Alpha Centauri – parte 01

Figura 01: Sistema estelar α-Centauri. No círculo verde (à esquerda, alpha Centauri), no círculo amarelo (à direita, beta Centauri) e no círculo azul, Proxima Centauri.

Hoje, falaremos sobre um tema mui controverso: vida fora do Sistema Solar. Primeiramente, atentemo-nos para o facto de que o termo “vida” é muito amplo e além do mais, a procura por vida implica em encontrarmos registos de vida primitiva nalgum sítio. Em nossa testa, nos deparamos com a seguinte questão: como procurar indícios de vida no Sistema Solar?

A resposta é imediata, afinal, um dos propósitos das missões espaciais era também esse. Mais recentemente, sondas equipadas com alta tecnologia vasculharam nosso Sistema Solar. E finalmente, chegamos ao ponto: se não há vida cá no Sistema Solar, será que existiria fora dele? Caso a resposta fosse afirmativa, por onde começaríamos a investigação?

Seguramente,  α-Centauri será a primeira opção dos astrónomos. Vamos conhecer um pouco mais sobre o nosso “alvo”. Denomina-se α-Centauri (lê-se alpha Centauri) ao sistema estelar mais próximo do Sistema Solar. Em Astronomia, para grandes distâncias usamos uma unidade chamada “anos-luz”.  O sistema estelar α-Centauri encontra-se a 4,37 anos-luz da Terra.  Isto equivale a dizer que a luz daquele sistema estelar leva 4,37 anos para chegar até nós. Em outras palavras, quando olhamos para α-Centauri (que pode ser avistada à vista desarmada) estamos de facto a olhar para o passado. Isso mesmo, estamos a olhar para a luz que saiu de α-Centauri 4,37 anos atrás e somente agora chegou até nós. Se você é aquele leitor que ama explodir tudo, então, se todas as três estrelas que formam o sistema α-Centauri explodissem agora, nós perceberíamos a ausência dessas estrelas no céu somente em novembro de 2024.

Na figura 01, temos as três estrelas que formam o Sistema Estelar α-Centauri, a saber: Alpha Centauri, Beta Centauri e Proxima Centauri. Aliás, esta leve este nome por ser a estrela mais próxima de nós (a 4,23 anos-luz) de distância. Podemos comparar estas três estrelas com o nosso Sol, conforme mostrado na figura 02, abaixo.

Figura 02: Comparação, em escala, das estrelas do Sistema estelar Alpha Centauri e o Sol.

O Chandra está a trabalhar no sentido de coletar as maiores quantidades de dados tanto de exoplanetas quanto de estrelas-mães, as quais proporcionariam o surgimento da vida fora do Sistema solar. A análise de um conjunto de dados, do Sistema estelar α-Centauri, permitiu a um grupo de astrónomos lançar uma tese na qual aquele Sistema é o que possui os índices mais baixos de radiação (na faixa de raios-X) encontrados na vizinhança do Sistema solar. Portanto, caso haja vida, provavelmente seja nos exoplanetas daquele sistema.         Mas fica o alerta: uma das estrelas daquela tríade possui nível altíssimo de radiação.

É sabido que tanto os elevados índices de radiação quanto os efeitos do “clima espacial” desfavorecem o surgimento de vida em exoplanetas. O primeiro devido às altas doses de radiação, ao passo que o segundo pela remoção da atmosfera do exoplaneta. Independentemente desses quesitos, uma afirmativa é irrefutável: a proximidade entre estes dois sistemas estelares faz de α-Centauri o nosso melhor “alvo” para um estudo profundo sobre sinais de vida em exoplanetas. Mais uma vez, o que os astrobiólogos buscam são evidências de vida simples nos exoplanetas. A outra face deste problema está na quantidade de exoplanetas encontrados nas proximidades de α-Centauri.

