Madre Teresa será canonizada em 4 de setembro: uma santa sob medida para o papa

Para o padre Caetano Rizzi, responsável por encaminhar o processo de canonização de santos a Roma, o papa quer “chamar atenção do mundo sobre essa virtude divina, a misericórdia”, em um momento delicado e violento, além de aproximar as pessoas da Igreja. “As guerras fratricidas, o terrorismo, o assassinato de quatro Irmãs Missionárias da Caridade no Iêmen… tudo isso grita ao mundo a necessidade de um tempo novo”, declarou. “A canonização de alguém que escolheu viver para os mais pobres entre os pobres, recebendo o Nobel da Paz por causa disso, mexe com o mundo”.

O milagre que concederá a canonização a Madre Teresa aconteceu em 2008 em solo brasileiro: um homem internado às pressas em um hospital de Santos por causa de uma severa infecção viral no cérebro foi curado após sua esposa ser aconselhada a rezar para a beata. Foram necessários sete anos entre o encaminhamento do processo, alguns atestados médicos dizendo não haver explicação científica para o ocorrido e a comprovação do milagre pelo Vaticano.

O papa e a freira – Nascida em 1910 como Anjezë Gonxhe Bojaxhiu na capital da atual República da Macedônia, Madre Teresa fundou as Missionárias da Caridade em 1965 e ficou mundialmente conhecida por construir casas para órfãos, centros de cuidados para os leprosos e para os doentes terminais em países como Albânia, Rússia e Cuba. Foi na Índia, entretanto, um país não cristão, em que ela passou a maior parte de sua vida. Sua paixão pelo país a levou a pedir e conseguir a cidadania indiana. “Ela se empenhava em ir aos lugares mais miseráveis do mundo e ali, sem falar em religião, ensinava o amor como meta a ser praticada”, exemplificou padre Caetano.

Uma vida voltada aos menos privilegiados que, em muitos pontos, toca a história do próprio Papa Francisco. Um bom exemplo é relembrar o discurso da madre Teresa ao aceitar o prêmio Nobel. Nele, ela citou São Francisco de Assis, também conhecido como o “santo da pobreza”, o espelho do atual papa. É sabido que ele se inspirou no criador dos franciscanos ao escolher seu nome, além de sempre ter seguido um estilo de vida extremamente simples, dedicado aos necessitados e ajudando também os pobres e doentes, inclusive aqueles com hanseníase, assim como Madre Teresa fazia.

“Entre Madre Teresa e o papa Francisco podemos identificar o grito dos pobres que chega até as mais altas esferas. Madre Teresa ia e enfrentava as situações, não media esforços. Papa Francisco vai até as periferias do mundo e faz a mesma coisa: alerta, grita e dá o exemplo de compromisso, que supera divisões ideológicas. Ambos se empenharam e se empenham, no caso do papa, para um mundo mais justo e fraterno”, declarou padre Caetano.

Inés San Martín concorda e vai além, destacando a relevância das duas figuras também no universo fora do catolicismo: “Há muitos paralelos que podem ser desenhados entre Francisco e Madre Teresa. Para começar, o fato de que a misericórdia é um conceito chave para ambos e não apenas como teoria, mas algo que deve ser vivido: visitar os enfermos e os encarcerados e ajudar os famintos”, explicou. “Também existe o fato de que o escopo de influência dos dois transcende o catolicismo, já que ambos têm forte apelo na sociedade, incluindo presidentes, primeiros-ministros e líderes de outras religiões”.

Críticas e controvérsias

Apesar de “Madre Teresa de Calcutá” ser uma expressão usada quase como um sinônimo de bondade pelo senso comum, há quem critique ferozmente o trabalho da religiosa. Nos anos 1990, o periódico científico britânico Lancet publicou um relato crítico sobre o estado precário em que as instalações dos centros de Madre Teresa se encontravam. De acordo com o documentário Hell’s Angel (1994), do jornalista e ensaísta britânico Christopher Hitchens, ela recebia muito dinheiro proveniente de doações e, em vez de aplicá-lo na melhoria desses espaços, o entregava à Igreja ou investia em novos centros no mundo para disseminar o catolicismo.

Mais recentemente, um trio canadense divulgou um estudo corroborando as antigas acusações. Nele, eles ainda a acusavam de deixar pessoas sofrendo por considerar que a dor as aproximaria de Deus. A Igreja refuta todas as acusações, que, aparentemente, não surtiram efeito na imagem da futura santa, cujas ações continuam inspirando milhões de pessoas pelo mundo.

Fonte: Veja

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