“Donos de rádio, de jornal e de TV vivem à mercê de recursos públicos”, diz Amazonino

Blog BNC

Manaus – Amazonino Mendes (PDT) reapareceu nesta terça-feira, dia 5, para discursar em público, situação rara nestes tempos. Ex-governador do Amazonas, por três vezes, ex-prefeito de Manaus, ex-senador por dois anos, ele falou em evento na Assembleia Legislativa do Estado (ALE-AM), durante homenagem por ter criado a Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Ele fez uma análise mais alongada do contexto econômico e político do país, e em um dia que aparentemente não estava com muita paciência, criticou a mídia amazonense.

“Os donos de rádio, de jornal e de televisão aqui ficam simplesmente à mercê e, para sobreviver, dependem exclusivamente dos recursos públicos. E, neste momento, por sermos humanos, e por praticarmos o processo político que nós praticamos, o que que acontece? Os temas são escondidos, não se debate, não se discute”, afirmou Amazonino.

Ele atenua o fato associando essa condição à estrutura de poder do estado, concentrada, segundo Amazonino, no Executivo porque o outro poder, o do PIB das empresas, das indústrias, “mora fora do Amazonas”.

Amazonino vê o estado dormindo no berço esplêndido do modelo zona franca há mais de 50 anos, sem procurar uma alternativa de sustentabilidade econômica.

Fazendo mea-culpa, o ex-governador revela uma ponta de ressentimento por não receber o reconhecimento que imagina merecer pelo que fez como governante.

Citou o exemplo do Terceiro Ciclo, que nem “sequer foi discutido. Foi até vítima de gozações, que chamavam de Terceiro Circo. A nossa ausência é criminosa, nós somos culpados. Temos que bater no peito”.

Amazonino também citou ter sido ele quem fez 80% dos hospitais do estado. “Vejam bem, desde 1850, eu estou falando desde 1850, quando o Amazonas foi emancipado, elevado à categoria de província”, afirmou.

O ex-governador também não poupou os partidos políticos brasileiros, onde para ele não existe fidelidade. “Vejam o que ocorre agora, o PMDB desembarca e não desembarca do governo. É uma vergonha nacional!”, afirmou.

Leia a íntegra do discurso de Amazonino Mendes na ALE-AM:

“Antes de mais nada, quero agradecer a iniciativa do deputado Adjuto (Afonso, do PDT), autor da propositura que levou a essa solenidade; cumprimentar todos os deputados que aquiesceram, que concordaram; agradecer a presença de todos que estão aqui, notadamente professores da universidade, alunos, amigos, amigas e, especialmente, os deputados, que foram extremamente gentis, não importando o matiz político que eventualmente acompanhou cada qual botou sim ao longo das jornadas eleitorais.

Cabe a mim, como ex-governador, que fui três vezes, senador da República, como cidadão, em determinados momentos que eles se afigurarem e ensejariam eventual fala, pronunciamento, teria eu a obrigação, repito, de cidadão, de fazer as observações pertinentes, sob pena de ser omisso e de não corresponder com o seu dever.

Estamos num tempo e momento que, na minha avaliação, é um excelente professor.

Quando eu governei nos três governos, tivemos de confrontar cinco crises internacionais. Crise do México, crise da Rússia, crise da Coreia e duas outras crises. Houve momento em que o nosso DI foi reduzido a um terço. Abri mão de recursos, de receita, para fazer com que as empresas não demitissem. Não tínhamos saída, era angustiante, era terrível.

Superamos.

Mas, isso significa que se eu tive cinco e agora temos uma enorme crise, isso significa que nós vamos ter sempre crises. Em um país que não está formado, em um país complicado, um país que se revela no conceito internacional com uma certa dose de irresponsabilidade. E nos dói.

Processo político brasileiro é sistematicamente falho, errado, equivocado. Devo dizer aos senhores que eu, modestamente, estudei isso quando fui eleito senador da República. Passei dois anos e meio no Senado e voltei correndo para cá, para ser prefeito de Manaus.

Naquela oportunidade percebia que as ações políticas eram preponderantemente de cujus, ou de pessoas. Quando muito, de partidos. Jamais pela Nação ou pelo bem público. Já naquela época.

Percebia-se com clareza a ausência total do respeito aos ideais partidários. Qualquer um mudava de partido como jogador de futebol. E ainda é. Em que pese aquela violência jurídica do Supremo, querendo consignar à força a fidelidade partidária. Em um país onde os partidos não têm fidelidade.

Vejam o que ocorre agora, o PMDB desembarca e não desembarca do governo. É uma vergonha nacional!

Nós não temos respeito pela coisa pública. Estamos despreparados.

Eu li há pouco tempo uma biografia do Sócrates, escrita não por um historiador convencional, mas por um jornalista americano, teimoso, irreverente, e que chegou a fazer pesquisas profundas, aprendendo grego antigo para poder escrever esse livro.

O livro é fantástico, porque nos dá conta de um Sócrates diferente. Em plena democracia ateniense, o Sócrates se levantava contra o Péricles, e se dizia antidemocrata.

Soa até como um choque para nós percebermos que um dos homens mais sábios da Humanidade, em um momento em que a Humanidade praticava a democracia, ele era visceralmente contra.

E, claro, era também o Platão e o Xenofónes, que foram seus contemporâneos e idealizadores.