Para facilitar nosso trabalho, faz-se necessário ter em mente o conceito de “zona de habitabilidade”.  Dentro deste âmbito, procuremos comparar as estrelas do Sistema estelar α-Centauri com o Sol. Notamos na figura 02, que α-Centauri – embora maior que o Sol, é bem similar a nossa estrela. Também, até certo ponto, β- Centauri apresenta igualmente semelhanças com o nosso Sol. Quem destoa das características solar é a Proxima Centauri – uma anã vermelha.

Ao levarmos em consideração apenas a actividade estelar, em particular, emissões na faixa dos raios-X, notaremos que Proxima Centauri [cuja distância até as binárias Centauri AB (α-Centauri e  β- Centauri) supera em 2 mil vezes a distância entre Terra-Sol] emite intensas explosões em raios-X que qualquer uma das estrelas deste Sistema.  Por outro lado, as binárias Centauri AB possuem índices de emissão em raios-X bem inferiores àqueles apresentados por Proxima Centauri. Esse facto, por si só é uma grande motivação para a sequência desta investigação. Desde a década passada, o Chandra está a rastrear exoplanetas naquela região. Mas somente em 2012 que foi confirmado a existência de um exoplaneta a orbitar Beta Centauri, daí a alcunha Alpha Centauri Bb. Ainda segundo as evidências, acredita-se que haja mais exoplanetas naquela região. E sendo assim, podemos projectar a zona de habitabilidade para aquele Sistema estelar. Um probleminha à vista: a quantidade de emissão em raios-X de alpha Centauri é menor que a solar, ao passo que, para a Beta Centauri, o valor para esse quesito chega a ser o quíntuplo daquele emitido pelo Sol. Dentro deste contexto, espera-se que a zona de habitabilidade tenha se deslocado para as órbitas mais externas nas vizinhanças de Beta Centauri.

Uma cousa é certa: o Chandra terá duas importantíssimas tarefas, a saber: rastrear os exoplanetas na zona de habitabilidade das binárias Centauri AB; e fazer aquisições das emissões em raios-X do Sol. Ao compararmos as consequências dos efeitos provocados pelo sistema estelar  α-Centauri em seus planetas, com os efeitos da radiação nos planetas do Sistema solar – teremos uma melhor compreensão dos danos causados pela exposição intensa a esse tipo de actividade. De forma pontual, as telecomunicações e todo o sistema bancário mundial podem ser vítimas das consequências deste fenômeno.

Figura 03: Exoplaneta Alpha Centauri Bb a orbital as binárias Centauri AB

Na figura 03, temos o exoplaneta Alpha Centauri Bb, que  orbita a Beta Centauri. No canto inferior esquerdo está a Alpha Centauri e no canto superior direito está o Sol.

Afinal, se o tema é vida fora do Sistema solar, então encontrou ou não? A resposta para esta pergunta ainda está no futuro.  A partir de agora que teremos telescópios mais potentes que somaram esforços às sondas. Se realmente existir sinais de vida primitiva fora do Sistema solar, certamente, será no Sistema α-Centauri. Vale salientar que, neste contexto, ninguém está a questionar Deus. Caso encontremos um exoplaneta que apresente uma plantinha, por exemplo, essa constatação servirá para entendermos como a vegetação realmente contribuiu e se comportou ao longo de todo processo de resfriamento terrestre. Além do mais, será um grande indício que nós -enquanto humanidade – devemos nos esforçar para que consigamos dominar e usar outras técnicas de utilização de energia, que possamos aprender a produzir sem contaminar nossos rios e/ou ar. Que sejamos capazes de entender em profundidade o significado da palavra “meio ambiente”. Hoje, o mais provável será a confirmação de vida simples: bactéria, por exemplo. Em termos gerais, esperamos encontrar seres extremófilos, isto é, micro-organismos que conseguem sobreviver às condições extremas ou que até necessitam fisicamente de condições geoquímicas extremas. Finalmente, tais evidências já foram contatadas no nosso Sistema Solar.

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Dr. Nélio M. S. A. Sasaki

Coordenador do Núcleo de  Ensino  e  Pesquisa  em  Astronomia-NEPA

Professor e Pesquisador  Adjunto da  Universidade  do  Estado  do  Amazonas (UEA)

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