Babá e Jender, da chapa favorita para suceder Joilto Azedo, explicam como pensam dirigir o Caprichoso

Babá (à esquerda) e Jender pregam a união e formaram a chapa favorita à eleição para a presidência do Bumbá Caprichoso

A eleição para a presidência dos bumbás de Parintins se tornou tão importante quanto à própria eleição para a Prefeitura do Município. Foi uma surpresa no Caprichoso quando, nesse clima de disputa acirrada, o advogado Jender de Melo Lobato, 33, anunciou que abria mão da candidatura e disputaria a presidência do Caprichoso como vice do empresário José Tupinambá Ribeiro Pontes, 46, o Babá Tupinambá.

A eleição do sucessor do empresário Joilto Azedo, atual presidente, está marcada para o dia 4 de setembro, embora haja propostas tanto de antecipação quanto de adiamento da data. Babá e Jender eram tidos como os principais concorrentes à sucessão de Joilto. Babá entrou no Caprichoso há 26 anos, empurrando alegorias.

Depois foi coordenador da Marujada de Guerra, o ritmo do bumbá, coordenador de galpão, diretor de almoxarifado e de eventos e compôs toadas como “Eu quero te amar” e “Nações valentes”. Atuou também como fiscal de jurados.

Há oito anos, Babá resolveu encarar o ponto mais forte do Garantido, a galera, ajudando a fundar a torcida organizada Raça Azul, que hoje preside, considerada responsável por vitórias históricas no item, mesmo quando o Caprichoso perde, como aconteceu no Festival deste ano. Natural de Sobral (CE), de onde se mudou para Parintins aos 7 anos, para acompanhar a família, sucessora do tio Manoel Ribeiro, comerciante na Ilha Tupinambarana, Babá hoje é dono da Pró Show Iluminação, uma empresa de eventos.

Com a autoridade de quem participou de todas as diretorias do Caprichoso, desde a do presidente Dodozinho Carvalho, na década de 1990, afirma que quer juntar os cacos das diversas facções em que o bumbá azul e branco está dividido. “União é a marca da nossa chapa”, enfatiza. O advogado Jender Lobato é o torcedor do tipo mais tradicional. Morador da avenida Sá Peixoto, o Esconde, vizinho de Santarém, o tocador do banjo e construtor da Dona Aurora, ele participa ativamente do bumbá desde 2003, na gestão César Oliveira.

Foi da Marujada de Guerra, fiscal, advogado do boi por dez anos seguidos e representante do Caprichoso na escolha dos jurados por seis anos. “Abri mão da disputa da presidência por entender que é hora de unir as forças. O Caprichoso não vai suportar a divisão radical que tem sido vista nos últimos anos”, afirma.

Veja, abaixo, a íntegra da entrevista que Babá Tupinambá e Jender Lobato.

O que te levou a concorrer à presidência do Caprichoso?

Babá Tupinambá – A vontade de ver nosso boi voltar a ser o que era antes, forte, vitorioso, como foi na década de 1990. É o que nós sonhamos que ele volte a ser. Mas tudo começou quando o Rossy Amoedo (atual vice-presidente), após o workshop do boi, em outubro de 2015, me convidou para ser vice dele. Fiquei muito feliz e comecei a trabalhar pela chapa. Como ele se tornou um artista conhecido nacionalmente e tem muitos compromissos fora de Parintins, eu senti a receptividade do associado e recebi apelos para lançar uma chapa própria. Aí nós entramos na luta, construindo um caminho próprio e assumindo compromissos que foi ficando difícil compartilhar.

Jender Lobato – Fui candidato na eleição passada e desde lá para cá venho trabalhando meu nome para me lançar candidato a presidente de novo. Por acreditar que durante todos esses anos trabalhando pelo boi e acompanhando várias administrações, a gente atingiu maturidade e conhecimento que podem proporcionar melhorias e organizar o Caprichoso, para que comece a trilhar dias melhores.

Como se deu o acordo entre vocês dois?

Jender – O Babá me convidou para ser o vice da chapa. Uma semana depois, a gente sentou e bateu o martelo. O que me levou a aceitar é o compromisso do Babá com a união dentro do boi. Há uma divisão muito dura, entre situação e oposição, com a desunião reinando de forma muito intensa no Caprichoso. Ouvi pessoas importantes do boi, como Sérgio Viana, Dodozinho Carvalho, Carmona Oliveira, Saulo Viana, Markan Uchôa, Dernando Reis, Keynes Breves e Lene Medeiros, entre outros, para saber qual caminho tomar para evitar que a eleição fosse mais um divisor de águas. Eles me disseram que estava nas nossas mãos promover a união do boi, dos diversos grupos, em prol de um projeto que não é do Babá e nem do Jender, pessoalmente, mas do Caprichoso, como um todo. Aí aceitei ser candidato à vice.

Babá – Fiquei muito feliz ao ver a humildade com que o Jender recebeu nossa proposta. É esse espírito que o Caprichoso precisa recuperar. Não é fácil desistir de um sonho e eu disse a ele que não é uma desistência, mas um adiamento do sonho. Foi quando nós sentamos e vejo com alegria que a palavra união, como lema da nossa campanha, voltou a ser cogitada dentro do Caprichoso. União é a base da família, da sociedade, fundamental para qualquer grupo. Como o Jender falou, o boi já está dividido e a gente não podia dividir mais ainda. É esse pensamento de união que a gente quer levar para todos os segmentos do boi, do funcionário mais simples ao mais importante artista. Quero a harmonia total do boi.

Qual o balanço que vocês fazem do Caprichoso atual?