O Sócrates simplesmente entendia que o governo tem que ser feito por sábios. E dava como exemplo: se você estiver em alto-mar, num navio, sujeito a procelas e tempestades perigosas, você não vai escolher o comandante através de eleição. Você vai procurar o mais técnico, o mais capaz, o mais competente.

Isso nos lembra o …. Há vários tipos de democracia. Há democracia de um país de primeiro mundo, é quase o ideal de todos os regimes, mas num país ainda em formação, um país como o nosso, é complicado.

Vejam bem, não estou fazendo apologia de ditadura aqui. Tô tentando, humildemente, fazer uma análise dessa reincidência nacional, esses pecados nacionais.

E o caso é tão crítico que hoje os comentaristas são ….. analisam o país mergulhado numa crise brutal, todo mundo sofrendo, o desemprego, enfim, aumentando a criminalidade, todas as mazelas que acompanham uma crise.

Você, ante esse quadro tenebroso, você não sabe se acontecer A é bom, se acontecer B também é bom. Todos acham que o A continua ruim, e o B também, idem. Sem alternativa, sem saída, sem luz. Não vou mais me alongar nisso…

as eu falei do professor, a crise, por quê? Qual é o tamanho da nossa culpa? Que estamos há quase cinquenta anos vivendo às custas de um decreto do povo brasileiro. O que foi que nós fizemos e o que é que nós fazemos?

Você vê o distrito industrial que nos sustenta: é uma caneta que nos sustenta. Quase cinquenta anos! O que foi que nós fizemos? Simplesmente em berço esplêndido auferindo essas benesses e mais nada. Nada!

Lá atrás, um governador sonhador, metido, andou bolando um projeto, uma plano, uma teoria, que chamou de Terceiro Ciclo. Sequer o assunto foi discutido. Foi até vítima de gozações, que chamavam de Terceiro Circo. A nossa ausência é criminosa, nós somos culpados. Temos que bater no peito.

Não podemos cobrar de governador nenhuma solução no momento da crise porque ele não é Deus. A crise é criada lá atrás, vem e explode, seja A, B, C, D ou E ou F. Não se pode cobrar também que ele faça mágica, que ele não vai fazer jamais. A mágica quem faz é o povo. Somos nós, os políticos. A nossa incompetência política também é feito uma mágica.

Então, é preciso que nós tenhamos esse momento muito presente nas nossas vidas. Vamos justificar nossos mandatos. Um mandato não é um presente, um mandato não é uma condecoração. Um mandato é uma tarefa.

Falam, fazendo também a minha penitência, fazendo também minha culpa, de tantas e tantas coisas que eu podia ter feito e não fiz. Mas, perante a história, meus amigos, a bondade de Deus, me permite chegar hoje e encará-los e dizer: ‘a balança foi mais positiva do que negativa’.

Há coisas inacreditáveis, que eu me recuso a aceitar, não é possível isso. Cerca de 80% dos hospitais deste estado foi feito por um homem só. Vejam bem, desde 1850, eu estou falando desde 1850, quando o Amazonas foi emancipado, elevado à categoria de província.

Oitenta por cento, eu vou repetir para vocês pesquisarem e levantarem. Vou repetir: só teve um homem. Tá certo? Não! Por que que quando há um avanço em qualquer governo se abandona aquele projeto? O povo não cobra.

Agora vem outro detalhe: nós estamos roubando a memória do povo. Nós estamos castrando o povo.

Ocorre um fenômeno neste estado. Pouca gente teria coragem de falar o que eu vou falar: o estado do Amazonas tem uma situação ímpar no conceito nacional. Em todo lugar você tem o recurso financeiro do Executivo, independentemente do poder de polícia, do poder de nomeação que tem o estado. E o Executivo, ele tem o poder econômico, financeiro, de contratar obra, fazer obra, fazer pagamento, prestação de serviço etc. Tem o caixa!

No outro lado, na sociedade, tem um outro poder econômico que quase permite um equilíbrio. Duas forças econômicas. Repito: a do governo e a outra é do PIB, dos detentores do PIB, os empresários, os ricos, os industriais. Essas forças atuam no meio social junto às instituições de um modo geral e exercem influência. E dão um certo equilíbrio nessa nossa democracia capenga. Essa nossa democracia mambembe.

Em Manaus, não existe isso. No Amazonas, não tem. O PIB amazonense mora em São Paulo, mora no exterior. Aqui só tem uma força econômica. É a posição do Executivo. Nenhuma sociedade se constitui, se organiza, se estrutura, sem uma imprensa boa, sábia e livre. Aqui, nós não podemos ter essa imprensa nem que a imprensa queira. Porque a imprensa jamais será sustentada pela alternativa do PIB. Os trinta e poucos bilhões de dólares lá do Distrito não vai um centavo para um jornal, uma rádio ou uma televisão.

Os donos de rádio, de jornal e de televisão, aqui, ficam simplesmente à mercê e, para sobreviver, dependem exclusivamente dos recursos públicos. E, neste momento, por sermos humanos, e por praticarmos o processo político que nós praticamos, o que que acontece? Os temas são escondidos, não se debate, não se discute.

Ali está um jovem presidente de diretório estudantil. Eu fiquei muito feliz, vendo-o aqui nessa mesa. Mas até onde ele, seus colegas, seus companheiros, suas companheiras estão tendo condição de acesso ao conhecimento, aos problemas e às raízes do problema?

Não estou culpando ninguém, nem criticando ninguém. Não me cabe fazer isto. Estou tentando desnudar uma situação que nos escraviza, que nos prejudica demais.”

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