Indígenas do AM contestam dados da Sesai e apresentam proposta para criação de subdistrito Yanomami

Durante quatro dias, indígenas representantes das comunidades do Território Yanomami dos Estados de Roraima e Amazonas discutem estratégias para sobrevivência da população diante do contexto de abusos, negligência e abandono das políticas do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI). A 31ª Reunião Ordinária do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (CONDISI/YY) acontece de 26 a 29 de novembro no Centro de Convenções Elim, no bairro Paraviana.

Representante dos Yanomami do Amazonas, da região do Médio Rio Negro, o professor Otávio ironasteri Yanomami, apresentou a realidade vivenciada pelas 22 comunidades do Rio Marauiá, localizadas no município de Santa Isabel do Rio Negro (AM).

“Estamos abandonados com falta de medicamentos, de médicos. Tem comunidade que desde antes da Covid espera por um dentista. Nossas crianças estão morrendo sem direito a assistência”, afirmou.

Ele foi eleito o novo coordenador geral da Associação Yanomami Kurikama, que aprovou em Assembléia realizada no mês de Setembro, a formação de um grupo de estudos entre indígenas e organizações indigenistas, para estudar novas estratégias de atendimento em saúde no Amazonas. Uma delas seria a criação de um subdistrito de Saúde no Estado, vinculado à base, que é em Roraima.

“Hoje há um custo altíssimo para manejar servidores, remédios e equipamentos, via aérea, para o atendimento dos Yanomami no Amazonas e cujo serviço não consegue atendê-los a contento por conta da má gestão logística e administrativa, principalmente. A distância e a dependência da autorização de voo em Boa Vista para remoção de pacientes em estado grave tem comprometido a sobrevivência de muitos indígenas, uma vez que trata-se de um território de dimensões gigantescas”, explica o indigenista Silvio Cavuscens, coordenador geral da Associação Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami (Secoya), que atua há quase 30 anos na região do Médio Rio Negro no Amazonas.

Ele entregou aos conselheiros e ao CONDISI YY um documento contendo os relatos dos problemas relacionados ao atendimento de saúde feito pelo Governo Federal na região. A documentação é resultado do processo de escuta e de observação em campo promovida pela ONG entre os meses de julho e novembro, no processo de retomada dos trabalhos pós Covid-19.

“Analisar o enfrentamento da pandemia entre os Yanomami é articular as respostas deles com as dos agentes da sociedade nacional ou, mais especificamente, do subsistema de saúde indígena. Tentamos recuperar essa memória já que a documentação que daria conta do processo de enfrentamento da pandemia do ponto de vista das ações é escassa; a transparência dos dados é ineficiente, o que exemplifica o nível da tragédia que os Yanomami estão vivendo”, explica Cavuscens.

Em detrimento do testemunho da população indígena no Amazonas a respeito dos óbitos ocorridos na região do Marauiá, os dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) oficiais apresentaram a inexistência de casos de Covid-19 dentro do território entre as semanas 35 a 42 (maio a agosto 2021). No entanto, foi verificado, na observação de campo da Secoya, diversos casos não notificados em xapono e calhas de rio distintos.

O primeiro Yanomami vítima da Covid-19 foi um jovem de 15 anos, falecido em abril de 2020, em Boa Vista, Roraima. Oito meses depois, em novembro de 2020, o Relatório “Xawara: rastros da Covid-19 na Terra Indígena Yanomami e a omissão do Estado”, elaborado pela Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana e pelo Fórum de Lideranças da TIY, mostrou o total descontrole da doença no território Yanomami. Segundo o relatório, entre agosto e outubro, o número de casos de Covid saltou de 335 para 1.202, sendo que até aquele momento haviam ocorrido 23 óbitos pela doença.

No entanto, os casos de Covid-19 podem ser muito maiores, visto que a Sesai, até o momento em que o citado relatório foi elaborado, havia testado apenas 1.270 Yamomami de uma população de mais de 28 mil e que os testes rápidos utilizados têm eficácia comprovada de apenas de 55%.

Além da falta de estrutura, Silvio Cavuscens aponta a falta de governança e de gestão da política pública de saúde indígena como um dos problemas que afetam diretamente a saúde do povo Yanomami, sendo a autoridade pública um dos contribuintes da tragédia vivenciada hoje nas comunidades indígenas.

O documento é fruto da ação indigenista Secoya desenvolvida no segundo semestre de 2021 dentro da área Yanomami no Amazonas, que representa 42% de todo o território e quase 33% de sua população, a maioria falante da língua Xamatari.

Entre os assuntos que estão sendo abordados na reunião ordinária em Boa Vista (RR) estão ainda a aprovação do Regimento Interno do conselho, reformulação de Portaria dos Conselheiros de Saúde Indígena, situação atual do Distrito Yanomami e Condisi/YY e prestação de contas do Distrito Yanomami.

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