É Federal!

A conjuntura política brasileira rememora fatos do cotidiano e ao mesmo tempo oportuniza problematizações.

– “É federar!!!” A expressão entusiasta do companheiro Tevardo, Comunidade Vai quem Quer (Santa Luzia), define a precisão do arpão na captura de um surubim de tamanho considerado. O Poeta Tonzinho Saunier também se faz presente. Quando tecia referências a questões sigilosas e confidenciais encolhia os ombros, curvava a cabeça e sussurrava discretamente, “A federal!…”. 

Com raras exceções, articulava-se o “federal” sem muita percepção das implicações na cotidianidade do cidadão comum. Era uma expressão não muito usual, presa em si mesma, algo abstrato inerente ao Estado, à União… Essas coisas. Um mergulho nas águas latinas revela origem e significado: “relativo à federação, tratado; união política entre nações ou estados; associação, aliança…” e, cujo radical, (célula mãe do vocábulo) é /feder/.

Por essa luz, é imprescindível coerência e responsabilidade na construção de alianças e acordos. Do contrário, confusões entre radical e verbo podem acontecer na prática, e na misturada de pronúncia e significados, a coisa pode feder de vez. De sobra, cidadãos e cidadãs estarão literalmente fedidos.

Espelho dessa realidade é a República Federativa Brasileira. Teoricamente, comprova-se a impossibilidade de relações harmoniosas entre cachorros e gatos; cobras e gaviões; gatos e ratos. A afirmação é profética e milenar. Quando grupos dominantes se unem e se misturam aos dominados é por alguma razão vantajosa aos primeiros. A História é testemunha inconteste.  Por essa trilha, a federalice brasileira vem confundindo e comprometendo drasticamente a qualidade de vida de presas fáceis e ingênuas.

Paira em cada federado brasileiro a incerteza do dia seguinte. Composições esdrúxulas não transformarão as estruturas desse Estado. A excessiva gentileza da “Mãe Gentil” continuará sustentando no peito, já bastante sugado, a molecada viciada…

Já se costura entre militâncias brasileiras uma terceira via de resistência e enfrentamento ao atual modelo federativo. A semeadura reúne homens e mulheres de boa vontade, os/as silenciados/as transgressores/as das transgressões federais. E, pelo volume e convergência de forças acredita-se num resultado F E D E R A L!!!..

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). Foi fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã e Militante da Marcha Mundial das Mulheres.

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