‘Morreríamos de tiro ou de frio’, diz roraimense que fugiu da Ucrânia

O jogador roraimense Guilherme Nascimento em entrevista à FolhaBV, em Mucajaí (Foto: Nilzete Franco/FolhaBV)

Após muitas declarações tensas, a Rússia invadiu a Ucrânia no dia 24 de fevereiro, como forma de combater a expansão da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no Leste europeu. Quem não tinha nada a ver com a guerra, perdia o sono, porque planejava como sobreviver ao conflito. Foi o caso do jogador roraimense Guilherme Nascimento, de apenas 18 anos.

A partir daquele dia, o atleta de 1,87m viu a tranquilidade ir embora e o adiamento do sonho de jogar na Europa, onde chegara há apenas um mês. Na semana seguinte ao início da guerra, o brasileiro assinaria contrato de até três anos com o FC Kolos, da primeira divisão do Campeonato Ucraniano.

O vínculo não se concretizou. Da janela do hotel onde estava, próximo a bases militares, na capital ucraniana Kiev, Guilherme ouvia barulhos de armas e aviões. “Vi dois caças passando, um atacando míssil no outro”, lembrou.

Ele gravou as imagens de uma fumaça após uma explosão em Kiev, com um pedido de socorro às autoridades brasileiras. A imagem comoveu as redes sociais. Ajudado pelo Kolos, Guilherme enfrentou 31 horas de dramática viagem de van até a fronteira com a Romênia. No caminho, o jogador teve até arma apontada para o rosto. “Ou morreríamos de tiro ou morreríamos de frio”, relatou.

Imagem enviada por Guilherme à família mostra civis armados (Foto: Reprodução)

Chegando à capital do país vizinho, ele conheceu um jogador que lhe ajudou a comprar a passagem de volta para o Brasil: o atacante brasileiro Junior Moraes, do Shakhtar, que protagonizou a fuga de outros atletas que ainda estavam na Ucrânia. “Foi Deus que colocou ele na minha vida. Ia ser muito difícil arrumar a passagem, que era cara, 13 mil reais”.

Guilherme desembarcou no último dia 1º, em São Paulo, onde ficou até domingo (6). No Brasil, ele finalmente conseguiu dormir. “Eu só fiquei tranquilo depois que eu dormi. Achei que eu estava sonhando. E quando eu estava vindo no carro, tinha medo de barulho de avião, ficava assustado. De noite, eu tinha uns tiques na cama. Mas isso só durou dois dias, graças a Deus”, disse.

Depois de quase um ano longe de casa, Guilherme chegou a Roraima na madrugada de segunda-feira (7), acolhido por familiares no aeroporto de Boa Vista, de onde percorreu mais 55 quilômetros para Mucajaí, município onde cresceu.

Família festeja chegada de Guilherme a Mucajaí, no interior de Roraima (Foto: Nilzete Franco/FolhaBV)

Em entrevista agora sob o sentimento de alívio e o som tranquilo dos pássaros em uma tarde nublada no interior de Roraima, o jogador detalhou alguns dos piores momentos que viveu na Ucrânia. Por outro lado, relembrou as melhores lembranças que guarda da infância e da carreira, citou suas principais referências no futebol como o volante roraimense Thiago Maia, do Flamengo, e pessoas com quem tem gratidão, e ainda revelou propostas de grandes clubes brasileiros, como Athletico Paranaense, Chapecoense e Sport. “Em nenhum momento pensei em acabar o sonho”, disse o jogador, que deve viajar no próximo dia 21 para São Paulo, onde irá se preparar fisicamente à espera do acerto com o próximo clube.

Reportagem: Desde quando você gosta de futebol?

R.: Meu pai jogava bola, comecei a ver e eu brincava na rua, e a partir dos 11 anos comecei a levar a sério o futebol, porque ia pra Boa Vista treinar. Não tive muita infância, tive responsabilidade desde o começo, pra treinar, cuidar do meu dinheiro, pra alugar, pra ficar, ficava na minha tia lá [em Boa Vista].

