Jornalismo reflexões

Por: Eduardo Gomes

(In memoriam ao meu mestre e amigo Francisco Alves Pacífico Filho)

“Existem dois tipos de jornalista. O que quer notícia e o que quer dinheiro. Por isso um político deve andar sempre com dinheiro num bolso e notícias no outro. Mas é preciso tomar cuidado.
Não se pode oferecer dinheiro para o jornalista que quer notícia e nem notícia para o jornalista que quer dinheiro”.
Com a morte trágica do jornalista Ricardo Boechat, me veio a lembrança desta frase atribuída ao ex-senador e governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, diga-se de passagem, figura que não era um primor de ética e nem de democrata, daí ter sido conhecido como “Toninho Malvadeza”. Tanto que sua personalidade de caudilho da Bahia é atribuída outra frase: “Faço política com dinheiro em uma mão e chicote na outra”.
Os jornalistas que querem notícias de acordo com a definição de “Toninho Malvadeza”, vivem profissionalmente no fio da navalha. Ora a sociedade os aplaude, ora esta mesma sociedade os demoniza.
Dentro do grupo de Jornalistas que querem notícias, há um subgrupo, aqueles que são mais ousados, que buscam incessantemente a informação, os chamados “Jornalistas combativos” conforme o jargão da “esquerda”, por contrariarem interesses diversos, inclusive dos próprios órgãos de comunicação para qual trabalham.
Vivi esta situação pelos órgãos de comunicação onde dei minha força de trabalho em troca de salário. Era frustrante ver horas de trabalho dedicado em apurar, investigar, um fato ser simplesmente jogado na lata do lixo por ordens dos donos dos jornais, ser censurado pelo conteúdo apurado até mesmo pelos próprios colegas ou então ter seu trabalho usado como moeda de troca entre as empresas e os inquilinos do poder.
No último encontro com o jornalista Sebastião Assante no Sindicato dos Jornalistas ele lembrou de fatos relacionados a minha pessoa. Se tinha uma matéria polêmica “chama o Eduardo” lembrou quando trabalhávamos em A Crítica.
Já enfrentei ameaças de morte com pistolas apontadas em minha direção, pedidos de demissão por pessoas (políticos) cujos interesses foram contrariados, bati boca com governadores e políticos insatisfeitos com minhas reportagens, com membros do Judiciário, ser perseguido por membros de uma facção ligada a prefeito no interior, agressões verbais e outras vicissitudes por causa da profissão que abracei cujo vírus corre em minhas veias.
Ser jornalista crítico em um País que carrega uma tradição de opressão é difícil e doloroso. Jornalismo ao contrário do que pensa os “novinhos” não é glamour. É uma dura batalha em levar a verdade para o público contrariando os interesses dos poderosos. Pena que o verdadeiro Jornalismo está relegado ao segundo plano. O Jornalismo a qual me refiro era aquele que se praticava quando nem sonhávamos com a Internet, gastando sola de sapato, muita saliva, olhos apurados, perspicácia e entrega total. Mas ainda há tempo de exercê-lo, sem fazê-lo como achaque.
(Texto escrito durante a insônia nesta madrugada de terça-feira (12/02/2019) de Amaturá em homenagem ao Mário Monteiro, Sebastião Assante, Eliane Aquino, Jacira Oliveira, Paulo Castro, Manoel Lima, Isaac Amorim, Carlos Dias, Sérgio Bartholo, Ivânia Vieira, Wilson Nogueira, Ana Cláudia Leocádio, Cesar Augusto de Oliveira, Mário Adolfo Filho, Hiel Levy, Clovis Miranda, Flávio Assen, enfim aos colegas com quem tive a honra de vivenciar dentro e fora das redações).

 

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