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2016 H03

Fig01: 2016 H03 a orbitar a Terra.

Então, quantos satélites naturais estão a orbitar a Terra?

A definição faz com que designemos   satélites naturais  a todos os  corpos celestes que  estão na esfera de acção ou de influência de  outro corpo maior. Se levarmos essa decisão a cabo perceberemos que o termo “satélite natural” será empregado   para luas que orbitam planetas, ou para  planetas-anões que orbitam uma estrela-hospedeira, ou ainda para uma  galáxia anã  a orbitar uma galáxia maior.

Dentro deste contexto,  notamos facilmente que  a resposta à questão levantada, no início deste texto, não é trivial. Alto lá, tu estás a dizer que satélite natural não é o mesmo que lua? Toda lua é um satélite natural, porém, todo satélite natural não  é necessariamente uma lua.

Recentemente, foi anunciada a descoberta de um  asteróide  que está a orbitar o Sol, o qual  faz com que o novo objecto  seja um companheiro da Terra e desta forma ficará  por séculos.

O novo asteróide  recebeu a alcunha  2016 H03 e gira em torno à Terra. Mas,  há um detalhe importantíssimo, a saber: como  o asteróide   2016 H03 está muito distante da Terra, ele não  pode ser considerado um verdadeiro satélite natural do nosso planeta. Por outro lado, 2016 H03 é o melhor e mais estável exemplo de um companheiro da nossa Lua. Daí o uso do termo “quase-satélite”.

Sei, vais dizer-me que actualmente a Terra tem um satélite e meio? Gostei do termo. Mas não colocamos desta forma.

Vale sublinhar que esse facto já aconteceu em outras situações. Uma delas é o caso de  2003 YN107, um asteróide que orbitou a Terra por mais de uma década, e em seguida, deixou a nossa vizinhança.

Fig02: Asteróide 2003 YN107.
Fig02: Asteróide 2003 YN107.
Fig03: 2016 H03, o quase-satélite da Terra.
Fig03: 2016 H03, o quase-satélite da Terra.
Fig04: Movimento de 2016 H03 em torno da Terra.
Fig04: Movimento de 2016 H03 em torno da Terra.

Astrónomos da NASA afirmaram que  2016 H03 tem se mantido  estável  há  quase um século e assim permanecerá  por  séculos. Durante o seu  movimento de  translação,  metade do tempo  2016 H03  fica mais perto do Sol que a Terra (e passa à frente de nosso Planeta). E na outra metade, ele  fica  mais longe do Sol que a Terra (o que faz com que ele se mova para “trás”). A órbita do quase-satélite é  levemente inclinada (8°), o que leva 2016 H03 a oscilar  para cima e para baixo a cada ano através do plano orbital terrestre.

A  figura 04 mostra o movimento do quase-satélite 2016 H03 em torno da Terra.  Repare no período que a NASA divulgou, isto é, no canto  direito inferior constam os anos 1960 e 2020.  Pergunta: se  a NASA sabia desta informação desde  a metade do século XX, por qual motivo somente agora (quase duas décadas do século XXI) que ela se manifestou? Outra questão em aberto é: se a Lua  tem uma companheira, então porque os livros  continuam a ensinar que a Terra tem apenas um satélite natural?

Fig05: Movimento de 2016 H03 em torno da Terra e do Sol.
Fig05: Movimento de 2016 H03 em torno da Terra e do Sol.
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Fig06: Terra, Lua e 2016 H03.

Vamos, portanto, clarear  as indagações. Primeiramente,  observamos  as datas citadas, a saber: 1960 e 2020.  A NASA foi fundada em 1958 e definitivamente em dois anos ela não teria  desenvolvido tecnologia suficiente para fazer o mapeamento  nas redondezas da Terra. Diga-se de passagem, somente a partir  das décadas de 70,80 e principalmente 90 do século passado que  a Astronomia avançou de maneira significativa nas pesquisas de mapeamento espacial do Sistema Solar e vizinhança. Aliás,  o anúncio da descoberta de 2016 H03 foi  feito pela NASA  aos 27 de abril de 2016.

Fig07: Terra ladeada pela Lua e 2016 H03.
Fig07: Terra ladeada pela Lua e 2016 H03.

Em seguida, refletiremos um bocado sobre a parte conceitual.  Tão logo a  NASA tenha  divulgado a descoberta, muitos sítios  anunciaram  nos mais diversos mediáticos  o termo “mini-lua”. Outros, mais optimistas, chegaram a usar o termo “segunda lua”. Dois problemas aqui, um de imediato, a saber: se o professor fala  em segunda lua, logo o aluno questiona: Está bem, professor,  se temos duas luas, onde está a segunda que eu não consigo vê-la? Para responder ao questionamento desse aluno, temos que lembrar o facto de que nem mesmo a NASA tem  todas as informações, por exemplo, a localização exacta de 2016 H03 não foi revelada. O que se sabe é que  o quase-satélite  se aproximou no máximo catorze milhões de quilómetros da Terra e  se afastou  até quarenta milhões de quilómetros do nosso planeta. Segundo a própria NASA, 2016 H03 está situado entre 38 a 100 vezes a distância entre a Terra e a Lua. Essa é uma das razões pela qual não o enxergamos.  A outra razão para  é seu tamanho, afinal, o quase-satélite  tem apenas 40 metros de diâmetro e 100 metros de largura, aproximadamente a mesma área ocupada por seis (06) casas de 10 metros de frente e 20 m de comprimento. Para efeito de comparação,  o bumbódromo de Parintins tem  19 mil m2 de área, ao passo que  2016 H03 tem apenas   1256 m2 de área. Algo  em torno dos 6,6% da área ocupada pelo bumbódromo. Enquanto que o palco do maior Festival Folclórico do mundo corresponde a 0,000000005% da área da Lua. Dito de outra maneira, a Lua ocupa uma área equivalente a quase 2 mil milhões de vezes a área ocupada pelo bumbódromo de Parintins.

Fig08: Bumbódromo de Parintins
Fig08: Bumbódromo de Parintins

Por fim, vamos para a última resposta de hoje. Qual o porquê dos livros não nos ensinarem o certo? Alto lá, pá! E quem disse que há certo ou errado? Sinceramente, há ainda  muito o que discutirmos no que diz respeito aos conceitos  de lua e de planeta. Para ser mais honesto, foi proposto em uma das  reuniões da União Astronómica Internacional que a Lua  fosse  classificada como um planeta e não como um satélite natural. O impasse durou alguns anos, e enquanto a Astronomia  não se decide, torna-se inviável elaborar um livro descente  sobre este assunto e que realmente contribua com a formação dos estudantes. Dessa forma, muitos livros optam pela omissão a que fazer um pronunciamento equivocado sobre o assunto. Por ora, ficamos assim: a única lua que a Terra tem é a Lua. Porém, se a pergunta for quantos satélites naturais a Terra tem? Então, a resposta certamente não será somente a Lua. Além dela, teremos que contabilizar um quase-satélite 2016 H03 e outros satélites temporários. Isso mesmo, a vizinhança cresceu. Até a  próxima!

Dr. Nélio Sasaki – Doutor em Astrofísica, Líder do NEPA/UEA/CNPq, Membro da SAB, Membro da ABP, Membro da SBPC, Membro da SBF, membro da AIU, membro da PLOAD/Brasil e ST/Brasil, Revisor da Revista Areté, Revisor da Revista Eletrônica IODA, Revisor ad hoc do PCE/FAPEAM, Coordenador do Planetário Digital de Parintins, Coordenador do Planetário Digital de Manaus, Professor Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

 

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