Fábio Porchat: ‘Espero não precisar fazer tudo pela audiência na Record’

Gabriela Sá Pessoa | Folha

São Paulo – Fábio Porchat pendurou o crachá da Record na segunda. Naquele dia (8), começou a gravar os pilotos de seu talk show, “Programa do Porchat”, que estreia em 24 de agosto, após um ano de negociações.

Nos estúdios da Barra Funda, testou o que fará em frente às câmeras todas as tardes, em gravações diárias que irão ao ar à meia-noite.

Começa com um stand-up e parte para as entrevistas, esquetes, palavrões e brincadeiras com o auditório (no batismo, membros da cúpula da Record e produtores da Eyeworks).

O ator, roteirista e cocriador do “Porta dos Fundos” falou à Folha antes das gravações.

Folha – Quando a Record te anunciou, você brincou que o contrato tinha sido uma novela bíblica. Como foi?

Fábio Porchat – A Record conversou comigo para ver se eu tinha interesse. A princípio, não tinha.

Depois, um talk show diário do meu jeito na TV aberta me interessou. Vou atingir um público que não me conhece do “Porta” ou da minha peça, “Meu Passado Me Condena”.

Quem fez a ponte foi a Eyeworks, que é a produtora do programa. A Eyeworks produz e a gente grava aqui na Record, mas quem produz tudo é a Eyeworks. Senti que estava bem assessorado, seguro de toda essa produção.

Quais eram as outras propostas?

Programa de auditório, sitcom. Mas nada me empolgou muito. E esse foi o que falei: quer saber? Estou dentro, vamos nessa.

No Multishow, você apresenta o “Tudo Pela Audiência”, que satiriza programas da TV aberta. Como é estar em um?

Não é a TV aberta, mas os programas que fazem tudo pela audiência. Espero eu não precisar fazer! [risos]

Espera ou não vai fazer?

Não vou fazer. O que está determinado é fazer um programa a minha cara. Claro que, na TV aberta, você é guiado pela audiência, mas não pode ser a primeira questão. A primeira tem que ser: é um bom produto? Depois, sim, dá audiência? [A emissora espera de 5 a 6 pontos –cada um equivale a 198 mil espectadores.]

Você foi aos EUA ver os talk shows de Jimmy Fallon e Ellen DeGeneres. O que aprendeu?

Eles dizem que, não importa o que fizer, as pessoas têm que gostar de você. Qual é a diferença de um ‘late show’ para o outro? É o apresentador. As pessoas querem o Jimmy Kimmel ou o Jimmy Fallon? Querem a personalidade que mais bater com a delas. Por isso, você tem que fazer o que sabe melhor.

O “showrunner” [produtor, roteirista e diretor] da Ellen me falou: “Seja você, do seu jeito. O que você faz de melhor? Você sabe imitar?” Falei que não. “Então, não imite. O que você faz?” Respondi que faço stand-up, sou ator, faço esquetes. Ele: “Então faça stand-up, faça esquete. Vá onde você sabe que você vai ser quem é.” Parece óbvio, mas as pessoas querem fazer tudo.

Então vai ter stand-up, vai ter esquete?

Vai ter de tudo. É um programa diário, de uma hora. Todo programa vai ter uma entrevista com certeza, um monólogo inicial de stand-up, esquetes, [gravações] externas, brincadeiras.

E quero usar muito a plateia, essa vai ser uma das marcas. Quero brincar com o público presente e o público de casa. Quero usar muito as redes sociais.

Você diz que nos EUA ter um “late show” como o seu é um momento de consagração para um humorista. Se sente assim?

Acho que é um ponto alto. É um momento de virada, um programa meu na TV aberta. Se o programa for muito bem, muda muita coisa. Se for muito mal, também muda muita coisa. Espero que seja um dos pontos altos.

Por que o formato funciona bem no fim de noite?

Não sei, boa pergunta.

Nos EUA não te responderam?

Lá é uma tradição tão grande há tanto tempo que já é assim que é, é assim que funciona. Eu acho que é um programa mais “cool”, mais tranquilo, que você se diverte. Mas não é exatamente programa de comédia, não é drama, não é jornalístico —mas tem entrevista.

Acho que tem um pouquinho de tudo num “late show” que faz com que você deite na cama, termine de assistir ao programa e vá dormir mais leve.

No fim do ano passado, você postou uma foto com o Marcelo Adnet no Instagram, desejando um feliz 2016 ao Danilo Gentili, agora concorrente de vocês no SBT com o “The Noite” [Adnet estreia um talk show na Globo um dia depois de Porchat]. Vocês são todos de uma mesma geração de comediantes.

