que haja outros deslocamentos similares noutros remanescentes de supernova. E qual é a importância deste estudo? Bem, a priori, esse conhecimento delimita a faixa na qual os astrónomos poderão encontrar uma estrela sobrevivente companheira.  Ou seja, qualquer estrela sobrevivente ajudaria a Astronomia na identificação  do mecanismo  de gatilho de uma supernova. Claro, também, confirmaria o facto que as anãs brancas puxam material das estrelas companheiras  até que  se atinja uma massa crítica e  venham a explodir. Por outro lado, a inexistência de uma estrela companheira, leva-nos a inferir que duas anãs brancas se fundem e esse processo é realizado de tal forma que a massa crítica seja ultrapassada, e consequentemente, não sobrevive estrela alguma nas proximidades daquelas.

Fig07: Ilustração de como seria a acção de uma anã branca.
Fig07: Ilustração de como seria a acção de uma anã branca.
Dr. Nélio Sasaki – Doutor em Astrofísica, Líder do NEPA/UEA/CNPq, Membro da SAB, Membro da ABP, Membro da SBPC, Membro da SBF, membro da UAI, membro da PLOAD/Brasil e ST/Brasil, Revisor da Revista Areté, Revisor da Revista Eletrônica IODA, Revisor ad hoc do PCE/FAPEAM, Coordenador do Planetário Digital de Parintins, Coordenador do Planetário Digital de Manaus, Professor Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

 

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