Lesões cerebrais decorrentes de acidente ‘desligaram’ cérebro e vão deixar sequelas em Schumacher

As definições de risco e de limite para Michael Schumacher jamais foram levadas a sério. Ao longo de toda a sua trajetória pública e profissional, o alemão esmerilhou praticamente todos os recordes possíveis na F1 e, ao deixar as pistas que o consagraram – primeiro em 2006 e depois em 2012 –, tratou de se aventurar em outros traçados de forma igualmente alucinante, fosse nas motos, no kart ou também em um de seus hobbies favoritos, o esqui na neve. 

 Perfeccionista e meticuloso em todas as atividades exercidas mesmo de forma não profissional – mentalidade extenuante e totalmente destinada ao prazer quase insano de extrair o máximo possível de satisfação a cada vez em que ousava desafiar a sanidade –, o heptacampeão mundial se tornou um dos nomes mais influentes de sua época e referência absoluta de foco e sucesso justamente pelo trabalho árduo cuja recompensa é o prazer do risco, que se pode traduzir em ausência do medo. Aliada ao enorme talento de ser bom em quase tudo que se arrisca a fazer, a postura jamais havia lhe rendido grandes prejuízos.

O jogo, porém, virou do avesso de forma abrupta em 29 de dezembro de 2013.

A notícia surgiu de forma casual, mas se tornou uma avalanche sucessivamente assombrosa de informações trágicas e preocupantes. ‘Schumi’ vivia um típico domingo em família com seu filho Mick na estação de esqui de Méribel, na região dos Alpes Franceses, quando resolveu sair da pista demarcada, sozinho, e entrou em um trecho repleto de pedras que o vitimaram. O germânico perdeu o controle, caiu e bateu com o rosto de frente em uma rocha. As testemunhas que o encontraram relataram que seu capacete estava partido ao meio por conta da violência do impacto e sua cabeça estava coberta de sangue. Michael, ainda consciente, parecia transtornado e desorientado até ser encontrado pela equipe de resgate. No helicóptero a caminho do hospital da cidade de Moûtiers, sofreu um colapso e precisou ser reanimado pelos paramédicos. Pouco depois, entrou espontaneamente em coma por conta da gravidade das lesões.

Os poucos – porém significativos – boletins médicos que surgiram em seguida atestaram o quadro extremamente delicado. Schumacher sofreu “traumatismo craniano grave” e hemorragias cerebrais consideráveis. Ao chegar ao Centro Universitário Hospitalar de Grénoble, na França, foi imediatamente submetido a uma cirurgia de emergência para reduzir a pressão intracraniana e drenar os hematomas no cérebro. Em seguida, foi induzido ao coma, e uma nova intervenção cirúrgica se fez necessária dois dias depois. Se não está sedado, Schumacher segue com um quadro clínico que pode ser considerado crítico, mas estável. Mais do que as sequelas permanentes, há, também, o iminente risco de morte — que foi aventado nos últimos dias.Para a Dra. Gisele Sampaio Silva – membro do Departamento Científico de Doenças Cérebrovasculares, Neurologia Intervencionista e Terapia Intensiva da Academia Brasileira de Neurologia – a indução ao coma por tanto tempo não é um bom indicativo. “O fato de ele ter ficado em coma induzido, quando você precisa da medicação para manter o paciente por muito tempo, no geral, significa que, de alguma maneira, há a preocupação com o sistema nervoso central do paciente”, afirmou à época do acidente ao GRANDE PRÊMIO.

“Geralmente, nós, médicos, optamos por tirar a sedação, o coma induzido, o mais rápido possível. Hoje em dia, a gente usa o mínimo possível. Só não tiramos quando não dá”, reiterou. “Então, o uso prolongado de uma medicação para induzir o coma significa que o sistema nervoso central dele ainda está inspirando cuidados. Significa que problemas podem acontecer”, completou.

Dra. Gisele também discorreu de forma bastante elucidativa a respeito desta opção da equipe médica. “Ele pode ter sofrido um problema que a gente chama de hipertensão intracraniana. Quando isso acontece, e a gente deixa em coma induzido, é para diminuir o metabolismo do cérebro e a pressão intracraniana não aumentar”, detalhou.

“Ou, por exemplo, quando a gente vê crises de epilepsia, pequenos focos de irritação cerebral, a gente pode precisar manter o coma induzido ou o uso da medicação para sedar e também para que o cérebro não sofra as consequências. Então, o fato de dizer que ele está estável não diz muita coisa. Significa que ele ainda está precisando do remédio, porque se não precisasse, já teriam tirado. Hoje em dia, é tirado o mais rápido possível”, acresceu.

As chances de um paciente com o quadro como o do alemão tem de escapar sem sequelas definitivas são nulas – Michael há de ter um comprometimento permanente na fala e na atividade motora. “No trauma crânio-encefálico, uma das coisas que mais determina prognóstico é a idade do paciente. Quando o paciente é mais jovem, a chance de recuperação, às vezes inclusive de recuperação total, existe. Depende do grau do trauma, da característica da lesão, da idade do paciente e de outros problemas no momento da instalação da lesão. Se ele teve algum trauma em outra parte do corpo [no momento do acidente], então isso também determina o prognóstico.”

Schumacher, porém, possui um agravante importante em sua situação clínica: já sofreu anteriormente uma lesão cerebral. Ocorreu após um acidente de moto durante um teste privado na pista de Cartagena, na Espanha. O Dr. Johannes Peil, médico que atendeu o ex-piloto, explicou recentemente que a artéria do lado esquerdo do cérebro se rompeu com o impacto do incidente ocorrido em 2009. Para a Dra. Gisele, a reincidência aumentou consideravelmente o risco. “Um paciente que tem uma lesão prévia tem uma chance menor de se recuperar do que alguém que tem o cérebro completamente saudável”, explicou.

Caso saia, como que por milagre, desta situação, o heptacampeão mundial vai levar tempo para se reerguer. “O trauma crânio-encefálico tem uma recuperação lenta e possível depois de muito tempo”, alertou a neurologista. “Então, em um trauma grave, a gente está falando de meses a anos para ver a lesão final até dizer: ‘essa vai ser a sequela final e ele não se recupera mais’. Mas existe a chance de recuperação se não passar de um ano”, falou.

E já se vão quase dois anos e meio…

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