Sim, somos todos amigos.

Agora que os três terão programas próprios, trocaram bola?

Sim, tenho conversado com o Danilo, com o Adnet.

Sem espionagem?

Sem espionagem, batendo um papo com ele. Eu tenho conversado com pessoas. Tive uma conversa muito boa com a Marília Gabriela, com o Justus, com o Paulo Bonfá. Tenho me encontrado com pessoas para ouvir o que tenham a dizer.

Queria muito ter me encontrado com o Jô, que foi onde comecei. Eu surgi ali —eu devo muito ao Jô a oportunidade de eu ter me descoberto. Seria uma realização.

[A primeira aparição de Porchat na TV foi no “Programa do Jô”, da Globo, em 2002. Então um estudante de administração de 18 anos, ele enviou um bilhete ao apresentador pedindo uma chance para se apresentar no Programa. Imitou Rui e Vani, o casal da série “Os Normais que ia ao ar na época. A carreira de ator começou ali.]

Seria paradigmática, uma entrevista sua com o Jô.

Por que não?

A TV parece viver um momento de autocrítica pelo humor. Temos programas como o “Tá no Ar”, na Globo, que satiriza o veículo. O seu “Tudo pela Audiência” brinca com os programas de auditório. Suas primeiras chamadas na Record fazem graça do fato de você ser contratado pela emissora. Por que isso acontece?

Acho que a TV está muito presente na cultura brasileira. Tanto que, nas mídias sociais, as pessoas tuítam sobre a TV —o brasileiro gosta de televisão. E gente ri daquilo que a gente conhece, na comédia é meio isso. Se eu fizer uma piada sobre como vivem as mulheres em Omã, talvez as pessoas não entendam e não riam tanto. Mas se eu fizer uma piada brincando com o Faustão, todo mundo vai dar risada.

Talvez o que tenha acontecido é que, uns tempos atrás, não se podia falar da TV. Acho que o “Porta” quebrou um paradigma que é poder falar de marca, de religião, de TV. Como deu certo, acho que as televisões pensaram: “Ih, peraí, acho que o humor está apontando para esse caminho”.

Hoje, as coisas mais podem do que não podem. Depois, veio o “Tá no Ar” —acho que o “Tá no Ar” [que tem Adnet no elenco e entre os criadores] é uma resposta ao “Porta dos Fundos”.

O “Zorra” [de que Porchat fez parte] também muda. O humor na televisão começa a se alinhar com o humor que era feito fora dela. A televisão tinha nos dito que esse tipo de humor era de nicho, que o público não ia entender.

Chegaram a oferecer um projeto como o “Porta” para a TV? Você e o Ian SBF [diretor do canal] vêm da TV aberta.

A gente chegou a oferecer pra Fox isso, e ela falou “obrigada, a gente já tem outra coisa”. A gente fazia o “Junto e Misturado”[2010], programa do Bruno Mazzeo que eu fazia junto com o Gregorio Duvivier e o Ian, e cancelaram. Achavam que o público não ia entender.

Então, quando vem o “Porta”, o público entende e a gente tem três bilhões de acessos, acho que a TV falou “ih, peraí”. Nem a gente imaginou que estivesse tão represada essa vontade.

Acho que [o que explica a demora em mudar] é que existem certas amarras, com o [departamento] comercial, jurídico, artístico, o que o público vai achar, quem é esse público…

No fundo, uma TV aberta é um transatlântico. É mais fácil você virar uma lancha que um Titanic. A Globo e a Record são emissoras gigantescas. Há quatro anos, jamais a Record me contrataria. Depois de ter feito o “Porta”, esse tipo de humor ter funcionado…

…E você emplacar também no cinema com os dois “Meu Passado me Condena”.

Exato. Acaba que funciona. Pode começar a mudar por esse lado. Falar “mudar” é perigoso, porque parece que estou vindo mudar a televisão. Não é isso: é fazer a coisa do meu jeito, do jeito que eu gosto, sem as amarras que eu tinha antes.

Sua primeira chamada tirava sarro do fato de você estar na Record. É um pouco do que veremos no seu programa?

O inédito foi falar da Globo, né. Dos programas da Globo, e brincar com isso. Fiquei superfeliz, primeiro porque a Record topou de cara.

Foi ideia sua?

Ideia minha, eu que escrevi todas as chamadas. E a Record em nenhum momento disse “Ah… Mas não”. Lançou, divulgou, funcionou.

