Jovens querem ocupar espaço e atuar politicamente na região amazônica

Estimular a formulação de políticas públicas efetivas que tragam impactos positivos frente às causas e direitos defendidos por indivíduos, organizações ou grupos, é uma prática do sistema democrático chamada de incidência política ou, no termo em inglês, advocacy. Para que seja exercida de maneira plena, é preciso ter uma base de conhecimento e informações, inclusive sobre a legislação, relacionados ao tema.

A crise climática, por exemplo, é o grande desafio das novas gerações e o envolvimento da juventude com o tema é crucial para determinar se as condições ambientais que beneficiam as civilizações há milhares de anos continuarão a existir para além deste século. Pensando nisso, o LIRA (Legado Integrado da Região Amazônica), projeto do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, elaborou um curso de formação para jovens lideranças da região amazônica. Intitulado Formação de Jovens Lideranças Transformando Territórios Amazônicos, o curso começa dia 3 de junho e vai até dezembro de 2022. Serão oito módulos (presencial e virtual) com carga horária de 180 horas.

Segundo Fabiana Prado, coordenadora do LIRA/IPÊ, fortalecer a compreensão política dos jovens sobre a importância das áreas protegidas, biodiversidade e floresta é uma questão central para o desenvolvimento sustentável e a conservação da floresta. “O curso foi construído para atender à necessidade de qualificar a atuação do jovem para o advocacy na agenda socioambiental. Já vínhamos apoiando redes de juventude da região com os projetos das Soluções Integradas do IPÊ e com o LIRA entendemos que poderíamos começar a desenhar esse processo de formação política”, diz.

Naraiamat Surui, 35 anos, da aldeia Paiter, coordenador do Centro das Plantas Medicinais Olawatawah e participante do curso, afirma que, hoje, os jovens estão mais interessados pois perceberam que a formação política pode fazer muito pelo povo indígena. “A formação política é importante, porque é por meio desse conhecimento que vamos poder lutar pelo bem comum de todos e de nosso povo, além de repassar o conteúdo para os mais jovens continuarem a atuar. Por isso essa formação é fundamental”, afirma. “Eu já tenho uma bagagem, um histórico de atuação dentro do movimento indígena e quero aprender mais profundamente sobre esse tema, porque entendo que assim vamos conseguir defender melhor nosso território e nosso direito”, diz.

Tainara Pinheiro, 23 anos, aluna do curso e colaboradora do Ideflor-Bio (Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará), concorda com Surui. “Acredito que no atual período em que vivemos, o conhecimento em política é uma das armas mais eficazes que temos para resolver diversos segmentos da sociedade”, diz ela. “Entender, compreender e aplicar os conhecimentos adquiridos faz com que eu perceba minha importância no quadro político e aí, me refiro ao engajamento de lutas por melhorias coletivas, pelo interesse maior do que acontece ao meu redor”, afirma.

Para Alexandre da Silva Marciel, 30 anos, conhecido como Xandão e morador da reserva extrativista Chico Mendes, a formação política é muito importante na atuação dentro do território e vai ajudar a garantir uma economia de retorno ali, além de melhorar a comunicação. “Muitas vezes a gente tem a necessidade, tem as propostas, mas acaba se perdendo nesse campo. Com o curso, que tem formação voltada para o território e unidades de conservação, a gente consegue similar a realidade que temos com as políticas públicas que precisamos. É muito importante, não só na formação política, mas em todas as outras. Sem o conhecimento, a gente sabe que precisa melhorar, mas não sabe como e, com essa formação, vamos entender como fazer as reinvindicações corretas de forma justa e democrática, respeitando a natureza e as pessoas que ali residem. Ela dá um norte mais seguro na defesa do território e da vida das pessoas que moram ali. Queria eu que todo jovem pudesse passar por uma capacitação como essa”, diz.

 

Encontro presencial

 

Seminário de Abertura – Ciência Política e Histórias das ocupações da Amazônia, que será realizado de 03 a 05 de junho, em Manaus, será feito presencialmente. Depois serão mais sete módulos virtuais e como resultado final os alunos irão elaborar um plano de ação para seus territórios.

“A ideia é conectar jovens formando uma rede e construir saberes para atuação dentro das diferentes instâncias de incidência política nos temas de governança, biodiversidade e gestão de territórios, além de trazer conteúdo para o domínio da linguagem jurídico-administrativa”, afirma Fabiana Prado.

“Sabemos que vamos encontrar muitos desafios pela frente, porque quem defende a agenda ambiental e de sustentabilidade sofre, inclusive, muitas ameaças de agressores. Mas esses desafios não nos intimidam, nossos sonhos são maiores. Por isso, esse curso é uma grande oportunidade para nós, jovens indígenas”, conclui Naraiamat.

 

Sobre o LIRA

O LIRA é uma iniciativa idealizada pelo IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, Fundo Amazônia e Fundação Gordon e Betty Moore, parceiros financiadores do projeto. Os parceiros institucionais são a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Amazonas – SEMA-AM e o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará – IDEFLOR-Bio. O projeto abrange 34% das áreas protegidas da Amazônia, considerando 20 UCs Federais, 23 UCs Estaduais e 43 Terras Indígenas, nas regiões do Alto Rio Negro, Baixo Rio Negro, Norte do Pará, Xingu, Madeira-Purus e Rondônia-Acre. O objetivo do projeto é promover e ampliar a gestão integrada para a conservação da biodiversidade, a manutenção da paisagem e das funções climáticas e o desenvolvimento socioambiental e cultural de povos e comunidades tradicionais. Mais informações: https://lira.ipe.org.br/

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