Gersem Baniwa é o primeiro professor indígena do AM na UnB

As populações indígenas, símbolo de grande resistência, têm conquistado cada vez mais seus espaços na sociedade. Todos os indígenas do Brasil têm direito de ocupar cargos de chefia e liderança, sejam eles em qualquer lugar, nas tribos ou nos espaços urbanos.

E abrindo caminhos históricos para os povos indígenas, Gersem Baniwa se tornou o primeiro professor índigena amazonense a ocupar o cargo de docente no Departamento de Antropologia na Universidade de Brasília (UnB) – uma das maiores universidades brasileiras de ensino público superior.

Em entrevista, Gersem Baniwa declarou que o momento é desafiador, mas que está disposto a contribuir com seu conhecimento para enriquecer o curso da universidade e à própria antropologia brasileira como ciência

“Sou o primeiro professor indígena no departamento de Antropologia na UnB, mas também já fui o primeiro professor indígena concursado em uma universidade pública federal. Para mim, é um novo momento, um novo desafio. Mas aquele desafio no sentido potente, positivo e de abertura de possibilidades de novos horizontes”, comentou o professor.

“O desafio é grande e para ser sincero, não sei muito o que poderá acontecer. Não tenho receitas para seguir, mas a minha missão nesse novo campo de atuação é contribuir para enriquecer a Antropologia, com outras ideias, pensamentos, outras teorias e conhecimentos. Abraço esse novo momento como algo positivo. A expectativa é grande”, pontuou Baniwa.

Trajetória acadêmica e ativismo indígena

Natural de São Gabriel da Cachoeira (distante a 852 quilômetros de Manaus), Gersem José dos Santos Luciano nasceu na Aldeia Yaquirana, do povo Baniwa, localizada no Alto Rio Negro. Gersem se formou em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) em 1995; e logo após, se tornou mestre em Antropologia Social pela UnB, em 2006. Gersen Baniwa também já foi secretário municipal de educação de São Gabriel da Cachoeira.

Ele contou que o interesse pelos estudos acadêmicos surgiu ao mesmo tempo que começou a participar do movimento indígena.

“Foi a partir de dois momentos que se fizeram conjugados. Primeiro, o início da minha militância no movimento indígena, na luta pela defesa dos direitos indígenas principalmente entre os anos 70 e 80, no final da ditadura militar e início do processo de redemocratização no Brasil”.

Como ativista, Gersem foi um dos fundadores da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coaib) e da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). E durante a luta pelos direitos básicos dos povos indígenas, como o acesso à educação; Gersem conheceu o curso de Filosofia e como este conhecimento se tornou uma ferramenta essencial na sua militância indígena.

Indígena e pesquisador

Em Antropologia, o professor Gersem Baniwa viu a oportunidade para agregar o conhecimento já adquirido,  ampliar a compreensão da história dos povos indígenas, incluindo o povo Baniwa e usar esse conhecimento como ferramenta na luta pelos direitos indígenas.

“A junção da militância pelos direitos humanos indígenas e o acesso ao mundo acadêmico me fez perceber que a Antropologia foi uma disciplina que me ajudaria a compreender a mim mesmo, a minha história, a história dos povos indígenas e ao mesmo tempo o mundo do branco. A partir de que lógicas, cosmovisão, pensamento o mundo colonizador se organizou e alterou todo o processo violento de colonização”, acrescentou Baniwa.

Ele ressaltou ainda que muitos estudos dos povos indígenas foram realizados por pesquisadores não-indígenas e que isso de certa forma limita a compreensão pois estes não estão inseridos no ambiente em que os indígenas vivem. O fato de mais indígenas estarem ingressando na Antropologia, fomenta ainda mais o “fazer antropológico” de um indígena sobre seu próprio povo, além também, de compreender como funciona a sociedade como um todo.

“A gente mergulha em nós mesmos, na nossa trajetória, nossa história, potencialidades, desafios e problemas. Mas também permite compreender o branco, inclusive a partir do que os próprios brancos e antropólogos não-indígenas ocidentais pensaram sobre nós. A gente conhecer, se debruçar, e entender aquilo que estes antropólogos construíram sobre nós, são leituras que nos possibilitam compreender melhor a sociedade branca e como opera o pensamento branco”, detalhou.

Universidades do Amazonas  sem vestibulares  indígenas

Em fevereiro deste ano, a Comissão Permanente para os Vestibulares da Universidade de Campinas (Comvest) registrou 2.805 inscritos para o Vestibular Indígena 2022,  primeiro ano da seleção unificada entre a Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e a Unicamp para o ingresso de estudantes indígenas em diferentes cursos de graduação das duas universidades.

A cidade com maior procura para realizar a prova foi São Gabriel da Cachoeira com 933 candidatos. Seguida do município de Tabatinga, com 780 inscritos. Só os dois municípios do Amazonas reúnem mais de 70% do total de candidatos no Vestibular Indígena 2022.

Para Gersem Baniwa, estes números representam um ótimo ganho para a população indígena que demonstra grande interesse em ingressar ao ensino superior. Porém, ressalta a carência de políticas públicas das universidades do próprio Amazonas.

“A juventude indígena precisa continuar de forma muito consistente a luta para garantir o direito à educação. Este é um exemplo emblemático de um grande número de indígenas que querem ingressar na universidade. Devemos lembrar também que é extremamente necessário sensibilizar as instituições públicas de ensino superior a abrirem caminhos para os povos indígenas, a se preparem melhor para acolher os indígenas, não apenas como cidadãos, mas sobretudo como sujeitos de conhecimento”, apontou o antropólogo.

“Infelizmente as nossas universidades do Norte e, principalmente, do Amazonas, não tem apresentado em nenhum momento essa sensibilidade. Não há políticas públicas assertivas no Amazonas, com exceção das ações afirmativas como o curso de Formação de Professores Indígenas da Faculdade de Educação, do curso de  Políticas Educacionais de Desenvolvimento Sustentável, e as cotas de vagas que são oferecidas no Programa de Pós-graduação em Antropologia, todos na Ufam”, finalizou Baniwa.

 

Com informações do Acritica

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