Meu pensamento foi: O que vão falar de mim, mesmo antes de ver o programa? Então vamos brincar com isso.

Todo programa terá uma entrevista?

Pelo menos uma.

E quem vai ser o primeiro entrevistado?

Uuuh… [Risos] Não sabemos ainda.

Como assim “não sabemos ainda”?

Nós não vamos gravar ainda, estamos fazendo só o piloto.

É uma dificuldade conseguir bons entrevistados estando na Record?

Ao contrário. A gente não vai poder trazer o Tony Ramos. Mas o Danilo Gentili está fazendo talk show há cinco anos, na Band e no SBT, e está firme e forte.

Outro dia liguei [no Gentili] e estava o Jorge Aragão cantando —maneirísismo o Jorge Aragão.

No fundo, o Jô já entrevistou todos os globais, também. Ele não vive de entrevistar Lilia Cabral, Tony Ramos e [Antonio] Fagundes. O Jô entrevista toda a galera.

O negócio é ter boas entrevistas, não importa com quem. Claro, ter um nome legal como um Rodrigo Faro, o Roberto Justus ou Gugu…. O Gugu irá com certeza. É do caralho ter esses nomes.

O Gugu vai com certeza, e a Xuxa?

[Na sexta (12), ele gravou com Sasha Meneghel, filha da apresentadora]

Todos eles vão com certeza. O elenco da Record está todo escalado, do último figurante de “A Terra Prometida” até o bispo Edir Macedo, ele está convidadíssimo [risos].

Está confirmadíssimo?

Não, convidadíssimo. Confirmadíssimo é outra história. Mas todo mundo está convidado, não dá para escolher muito. Porque é isso, é um programa diário, de segunda a quinta. Não dá para dizer “esse eu não quero”.

A gente grava no dia, ou na véspera, e tem que ter isso meio na manga. Não tem ninguém que foi vetado pela Record. Falei que queria entrevistar o padre Marcelo, o padre Fábio de Melo. E eles: “Ué, claro, chama. Se eles aceitarem, chama”.

Muita gente fala “ah, você não vai poder falar de religião”. Mas quando que o Jô fala de religião? Quando é que o Danilo falou de religião?

Minha questão não era essa. Minha questão era poder brincar com a Record, sacanear os programas, me sacanear. E isso a Record deixou aberto, tanto é que as chamadas são todas essas.

Vai falar de política?

Vou falar de tudo. Eu não sou um entendido de política, então não adianta eu querer entrar na seara do que está acontecendo com a Síria neste momento, e como isso interfere no dólar e no impeachment da Dilma.

Eu, com toda a certeza, prefiro deixar a Míriam Leitão falar melhor isso; o Merval Pereira vai falar muito melhor que eu. Mas eu sei o que está acontecendo no país, quero brincar com isso.

Barack Obama, presidente dos EUA, vai ao Jimmy Fallon, por exemplo.

Isso, seria maravilhoso ter a Dilma no programa.

E o Temer?

Temer, por que não? Nosso presidente interino. O problema é que aqui no Brasil não tem a cultura de eles virem. Quando a Dilma foi entrevistada pelo Jô Soares, e olha que era o Jô Soares, ele foi até o Alvorada. Não foi ela quem foi até ele, porque imagina que o presidente vai vir…

Mas o Obama foi, subiu o prediozinho da NBC, falou, é diferente. Só de ela não ter vindo, não poder, esse que é o negocio. Nos EUA, tudo pode. Os caras recebem gente de outra emissora, não tem essa.

Ao que parece, estamos caminhando para isso. O Carlos Alberto de Nóbrega, do SBT, foi à Globo no “Tá no Ar”.

Está caminhando, mas o problema é sempre o monopólio. E o monopólio tá acabando.

Por monopólio você diz a Globo?

É. E acho que diminuiu muito. Antes, a Globo dava 50 [pontos de audiência] e a Record dava 10. Hoje a Globo dá 30 e a Record, 18.

A Globo é líder? É, não tenho dúvida. Mas a Record já passa em alguns momentos, o SBT também. “A Praça é Nossa” é líder no horário. O Danilo é líder em alguns momentos, como a Fabíola Reipert é lider. “Os Dez Mandamentos”…

Isso aí não existia há dez anos, era impensável. Quando surgiu, era só “A Casa dos Artistas” [do SBT, em 2001], era raríssimo um “Pantanal” [novela da exinta Manchete que derrotou a Globo nos anos 1990]. Hoje em dia tem mais concorrência, as pessoas saem mais, chegam mais tarde em casa.