Reportagem: Desde pequeno, mas que idade?

R.: Desde os nove anos, quando comecei a gostar do futebol.

Reportagem: Que tipo de responsabilidade você se refere?

R.: De querer aquilo [futebol] pra minha vida, desde pequeno sempre quis ser jogador. Sempre quis ser zagueiro. Eu tinha meu pai como referência.

Reportagem: Quais são as suas maiores referências de zagueiro?

R.: Marquinhos [PSG], Thiago Silva [Chelsea]. Mas a maior referência, pra mim, é o Thiago Maia, jogador do Estado, que abriu portas pra quem tem sonho pra quem mora aqui em Roraima.

Reportagem: Você chegou a ter interesse por outra modalidade?

R.: Não, sempre me interessei pelo futebol.

Reportagem: Qual foi a sua primeira escolinha?

R.: Foi lá no campo do Negão [em Mucajaí]. Depois fui pro Nova Aliança [escolinha de Mucajaí]. E depois fui pro Extremo Norte [Boa Vista]. E depois pro União Barbarense [SP], de lá fui pro Goiás, de lá passei um tempo no Atlético Goianiense, voltei pra São Paulo para jogar no Velo Clube [SP] e fui pro Atlético Mogi [SP]. E de lá, fui pro Kolos, da Ucrânia.

Reportagem: Você foi dispensado do Velo Clube por conta da rigidez da fiscalização após o incêndio que matou jogadores da base do Flamengo no Ninho do Urubu?

R.: Sim.

Reportagem: Que idade você tinha quando foi pro Extremo Norte?

R.: 12, 13 anos.

Reportagem: Conte como foi essa época em busca desse sonho, mesmo que por deslocar-se diariamente pra Boa Vista, pra treinar no Extremo Norte.

R.: Primeiramente, veio o apoio da minha família, que sempre me apoiou, sempre me ajudou. E pra um menino de Mucajaí, arrumar uma escolinha pra treinar em Boa Vista é muito difícil.

Reportagem: E quais foram as melhores lembranças da tua infância?

R.: A minha infância foi bem curta. Eu brincava com os meninos. Hoje são tudo de maior. Brincava de pião, bola, manja-esconde, bicicleta, pipa, peteca, lembro muito bem disso. Brincava na rua da minha casa, até de madrugada.

Reportagem: E sua história no futebol começou lá no campo do Negão?

R.: Ali foi o começo de tudo. Passei pouco tempo lá, mas ali aprendi muito, valorizo muito, infelizmente acabou, mas queria que continuasse. Porque dali saiu um fruto que foi eu. Tinha outros querendo sair também. Eles se espelham em mim. Mas eu queria que continuasse o campo lá.

Reportagem: Você tem gratidão ao Negão?

R.: Tenho. Sou muito grato a ele. Sempre me apoiou, me ensinou o que ele sabia. Tem muitas coisas que, quando eu estou no campo, eu lembro das coisas que ele me ensinou.

Reportagem: E quais são os valores que você aprendeu sendo aluno do Negão?

R.: Humildade, acima de tudo, pé no chão.

Reportagem: Seu momento lá está entre as tuas melhores lembranças?

R.: Sim. Foi ali que eu vi que podia chegar onde cheguei. Foi ali onde tudo começou.

Reportagem: E como você define o momento de deixar cedo Roraima?

R.: Eu tava triste por dentro, mas muito feliz que era meu sonho que era ir pra São Paulo, conhecer a cidade, conhecer outros Estados. Então foi bem difícil mesmo. Eu chorava muito. Eu era muito jovem. Eu chorava muito com saudade de casa. Pedia pra minha mãe pra eu voltar. Ela falava: “não, você vai se acostumar, você vai conseguir”. Eu chorava, mas graças a Deus, Deus colocou as pessoas certas na minha vida.

Reportagem: Como foi pra você sair do Atlético Mogi pro Kolos?

R.: Eu fiz duas temporadas no Atlético, joguei a “Bzinha” do Paulista, fiz o meu DVD. O meu professor pegou o DVD e mandou pra um empresário russo que falava português. Eu tava dois anos correndo atrás de clube [na Europa] pra mim. Daí apareceu o Kolos.

