Dia da Consciência Negra: Paula Gomes relata desafios enfrentados devido a cor da pele

Foto: Gilson Almeida.

Gilson Almeida | 24 Horas
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Parintins (AM) – 20 de novembro foi instituído oficialmente pela Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011, como o Dia da Consciência Negra, pois foi neste dia do ano de 1695, que ocorreu o assassinato de Zumbi, o líder do Quilombo dos Palmares, situado entre os estados de Alagoas e Pernambuco, na região Nordeste do Brasil. Zumbi dos Palmares foi morto por bandeirantes liderados por Domingos Jorge Velho. Zumbi dos Palmares virou símbolo de luta e resistência dos negros escravizados no Brasil, assim como da reivindicação dos direitos dos afro-brasileiros.

Em Parintins, Paula Gomes, de 24 anos, que é negra, relata que a principal luta das pessoas afrodescendentes é de quererem ocupar seus lugares de direito que geralmente são impedidas por causa da cor de sua pele, pelo cabelo ou estilo de vida. “Muitas vezes é confundido o caráter pela cor de pele. Isso muitas vezes não só em Parintins, mas em todos os lugares que a gente vai, as pessoas são boas no que fazem, tem o talento para isso, tem personalidade, são pessoas maravilhosas que são excluídas por causa do preconceito que é criado dentro de uma sociedade na qual a gente vive que é muito dura. Então as principais lutas são por direitos iguais e por espaços que são nosso de direito e muitas vezes não ocupamos e vêm outras pessoas e ocupam sem ter o mínimo de vocação. São pessoas que não ocupam o seu lugar de direito por conta de cor, de coisas mínimas que não é um problema”, disse Paula.

Paula conta ainda que passou por muitas situações de preconceito e racismo na infância e na adolescência e que percebe que há uma falta de educação dentro de casa para as que as crianças tenham ensinamentos de valores para que não se tornem pessoas intolerantes. “Na minha infância o meu cabelo era o principal problema para eu fazer amizade, para eu me encaixar em um lugar onde as pessoas não fizessem brincadeiras, não me chamassem de preta, de coisas horríveis. Eu acho que falta uma criação melhor, ensinamento de valores para que as pessoas não se tornem criminosas com uma brincadeira de mau gosto, com uma coisa que se torna pejorativa. Eu penso que quando você passa por isso é algo que nunca vai esquecer, que traumatiza tua vida e que te faz pensar muitas coisas que não tem nada a ver, mas criam coisas na nossa cabeça porque a gente não entende ou não sabe da luta, não sabe que essa história é linda e que essa cor que a gente tem é maravilhosa e esse cabelo que a gente possui não é igual de todo o mundo, ele é diferente e tem uma história, não uma moda. Então quando você entende os valores, você pode até passar por isso, mas você se torna mais forte porque sentiu na pele aquela injustiça e você quer que outras pessoas não passem por isso. Eu passei por isso sim, foi cruel, mas hoje em dia tem se tornado um pouco menos, tem se tornado mais discreto, mas essas situações não acabaram, só tenham se camuflado”, desabafou.

Foto: Arleison Cruz.

A parintinense é cantora e iniciou sua carreira cantando na igreja. Em 2016 ela participou da terceira noite de apresentação do Boi Caprichoso no Festival Folclórico com uma toada que abordava a cultura afrodescendente. Paula, filha de pai parintinense e mãe maranhense, passou a integrar o time musical do boi da nação azul e branca em 2019, onde mais uma vez participou da terceira noite de apresentação do touro negro no festival cantando a toada “Meu Deus é Maria”, do compositor Ronaldo Barbosa Júnior.

“Para mim já é uma vitória, uma conquista, um sentimento de renovação. Me tornar membra de um espaço em que simbolicamente é frequentado e diretamente trabalho na maioria por homens isso já é uma vitória. Ser um símbolo de descendência negra no meio dos homens e com um diferencial de caráter, personalidade e representatividade de tudo que envolve em trazer uma opção nova no Festival de Parintins de 2019 em diante, graças a Deus foi um sonho realizado e um pouquinho de sentimento de que essa história só está começando e que a gente já superou e conquistou muita coisa até aqui. É uma grande conquista, um grande legado, um começo de uma história revolucionária”, disse.

Neste Dia da Consciência Negra, Paula Gomes deixa a sua mensagem para toda a sociedade. “Eu quero deixar uma mensagem aqui para os pais porque são eles que criam um ser para a sociedade, são eles que ensinam valores e se você não ensina valores, você não cria pessoas para respeitar o próximo. Você é culpado muitas vezes de uma pessoa se tornar um criminoso, por essa pessoa não respeitar o espaço do outro, por não respeitar a cor, o cabelo e o estilo de vida do outro. Então quero deixar um recado para os pais, avós, tios para que criem seus filhos para que respeitem, para que possam amar o próximo e não enxerguem a cor como um problema. Para que fortaleça e converse com suas crianças e que todo dia seja um dia de ensinar uma coisa nova para que não haja mais crime, não haja mais intolerância, diferença entre a gente, para que todos vivem em um mundo onde não há distinção nenhuma e não haja mais situações inadequáveis”, concluiu.

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