Com isso, a qualidade da TV melhorou?

Não sei te dizer. Acho que sim. Se for ver, “Os Dez Mandamentos” [Record] é uma novela bem bacana, o “Velho Chico” [Globo] também. É possível que sim.

Você entra no ar à meia-noite e vai entregar a audiência para o “Fala Que Eu Te Escuto”, que inaugura o horário religioso na Record.

É, nunca achei que fosse dizer isso: “Fiquem agora com o ‘Fala Que Eu Te Escuto’.” [Risos]

Não é curioso?

É curiosíssimo. Pego [o público] do Gugu [às quartas], da Xuxa [às segundas], do Buddy [Valastro, às terças]. Cada dia de uma pessoa diferente. Mas é tão louco como dizer “e agora, com vocês, Fausto Silva” ou “com vocês, Fátima Bernardes”. Cada um com sua loucura.

Mas é um horário religioso. Vai entregar público que deu risada, viu você falar palavrão, ouviu todo tipo de piada.

É, mas acho que já existe hoje na Record um ponto que muda a audiência –quando começa o “Fala Que Te Escuto”, muda o público. Tem um público dele, particular. Se fosse o contrário, talvez fosse mais Mas é curioso, com toda a certeza.

Você é fundador de uns maiores canais do YouTube brasileiro, o “Porta dos Fundos”. Tem um programa na TV fechada de sucesso, está no cinema, no teatro. Por que a TV aberta agora?

Gosto de estar em lugares. E achava que era um bom momento estar na TV aberta para testar mais um lugar. Minha última vez foi em “A Grande Familia” [2013, Globo].

E este era um bom momento. Porque vim do jeito que queria vir, não vim encaixado em um projeto. E vou atingir outro público, que de repente não atinjo com o “Porta” ou com a minha peça, “Meu Passado me Condena”.

A Xuxa foi uma das maiores contratações da Record e chegou à emissora cheia de expectativas, mas seu programa ainda não emplacou na audiência e tem recebido muitas críticas. Sente medo de que o mesmo aconteça com você?

Claro. Pode ter 12 pontos [de ibope] ou meio. Mas penso que não dá para me preocupar com o que não está nas minhas mãos. Não tenho como fazer 10 milhões de pessoas assistirem ao meu programa. Eu tenho como fazer um conteúdo que eu olhe e diga: gosto muito do que estou fazendo, é o time que eu queria e é o melhor que posso fazer. E ver o que acontece.

Em junho, seu nome apareceu na Operação Boca Livre, que investiga de desvios na Lei Rouanet [a empresa que o pagou, a Bellini Cultural, usou verba pública irregularmente]. Temeu que sua imagem fosse prejudicada?

Super. É uma merda. Não sabia de nada –esta resposta te coloca no mesmo rol de escrotidão do Eduardo Cunha [risos].

Dias depois, o seu pai também apareceu na operação. Ele conhecia os Bellini, era próximo deles?

Era, o Antonio Bellini [principal sócio da empresa] é da Academia Latino-americana de Arte [dirigida pelo pai de Porchat], um conselheiro. E meu pai fez algum projeto com ele que não sei exatamente o quê.

Liguei para o meu pai para saber, e ele falou que estava tudo certo. Ninguém foi chamado [pela Polícia Federal] para depor.

É ruim porque mistura as bolas num momento em que amaldiçoam a Rouanet. As pessoas entram num discurso de ‘quem é artista de esquerda pega dinheiro do governo’. É um pensamento torto.

Você é de esquerda?

Não. Acho que sou um isentão, na verdade [risos]. Eu nunca votei no PT na minha vida,.

Em quem você vota?

Votei na Marina [Silva] para presidente [em 2014]. E declarei isso.

O que acha do processo de impeachment de Dilma Rousseff?

Na verdade, eu não acho nada. Acho que a Dilma se cercou muito mal de pessoas péssimas que a apunhalaram, inclusive. Mas tudo dentro da lei, não acho que foi feito nada fora da lei.

Foi tudo votadinho. Uma presidente, seis anos depois [no poder], não consegue ter 150 nego na Câmara para dizer não? Poxa vida, ser politico é isso também.

Como entrevistador, que pergunta faria a Dilma?

Se ela imaginava que o Cunha fosse quem é.

E ao Temer?

[Risos] Se não imaginou em algum momento que o Eduardo Cunha fosse quem é.

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