C/2014 S3 (PANSTARRS) e a formação do Sistema Solar interior

Fig01: Telescópio Canadá-França-Hawaii.
Fig02: Telescópio VLT do ESO.
Fig02: Telescópio VLT do ESO.

Com o auxílio do telescópio Canadá-França-Hawaii (TCFH) e do VLT (Very Large Telescope) do ESO, astrónomos da Universidade do Hawaii (e colaboradores) mostraram que C/2014 S3 (PANSTARRS) é o primeiro objecto a ser encontrado em uma órbita cometária de longo período a apresentar as características íntegras de um asteróide do Sistema Solar interior. Pergunta clássica: qual é a importância disso? Acontece que o estudo deste asteróide pode fornecer-nos informações valiosas de como se formou o Sistema Solar interior. A comemoração deve-se ao facto de este cometa apresentar a mesma matéria existente na formação dos planetas telúricos como, por exemplo, a Terra. Alto lá, mas passaram tantos anos, isso ainda é possível? Resposta: sim, pois, o C/2014 S3 (PANSTARRS) ficou muito tempo preservado na Nuvem de Oort, há milhares de milhões de anos.

Fig03: C/2014 S3 (PANSTARRS).
Fig03: C/2014 S3 (PANSTARRS).

A tese dos astrónomos envolvidos neste estudo é que o asteróide C/2014 S3 (PANSTARRS) formou-se na mesma época em que se deu a formação do nosso planeta, a Terra. Porém, por algum motivo (ainda não compreendido) o objecto foi jogado para fora do Sistema Solar interior e sua expulsão ocorreu ainda em uma fase bem inicial de todo aquele processo.

Fig04: Em vermelho, trajectória de C/2014 S3 (PANSTARRS).
Fig04: Em vermelho, trajectória de C/2014 S3 (PANSTARRS).

As análises dos dados confirmaram que este corpo rochoso é antigo e não um asteróide contemporâneo que tenha sido afastado.  Essa informação faz desse objecto um potencial candidato a integrante de um dos planetas rochosos (incluindo a Terra). É como se encontrássemos um tijolo de uma casa que fora edificada muito tempo atrás. Alguém, por algum motivo, jogou esse tijolo fora.

A Astronomia actual conhece bem a existência de inúmeros asteróides e, sabe como ninguém, que todos eles tiveram suas composições alteradas em virtude das várias vezes que estes asteróides passaram próximo do Sol – ao longo de milhares de milhões de anos. Porém, C/2014 S3 (PANSTARRS) é o primeiro asteróide virgem observado pelos astrónomos. Aliás, esse objecto foi classificado como cometa, mesmo não apresentando a cauda característica que os demais cometas exibem ao aproximarem do Sol. Inexplicavelmente, esse objecto foi ejectado para dentro do Sistema Solar interior.

Fig05: C/2014 S3 (PANSTARRS) visto pelo TCFH.
Fig05: C/2014 S3 (PANSTARRS) visto pelo TCFH.

As características de C/2014 S3 (PANSTARRS), segundo este estudo, são:

  1. Trata-se de um asteróide do tipo S, o qual habita geralmente a cinta principal interna de asteróides.
  2. Não se parece com nenhum outro cometa típico (aqueles gélidos do Sistema Solar exterior).
  3. O material constituinte de sua superfície parece estar intato, facto que sugere que tal objecto esteve congelado durante anos.
  4. Se compararmos qualquer cometa não-rochoso com o C/2014 S3 (PANSTARRS), uma vez mantida a mesma distância de ambos até o Sol, então,  o cometa rochoso apresentará actividade cometária quase  um milhão de vezes menor  que  o cometa não-rochoso.

Apesar da comemoração da descoberta, os astrónomos estimam que seja necessário estudar ao menos uns 100 cometas rochosos para termos uma visão mais clara do processo de formação do Sistema Solar interno. Agora temos vários problemas em aberto, entre os quais se citam: como surgiram os planetas rochosos? Esses planetas surgiram na mesma época? Houve colisão entre eles? Seja qual for a resposta, agora a Astronomia está a ficar cada vez mais animada. Estamos aqui, a acompanhar as cenas do próximo capítulo. Até a próxima!

Dr. Nélio Sasaki – Doutor em Astrofísica, Líder do NEPA, Membro da AIU, Membro da ST/Brasil, Membro do PLOAD/Brasil, Membro da SAB, Membro da ABP, Membro da SBPC, Membro da SBF, Revisor da Revista Areté, Revisor da Revista Eletrônica IODA, Revisor ad hoc do PCE/FAPEAM, Coordenador do Planetário Digital de Parintins, Coordenador do Planetário Digital de Manaus, Professor Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

 

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