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As memórias de cárcere do rapper Luaty Beirão

Memórias do cárcere: "Todo este caderno escrito abrange apenas poucos dias da prisão. Eu teria escrito muito mais se deixassem", diz Luaty, de Angola - Divulgação/Ampe Rogério/Rede Angola

Cantor angolano conta em livro a rotina como preso político em cadeia de Luanda

Mariana Filgueiras | O Globo

RIO — Há cerca de um ano, um músico angolano foi preso em Luanda por ler um livro. Detido pela polícia do regime do MPLA junto a outros 16 amigos que discutiam em grupo a obra “Da democracia à ditadura”, do cientista político americano Gene Sharp, o rapper Luaty Beirão deu início a uma greve de fome na cadeia, em protesto à condenação por “atos preparatórios para rebelião” e “associação criminosa”. Durante 36 dias, tempo que resistiu sem comer, sua história correu o mundo em manifestações de solidariedade. Foram petições, vigílias e manifestos de apoio — no Brasil, artistas como Mano Brown (um dos ídolos de Luaty), Emicida, Chico César, Maria Gadu, Gaby Amarantos, Negra Li, MC Marechal, Rincon Sapiência e Kamau aderiram à causa. Luaty ficou confinado até junho deste ano, quando o governo decretou anistia aos presos políticos.

Ao longo de todo este tempo, o rapper conseguiu burlar a vigília e escrever um diário, que ocupou dois cadernos. O primeiro ele conseguiu fazer sair do presídio em meio aos jornais levados pelas visitas. O segundo foi interceptado e perdeu-se. As 125 páginas do material que resistiu acabam de ser lançadas em Portugal com o título “Sou eu mais livre, então: diário de um preso político angolano” (Tinta da China), que em breve chegará também ao Brasil.

— A mente não gosta de estar desocupada — comenta Luaty, por telefone, de Luanda, pouco antes de sair para o ensaio do primeiro show que fará depois da soltura. — Todo este caderno escrito abrange apenas poucos dias da prisão. Eu teria escrito muito mais se deixassem.

Neste “Memórias do cárcere” angolano, Luaty conta em detalhes o momento em que foi preso, a rotina na cadeia, as conquistas para si mesmo e os outros detidos, como o aumento da frequência dos banhos de sol e da ração de água semanal (quando chegou, tinha direito a apenas 1,5 litro de água a cada dois dias, para tomar banho, lavar pratos, talheres e roupas).

ISOLADO NA SOLITÁRIA

“Fui transportado de uma forma que me fez sentir como uma espécie de Hannibal Lecter meets David Copperfield: de noite, num minibus, dentro de um cubículo de metal que parecia um caixão na vertical, algemado e com meus parcos pertences amontoados aos meus pés”, escreve ele.

Isolado na ‘‘mombaka’’, a solitária, no mesmo bloco dos homicidas e violadores, convivendo com ratos e baratas, Luaty conta que começou a greve de fome quase espontaneamente, ao recusar o “matabicho” (café da manhã) servido na prisão, com medo de ser envenenado. Até decidir interromper de vez a alimentação para chamar a atenção para as reivindicações do grupo. A um custo emocional arriscado, a tática deu certo. Questionado sobre os perigos de expor num livro o sistema prisional do país, Luaty reflete:

— Fomos anistiados sendo inocentes. Vamos continuar a expor o nosso sistema judicial. Não acho que seja mais perigoso o que tenho feito do que o que já fizemos antes. Quanto mais expomos, mais me sinto protegido, pois mais gente sabe o que acontece em Angola. Vários países pressionaram pela nossa anistia.

No diário, o rapper também compartilha as leituras feitas na prisão (devorou obras do conterrâneo José Eduardo Agualusa), faz reflexões existenciais e comentários musicais (há até um set inteiro de rap montado para uma futura mixtape), rascunha letras de rap e esboça um romance. Num trecho, comenta que quando ouvia de longe o som da TV, sabia que era noite, pois os carcereiros assistiam à novela “Avenida Brasil’’. Era o irônico som do kuduro da abertura que dava as horas a ele.

Também registra as músicas dos presos (“Já nos comeram a carne, estão a nos comer também os ossos/ queremos o dinheiro do petróleo/ é nosso”), e os “louvores de cadeia”, estrofes cantadas em uníssono por um coro de mais de cem presos, o que o emocionava bastante:

— Todo angolano é artista. A falta de emprego, a necessidade de sobrevivência, a criatividade aqui é genética. Tudo virava kuduro. Eu pensei até em pedir as letras dos louvores, e assim as punha alinhada em versos, e publicar este livro com um CD. Mas pá, os caras estão ali a sonhar em ser livres, não estão pensando nisso. Mas ainda quero voltar lá e fazer um documentário.

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