Família diz que relação entre neto que desenterrou avó no AM era de ‘amor e cumplicidade’; homem trata esquizofrenia

Ele foi abordado após ser visto andando com cadáver nos ombros, após desenterrá-lo do cemitério. Especialistas explicam que distúrbio mental o leva a enxergar outra realidade.

Criado pela avó desde que nasceu, André Augusto Januário da Silva, de 35 anos, tinha uma relação muito próxima com a idosa, conforme relatou a reportagem a mãe dele, a pedagoga Damiana Januário da Silva, de 55 anos. O homem, que possui esquizofrenia, foi detido na última quinta-feira (2) após desenterrar a avó da sepultura, dançar com o corpo e dizer que queria doar os próprios órgãos a ela para trazê-la de volta à vida.

Em entrevista, nesta sexta-feira (3), a mãe dele contou que a relação dos dois era de amor e cumplicidade. A idosa morreu em 2018, aos 82 anos, após lutar por três meses contra um câncer. Damiana contou que André nunca aceitou ou entendeu a partida da avó, pois além de os dois serem muito unidos, a doença dele dificultava esse entendimento.

“Ele sempre ficou ao lado da avó. Quando ela estava viva, ele dizia que nunca deixaria ela ir embora. Quando ela se foi, ele dizia que ia buscá-la. Se já é difícil para nós entendermos a partida, imagine para uma pessoa com transtorno mental. É um amor que só Deus sabe explicar”, disse.

Ainda segundo ela, foi graças à criação da avó que o homem conseguiu ‘vencer na vida’ e se tornar ‘uma pessoa melhor’. Ele sempre agradeceu e disse que nunca deixaria a avó, por ela ter cuidado dele desde o nascimento.

“Meu filho conseguiu ser uma boa pessoa com a ajuda da minha mãe. E ele sempre foi muito grato. Ela era tudo para ele. Ele trabalhou na gerência de um hotel e também em empresas do Distrito. As pessoas não entendem e muitas vezes fazem piadas infelizes”, contou.

Segundo a família, André foi diagnosticado com esquizofrenia aos 17 anos, e, desde então, passa por tratamento no Centro Psiquiátrico Eduardo Ribeiro. A mãe disse que gostaria de internar o filho em uma clínica particular, mas não possui dinheiro para pagar o tratamento.

O processo de superação de luto é diferente para cada pessoa, segundo afirmou o psiquiatra e psicoterapeuta Wilson Gonzaga. Ele explicou que, no caso de André, apenas o tratamento adequado é a solução para manter o controle da realidade.

“Nem dá para falar em superar luto, porque ele vive em uma realidade paralela. Para se ter uma ideia, ele queria doar os órgãos dele para a avó, que já está morta. Ele vive em outra realidade. Não tem comparação e compreensão com a nossa realidade. É algo muito fantasioso, um delírio”, contou.

Segundo o especialista, a esquizofrenia é um distúrbio mental crônico que é caracterizada por desagregação do pensamento, ou seja, pessoa com pensamento completamente incoerente por delírio e alucinações. A causa da doença ainda é desconhecida, mas fatores como genética, ambiente, estrutura e química cerebrais alteradas podem influenciar. Segundo Gonzaga, somente a medicação pode trazer ele para o mais perto possível da realidade.

Em Manaus, corpo é roubado de túmulo

Relembre o caso

André Januário foi detido em Manaus após desenterrar o corpo da avó do cemitério Morro da Liberdade, Zona Sul da capital amazonense, e dançar com o cadáver na rua. Segundo a polícia, a família do homem informou que ele tem problemas psiquiátricos.

De acordo com a polícia, o homem saiu do cemitério com o cadáver nos ombros, caminhando pela rua. A polícia foi chamada após ele ser visto dançando abraçado ao corpo, a cerca de 1 quilômetro de distância do cemitério, no Beco dos Pretos, Centro da capital.

O homem foi amarrado por populares e familiares num poste até a chegada da polícia. O corpo estava no chão no momento da chegada de policiais. “Ele estava completamente transtornado e dizia o tempo todo que queria fazer na avó um transplante para trazê-la de volta à vida porque sentia muita saudade. Ele disse que iria doar todos os seus órgãos a ela”, afirmou o tenente Paulo Araújo, da 2ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom).

O caso foi encaminhado ao 1° Distrito Integrado de Polícia (DIP), mas o delegado plantonista, que preferiu não se identificar, disse que o homem não tinha condições de ser ouvido. Ele foi levado ao Hospital Pronto Socorro 28 de Agosto para receber atendimento médico.

Assim que receber alta, ele deve retornar à delegacia para prestar depoimento. De acordo com o delegado, se comprovado o transtorno psiquiátrico, o homem não deve ser responsabilizado pelo crime de vilipêndio de cadáveres, previsto no artigo 212 do Código Penal Brasileiro.

Com informações do g1

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