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Da Sombra à Luz

Chama que me chama, acende esta chama

Desperta quem dorme

Sobre as cinzas da selva

(Ensaios de Rebeldia – 2002)


A motivação dos rascunhos fluíra do testemunho de Maíra Araújo Florêncio, jovem amazonense, graduada em Ciências Biológicas: Não tenho dúvidas, centelhas de sabedorias ancestrais iluminam o redirecionamento da minha vida.

 Na madrugada de janeiro, de 1991, sob o fluxo da Lua Escura, a maternidade Santa Rita, Cachoeirinha, Manaus (AM), testemunhara a chegada de uma centelha inquieta em formato de menina. O cosmo anunciava: transmutações de sombras atávicas, reascensão de sabedorias e alinhamentos na constelação familiar.

Choro altivo, rejeição a agasalhos, a acessórios, a proteções excessivas e etc. pontuavam as expressividades da recém-nascida: códigos incomuns no universo de bebês… Seriam recados para tempos incógnitos? Seriam códigos de reminiscências contrárias ao culturalmente correto?…

Às indagações, o Cientista Social, Darcy Ribeiro, interpõe-se: reconfigura aquela pequena em Maíra – uma forma vital que anima os seres humanos, chegando a coabitar seus corpos, corações e mentes (1979). Dissolve-se o tempo físico; dimensões imateriais realinham hipóteses desafiadoras por um despertar humanizante.

As sombras daquela madrugada chuvosa, por fim, codificam-se em centelhas da cultura Mairum, coabitando o universo Manaó. Da mística intercultural fecundam-se acalantos proféticos. É Maíra entre nós.

Meiga luz / Aquece a noite da floresta nua / Iluminando as sombras, acordando a lua / Raio da manhã onde a vida se refaz / Afagando a terra, germinando Paz.

Já se vão vinte nove anos. A menininha inquieta, chorona, impositiva se revela sonhadora, buscadora incansável… Mulher de ação. Entusiasmo, disciplina e liberdade são as palavras que melhor me definem. Sou movida por um conjunto de fatores e influências místicas herdadas de minha ancestralidade – tenho certeza. Sou atraída por leituras sobre espiritualidade, filosofia, constelação familiar, linguagem do corpo e xamanismo. Minha vida, jornada e origens (família e cidade onde nasci, Manaus/AM) são bases para aprimorar meus diálogos com a Terra Mãe e interagir com a Consciência Cósmica.

Sobre relações com o modelo desenvolvimentista…

Adoto uma postura de aprendiz questionadora. Busco o caminho do meio entre o “se render”, e o “fazer acontecer”. Permito-me diariamente, ser guiada pela “dança” do UNI-VERSO, sem impor força à realidade tal qual “é”/está; sem adotar, contudo, passividade e/ou vitimismo. Cocrio uma realidade pró-ativamente, baseando-me nas vozes do meu coração.

É recorrente o sentimento: “sou um peixe fora d´água”. Ao mesmo tempo acompanha-me a consciência de ser agente de mudança. É muito latente. Logo, afirmo: minha relação com o atual modelo de desenvolvimento se fundamenta numa harmonia dinâmica entre os aparentemente opostos.

Recentemente, centelhas de sabedorias ancestrais ilustram a caminhada de Maíra com experiências de cura…

Aos 22 de agosto, de 2020, após treino habitual (sou atleta de fisiculturismo), fui caminhar e caí. Rendeu-me uma fratura no quinto metatarso do pé esquerdo. Após consulta com três médicos, dois foram enfáticos: “só cirurgia”. Operando ou não, ficaria, no mínimo, dois meses dependendo de muletas.  Treinar nem pensar (coisa que eu amo). Dias de muita aflição e meditação; até marquei cirurgia… Nisso, recebi uma intuição fortíssima: buscar cura por vias naturais/tradicionais; em saberes ancestrais – até esquecidos e negados.

Em um de meus diálogos particulares com o Universo/Eu Superior/Consciência Cósmica, pedi luz para o caso, que não fosse cirurgia. Nas invocações, as respostas me vêm em forma de Gafanhoto ou de Louva-Deus (a propósito, tenho-os tatuado no braço). Nem sempre os vejo materializados… Vêm, às vezes, enquanto navego na internet despretensiosamente.

No dia marcado para a cirurgia, deparei-me com um Louva-Deus, no feed, do instagran. Confiei na resposta. Desmarquei a cirurgia e iniciei o tratamento guiado por minha avó – uma Bruxona/Deusa, de um vasto e, de longa data, conhecimento das medicinas popular/tradicionais.

A recuperação total do meu pé aconteceu sem ingerir um analgésico alopático, sequer. Usei compressas de andiroba, escalda-pés de arnica, comprimidos de banha de sucuriju, além de muita fé e paciência. Até nem precisei tanto dessa última… Em três semanas de tratamento, aos poucos, retornei aos treinos. Cinco semanas depois voltei a andar sem as muletas e, após sete semanas, já treinava normal.

A reinvenção da vida requer sintonia com anúncios e práticas humanizantes. Impossível esconder tesouros, quando o mundo, hoje, aspira pelo básico necessário. Provocação aos leitores…

A experiência fala por si! A cura acontece através da fé. O primeiro princípio Caibalion anuncia: “O Todo é mental”. Nós criamos a realidade a partir da mente. O que existe no plano material, foi ideia, sonho ou crença: resultado de vibração energética; de confiança inabalável e de desapegos necessários.

Limitações e soluções são autoproduções. Nós concebemos a própria cura. A minha, veio das medicinas da minha região, intermediada pela minha ancestral – vovó. Poderia também ter vindo do reiki, da aromaterapia ou da medicina convencional. Todas têm uma função peculiar. Pra mim, existe o que acredito hoje; o que me faz bem aqui/agora. Tudo pode mudar amanhã.

Por hoje é só: que minha experiência contagie e, quem sabe, inspire buscas de alternativas naturais para a autocura. A magia acontece na fé.

Enfim, a Luz…

As noites de Lua Nova são escuras. Durante esta fase, Sol e Lua coabitam em seus ciclos de amor e mistérios. No céu, apenas as estrelas brilham, anunciando caminhos de renovação e cura.

Neste cenário de transmutações, Maíra, emerge de suas sombras, de amarras estruturantes, transformando-se numa incansável buscadora de sabedorias e amorosidade. Cada relato testemunha íntimos e perenes diálogos com a Consciência Cósmica – dinâmica ímpar para a construção do Bem Viver coletivo.

Sem mais, as inspirações aqui compartilhadas são gotículas raras para o nosso tempo, no entanto, são plenamente funcionais e acessíveis, se absorvidas eticamente no desenvolvimento de magias em favor da humanização e da paz universal.

Fotos Arquivo pessoal de Maíra Araújo Florêncio

Falares da Casa

Caibalion – Estudo da filosofia hermética do antigo Egito e da Grécia.

Mairum – Grupo indígena do alto Xingu.

Manaó – “Mãe dos Deuses”. Grupo indígena que habitava a região do Rio Negro antes da chegada dos colonizadores.

 

Fátima
Fátima Guedes

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). Foi fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta e Militante da Marcha Mundial das Mulheres, e da Articulação Nacional de Educação Popular em Saúde. Autora das obras literárias, Ensaio de Rebeldia e Algemas Silenciadas.

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