Memórias Póstumas de Daiana

Aqui Jaz Lady Daiana… tudo o que restou foram apenas as lembranças! A musa excêntrica da Feira do Bagaço, do Bar da Lama e da Francesinha, a sereia dos batelões da beirada do lago sujo do Bairro de Santa Clara. Ela viveu seu martírio por ser travesti e moradora de rua. Nem a morte tirou o seu brilho, pois a sua ida para o aquém de onde existimos, fora talvez a melhor opção, diante da brutalidade que a cercava, no lugar onde chamam de ilha da magia.

Imersa nas alucinações das suas doses diárias de “índio muchacho”, uma mistura de Ki-suque com um corote de cachaça. Vagava com lenço e sem os seus documentos de segunda a segunda, nas festas de santo, nos espaços de forró, nas nights de bate-estaca e na companhia dos seus “boys”, para uma noite de prazer, sem direito a nada, sem camisinha, sem pudor e sem brochar, tudo isso as salas escuras e cheias de morcego no Palácio Cordovil. O monumento mais cult da ilha onde ela viveu, mas que está abandonando, com sobrevida apenas de status de patrimônio histórico.

A sua vida intensa lhe poupava de preocupações com família, agressões verbais e as diversas tentativas de homicídios que sofrera. A sua manhã se resumia em um banho de torneira, próximo do coreto onde dormia, com mais outros amigos, também moradores de rua.

As marcas na sua face, não a impediam de sorrir como qualquer ser humano, independente da dureza que era sua vida, e todo mundo podia vê. O corpo fragilizado pelo álcool, pela cola-de-sapateiro, o sol cremador da ilha e a falta de comida, levavam daiana a refletir em certos momentos uma pequena parte de sua vida, mas nada muito sério, era tudo relance.

Nasceu em Santarém, se criou em Manaus, foi despejada em Parintins, por onde viveu o auge e morreu. Assim seguiu a menina magricela, com a blusa tamanho P, rosa choque, com uma bolsa grande pra guardar suas munições de guerra, a maquiagem que a fazia transcender como Deusa. Ah! Ela também tinha sonhos, era bela e recatada da vida. Queria conhecer Veneza, como ela mesmo dizia “a cidade que anda sobre as águas”, queria ser famosa como a cantora sertaneja Paula Fernandes e a atriz da novela Maria do Bairro.

Não defino a sua trajetória cheia de ilusões, pois ela viveu os seus sonhos e realizações da sua maneira, ainda que fosse em pensamentos. Quiçá um dia sua história vire um conto, ou uma fábula, ou um livro Best-seller para os amantes da vida e de histórias como a de Daiana.

Todo mundo às vezes diz que há sempre uma luz no fim túnel. Acredito sim que exista, talvez a Lady sonhadora tenha encontrado essa luz, ou melhor o canhão de luz para o seu show, em meios aos grandes aplausos, rosas flamejantes aos seus pés em volta de sua grande performance da dança das Ninfas, e o cantar de sedução amazônida da Yara dos lagos, conhecida também como sereia dos Rios.

 

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