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Ceres e suas manchas brilhantes – Parte 2

Figura 01: Concepção artística da sonda Dawn. Créditos da imagem: NASA.

A missão Dawn já está em acção e recentemente foram divulgadas novas imagens aos redores de Ceres. Os olhares desta vez se voltam para a Cratera Occator*, com 4 metros de profundidade e 92 quilómetros em diâmetro, ela contém a área mais brilhante do planeta-anão. *O nome Occator foi escolhido em homenagem ao deus romano Occator (a divindade agrícola).

Figura 02: Cratera Occator a apresentar 92 km de diâmetro e 4 m de profundidade. Contém a área mais brilhante de Ceres. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI.
Figura 02: Cratera Occator a apresentar 92 km de diâmetro e 4 m de profundidade. Contém a área mais brilhante de Ceres. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI.

Registradas a uma altura de 385 km acima da superfície de Ceres, as imagens revelaram uma cúpula em um poço com paredes lisas no centro brilhante da cratera.

Figura 03: Vista próxima da cratera Occator. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI.
Figura 03: Vista próxima da cratera Occator. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI.

Na figura 03, podemos notar que várias características lineares e fraturas cruzam a parte superior e os flancos desta cúpula. Sendo que as fraturas também rodeiam a cúpula e atravessam outras regiões brilhantes, porém, menores, que se encontram dentro da cratera. Esses aspectos reforçam a hipótese de ter havido actividade geológica, em um passado recente, em Ceres. Entretanto, do ponto de vista científico, será mais prudente concluir o mapeamento geológico detalhado da cratera antes de testar quaisquer hipóteses para a formação da cratera.

Outro aspecto relevante, que pode ser notado na figura 03, diz respeito às diferenças de cores na superfície de Ceres. Notoriamente os materiais existentes na superfície e as relações dos mesmos com a morfologia superficial mostram a diversidade da superfície do planeta-anão. O detalhe é que Ceres não apresenta muitas bacias de impacto, como pode ser notado na figura 04.

Figura 04: Mapa colorido da superfície de Ceres. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI.
Figura 04: Mapa colorido da superfície de Ceres. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI.

 

Figura 05: Mapa da superfície de Ceres, com cores melhoradas. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI.
Figura 05: Mapa da superfície de Ceres, com cores melhoradas. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI.

Na figura 05, os pontos em azul estão correlacionados com fluxos, planícies lisas e montanhas, factos que sugerem uma superfície muito jovem.

Na figura 04, nota-se que processos de impacto estão a dominar a geologia da superfície do planeta-anão. Por outro lado, as variações específicas de cor estão a indicar alterações de materiais. Em princípio, a causa de tais alterações  é  a complexa interacção do processo de impacto com a composição da sub superfície de Ceres. Facto que leva os astrónomos a esperarem que a sub superfície do planeta-anão seja enriquecida com gelo e voláteis.

Figura 06: Em destaque o hemisfério norte de Ceres e a cratera Oxo. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI.
Figura 06: Em destaque o hemisfério norte de Ceres e a cratera Oxo. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI.

A partir do instrumento GRaND (Gamma Ray and Neutron Detector) foram  coletados dados  que reforçam a hipótese de gelo na sub superfície de Ceres. Para entender esse processo, os neutrões e os raios-γ produzidos por interacções dos raios cósmicos com os materiais que se encontram na superfície do planeta-anão dão uma impressão digital da composição química de Ceres.

Ao passar mais próximo da superfície de Ceres, a sonda Dawn detetou uma quantidade menor de neutrões nos polos do planeta-anão do que no equador. Consequentemente, estamos a dizer que há maior concentração de hidrogénio a altas latitudes. Uma vez que o hidrogénio é um dos componentes da água, então, é razoável pensar que a superfície nas regiões polares apresente água gelada. Neste contexto, uma dúvida que ainda persiste é se a água gelada poderia sobreviver ao longo de milhares de milhões de anos por baixo da fria superfície a altas latitudes de Ceres.

Figura 07: Em detalhe a Cratera Haulani (com 34 km de diâmetro) – imagem captada pelo VIR. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI.
Figura 07: Em detalhe a Cratera Haulani (com 34 km de diâmetro) – imagem captada pelo VIR. Crédito da imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI.

A figura 07 evidencia o facto de que a sub superfície de Ceres não tem a mesma composição em todo o planeta. A imagem foi obtida através dos dados do VIR (Visible and Infrared Spectrometer), que é um instrumento cuja finalidade é analisar a forma na qual os vários comprimentos de onda oriundos da luz solar estão a ser refletidos pela superfície de Ceres.  A superfície é tão diversificada que há uma mistura de materiais contendo carbonatos e silicatos espalhados (em diferentes proporções) ao longo da superfície de Ceres.

Na figura 06, encontramos a cratera Oxo – local em que o VIR detetou água.  Em princípio esta água pode estar incorporada em minerais ou assumir a forma de gelo. Por ora, não se sabe como esta água chegou até a superfície. Pode ter sido devido ao deslizamento de terras, ou através de impactos, ou ainda em virtude da combinação de ambos fenômenos. Diga-se de passagem, oficialmente a cratera Oxo é o único lugar em Ceres, onde a água foi detetada próxima à superfície.

Em linhas gerais, a sonda Dawn tem uma linda história para contar, em 2015, ela se tornou a primeira missão a alcançar um planeta-anão e a primeira a orbitar dois alvos extraterrestres distintos, no caso, Vesta e Ceres. Ambos localizados na cinta de asteroides (faixa entre  Marte e Júpiter).

Entretanto, o quebra-cabeça está somente a começar. O desafio maior está por vir, afinal, como surgiu o Sistema Solar?  Sem uma resposta satisfatória até o momento, resta-nos aguardar a conclusão deste estudo.

Dr. Nélio Sasaki – Doutor em Astrofísica, Líder do NEPA, Membro da SAB, Membro da ABP, Membro da SBPC, Membro da SBF, membro da AIU, membro da PLOAD, Revisor da Revista Areté, Revisor da Revista Eletrônica IODA, Revisor ad hoc do PCE/FAPEAM, Coordenador do Planetário Digital de Parintins, Coordenador do Planetário Digital de Manaus, Professor Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

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