Babá – Há vários problemas. Na Justiça do Trabalho, pagamentos atrasados, artistas sem receber os salários… O boi sentiu muito a crise econômica. O Festival Folclórico deste ano foi feito na marra, na garra, na coragem. A gente está sabendo de tudo isso e é por isso que queremos tanto ser presidente do boi. O sentimento fala mais forte e mais alto que qualquer problema que possa existir dentro do boi.

Jender – A gente conhece as dificuldades do boi, mas estamos preparados para montar um comitê de crise e uma equipe de captação de recursos grande, capaz de recuperar a parte financeira, que é onde mais estamos sofrendo, e resgatar a credibilidade do Festival de Parintins como um todo.

O Governo do Estado se retirou do Festival e a Prefeitura de Parintins assumiu a organização da festa. Qual é a análise de vocês do resultado desse processo?

Babá – Um dos nossos objetivos é retirar o Caprichoso da política partidária. Não queremos que a disputa por cargos políticos ou o apoio a políticos, se transforme em fator de desunião do boi. Queremos o apoio e a participação do político, mas não na gestão do boi e sim como representante da sociedade. O que ocorreu esse ano, foi muito ruim para o Festival. Perdeu a festa e perdeu o Governo do Estado, que certamente já refez a sua opinião e no ano que vem deve retornar ao Festival.

Jender – Se formos eleitos, imediatamente vamos procurar o governador, a Secretaria Estadual de Cultura, o Ministério da Cultura, o Ministério do Turismo, nossos parlamentares federais e estaduais, para buscar aporte financeiro para dar segurança à organização e manutenção do Festival. A festa, afinal, é parte do calendário oficial da Embratur. Isso significa que o Governo brasileiro recomenda ao turista, que queira conhecer o País, que vá à festa parintinense. Isso nos traz muito orgulhoso e é um patrimônio que precisamos preservar.

Quais são os planos de vocês para a gestão do Caprichoso?

Babá – Temos alguns compromissos com o associado. Vamos reabrir a Escolinha de Artes, trazer de volta a Tarde Alegre, a fuga do boi, a Marujadinha, o lado social como um todo. Essas coisas o Caprichoso já teve e nós vamos fazer voltar. O associado reclama muito da falta de participação dele e nós vamos ouvi-lo. Por exemplo: a comunidade do Caprichoso em Manaus é grande, mas como as assembleias são realizadas em Parintins, às vezes ela não é ouvida. Virei a Manaus, quando tivermos assuntos do interesse geral, reunirei com os sócios do boi, integrantes ou não do Movimento Marujada, e vamos transformar as opiniões deles em bandeiras de todos nós. No lado do Boi de Arena, o objetivo é fazer um boi forte, organizado e vitorioso. Uma meta nossa é manter os salários dos artistas sempre em dia. São coisas fundamentais e que a gente vai priorizar.

Jender – Vamos também criar um portal de transparência, onde o associado tenha acesso às informações sobre os recursos recebidos e as despesas do boi. A ideia é reformular o site do boi para dar ao associado um canal direto com a diretoria, recebendo dele críticas e sugestões para aprimorar o nosso trabalho.

Há uma ideia de antecipar a eleição, por causa do feriado da Semana da Pátria, uma vez que o pleito está marcado para 4 de setembro, um sábado, e o feriado do 7 de setembro cai na quarta-feira. Muitos acreditam que o associado do Caprichoso vai viajar e ficará pouca gente para votar. O que vocês acham?

Babá – O certo seria antecipar a eleição. O feriado vai tirar muita gente de Parintins. Há uma dúvida se a eleição deve acontecer antes ou depois do dia 4. Para nós tanto faz, do ponto de vista eleitoral, mas que seja feito o melhor para realizar a vontade do associado.

Jender – Ninguém lembrou que 4 de setembro é véspera de feriado. Está em discussão a possibilidade de mudança e é melhor que seja antecipado, para todo mundo aproveitar o feriado, inclusive nós e os demais competidores. A campanha é dura e esse descanso viria bem a calhar.

Qual a opinião de vocês sobre os outros concorrentes à presidência do Caprichoso?

Babá – Tenho feito e defendo uma campanha limpa, sem agressões, nunca esquecendo do respeito de um para com o outro. A gente sabe que há eleitores mais apaixonados, que podem dizer uma coisa ou outra mais dura, mas nós estamos fazendo a nossa parte por uma campanha limpa e respeitosa.

Jender – A gente prega a união e não poderia fazer diferente. Uma chapa que pretenda construir um boi organizado e participativo, não pode fazer uma campanha suja, com ofensas, com coisas que podem levar a um rompimento futuro.

Qual a razão para o associado do Caprichoso votar na chapa de vocês e não numa das outras concorrentes?

Babá – Votarão em nós os associados que querem fazer um boi unido, onde todos participem. O boi da década de 1990 fazia a gente brincar, cantar… Ninguém falava mal da diretoria anterior e a gente só tinha em mente o interesse do boi. Hoje, infelizmente, temos pessoas que se dizem torcedores do nosso bumbá e que torcem contra. Muita gente, nas nossas reuniões, fala daquele período dos anos 1990, quando o boi tinha alegria suficiente para impulsionar preparação, ensaios no curral, em Parintins, e em Manaus, transbordando para a arena e construindo muitas vitórias. Queremos trazer esse tempo de volta.

Jender – O nosso maior intuito é exatamente promover essa união e construir um boi harmonioso, onde as pessoas possam esquecer os grupos de A, B ou C e que voltem a levantar a bandeira azul e branca, a bandeira do Caprichoso.

Do Portal do Marcos Santos

 

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