Arlindo Jr dedicava a vida artística na luta contra o câncer

Voltar ao palco do curral Zeca Xibelão, do Boi-Bumbá Caprichoso, em Parintins, para Arlindo Jr, aos 50 anos, foi se sentir dentro de casa, ao reencontrar a nação azul e branca, na temporada do Festival Folclórico de Parintins 2019. O Pop da Selva, em um momento delicado da vida, nunca desistiu de lutar contra o câncer no estômago. Ele faleceu no Hospital Samel, em Manaus, na noite deste domingo (29).

O ex-levantador de toadas e ex-apresentador do Caprichoso, quando estava em tratamento médico em São Paulo, Arlindo Jr, não pensou duas vezes em aceitar o convite do presidente do boi da estrela, Babá Tupinambá, para ser o anfitrião no curral Zeca Xibelão, na noite do dia 23 de março. No palco, onde começou a carreira como levantador de toadas do Caprichoso, em 1989, aos 20 anos, o artista superou a dor intensa do estado de saúde, cantou com a alma e com o amor ao boi azul.

O timbre inconfundível do Pop da Selva levou centenas de torcedores ao Ensaio Show da Marujada de Guerra. “É uma emoção e alegria muito grande a gente rever grandes amigos, o nosso boi do jeito que tá, sentir essa força da galera de Parintins e busquei retribuir tudo isso, com um show com muita alegria e com muito amor à essa galera que eu tenho uma paixão incrível”, descreveu.

Há dois anos e meio, Arlindo Jr conta que descobriu câncer e lutava até hoje para ser curado. “A gente melhora e depois piora. Vai passando as etapas, a gente vai lutando e vamos conseguindo vencer. Agora, aumentou o meu câncer no pulmão e vamos ter que fazer um novo processo. Serão 30 dias de luta. Vou viajar dia 30 de março para São Paulo, onde devo passar um mês. Vamos fazer 20 sessões de radioterapia e de quimioterapia. Se Deus quiser, vamos vencer mais essa batalha que não está fácil. Meu maior problema é muito dor, mas a gente  toma remédio para poder andar e fazer os shows”.

Liberado pelo médico para cantar em shows, Arlindo Jr vive da música para ajudar no tratamento de saúde contra o câncer. “Até para comprar meus remédios e fazer tudo o que faço. Para combater essa minha doença, é graças ao meu esforço como artista. Vamos matar esse ‘bicho’, vamos vencer com essa energia do povo parintinense, dos torcedores dos bois que oram por mim. Tenho certeza que vamos a gente vai passar por mais essa”, confia.

As lágrimas rolaram nos olhos de Arlindo Jr quando pisou no palco da sua origem artística. “O curral Zeca Xibelão representa tudo na minha vida. Eu sou o que sou graças a isso aqui. Eu, quando cheguei aqui, em 1988, ainda era de areia, com palco no lado direito, o galpão de alegorias onde é a Escolinha de Artes, tudo muito simples naquela época. Efetivamente, levantava poeira, porque era na areia. É só lembrança boa que eu tenho daqui desse lugar que me fez ser o Pop da Selva”, recorda.

De 1989 em diante, ano da estreia do levantador de toadas, Arlindo Jr consolidou uma história de muito amor e paixão ao Boi Caprichoso, até a despedida do item oficial em 2006. Na década de 1990, se tornou ídolo, com estilo pop de cantar toadas, deu uma grande contribuição para o festival de Parintins ser o que é atualmente, ao popularizar o ritmo quente do Caprichoso pelo Brasil e pelo mundo, em tempos de poucos recursos na construção dos espetáculos boi de arena.

“Não se tinha muito dinheiro, as alegorias se repetiam na arena nas três noites, de madeira, de uma forma diferente. Era tudo feito com amor, na garra, na raça. A gente não tinha como ensaiar com as tribos assim como hoje. Passamos por muitas transformações, evoluímos e batalhamos para fazer inovações”, relembrou. Arlindo fez inovações na arena com o Caprichoso como a criação dos ensaios técnicos para comandar a interação da galera com os espetáculos com gestos, a cada toada tocada.

Pop da Selva colocou teclado nas toadas na arena e criou medley, estilo característico do Caprichoso. “São várias coisas que conseguimos implantar dentro do festival com o Boi Caprichoso e depois o Garantido abraçou também como se fosse dele”, revela. Arlindo Jr avalia que o Caprichoso atual é o mesmo boi ousado da década de 1990, que se preocupa com a apresentação de arena e faz da arte a própria história.

A entrevista foi concedida por Arlindo Jr ao jornalista Gerlean Brasil, no dia 23 de março deste ano.

Foto de capa Edmar Barros

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