Reportagem: O contrato com o Kolos era profissional?

R.: Sim. Era pra durar uns três anos esse contrato. Não assinei porque estourou a guerra. A guerra estourou dia 24, na quinta, o agente ia chegar na sexta-feira (25) pra resolver no fim de semana, pra segunda-feira (28) assinar [o contrato].

Reportagem: Enquanto você não assinava, estava treinando no clube?

R.: Sim, estava fazendo pré-temporada, tava me preparando pro campeonato [Ucraniano], que iria começar no dia 28, mas estourou essa guerra e todo mundo foi embora. Logo quando cheguei ao Kolos, passei duas semanas, já fui pra Turquia, outro País, fazer pré-temporada, pelo profissional, com pré-temporada de treinos, amistosos e voltamos pra encaixar o time pra começar esse campeonato. Lá, o Sub-19, vai pra Champions League, Europa League, então eu tava num time bom.

Reportagem: Você chegou a conhecer grandes jogadores?

R.: Sim. O Pedrinho [Shakhtar Donetsk], o Moraes, que me ajudou a sair do País, o David Neres [Shakhtar Donetsk] não conheci porque ele saiu antes.

Reportagem: Quais eram as expectativas que você tinha antes da guerra?

R.: Quando cheguei à Ucrânia, falei: “meu Deus, tou aqui, vivendo um sonho”. Quando eu assinasse, pensei primeiramente em ajudar os meus pais, minha família, estruturar, pra depois pensar em mim.

Reportagem: Esse contrato iria lhe ajudar de que forma?

R.: Eles iam dar apartamento pra mim, salário bom.

Reportagem: A partir de que momento que você percebeu que estava tudo ficando ruim na Ucrânia?

R.: Eu tava dormindo quando tudo começou. Dormi. A gente recebeu folga por excesso de treino. Quando fui dormir, converso com minha namorada até 19 horas aqui no Brasil. E quando eu fui dormir, de manhã ela me ligou, dizendo que a Rússia estava invadindo. Depois disso, virou um caos.

Reportagem: Foi avisado pela namorada?

R.: Foi, eu tava dormindo.

Reportagem: Tinha ideia de como estava esse clima no País?

R.: Só de madrugada. Passou um avião por cima do hotel onde eu tava, mas eu nem liguei, porque eu tava cansado, querendo dormir. Voltei a dormir. Ela me ligou e mandou mensagem falando que a Rússia tava invadindo a Ucrânia.

Reportagem: O seu hotel ficava onde em Kiev?

R.: Ficava em Kiev, mas um pouco no final, perto de uma base militar.

Reportagem: E sua atitude foi gravar um vídeo. Esperava ter tamanha repercussão?

R.: Não esperava. Só entreguei pra Deus. Só queria ajuda pra sair do País. E graças a Deus, repercutiu e chegou às autoridades.

Reportagem: Teve contato direto com as autoridades?

R.: Não.

Reportagem: Mas quando você soube que as pessoas estavam sabendo da situação?

R.: Pelas muitas mensagens que recebi no Instagram, no Facebook, pelos muitos compartilhamentos do vídeo.

Reportagem: Tava você e mais quem no hotel?

R.: Tava só eu de brasileiro. Outros brasileiros estavam no apartamento deles, que eles estão mais tempo lá.

Reportagem: Além daquela fumaça que você mostrou no vídeo, você testemunhou algo a mais em relação à guerra?

R.: Eu tava na janela, não dava pra ver as bases, mas eu sabia que ali tinha uma base depois que me falaram. Do hotel onde eu tava, vi dois caças passando, um atacando míssil no outro, e o da frente tava fumaçando já e lá na frente, teve uma explosão. Não sei se o da frente caiu, ou o de trás caiu, mas teve uma explosão.

Reportagem: A partir desse momento, teve alguma noite de sono?

R.: Não consegui dormir. Eu tinha tique na cama, ficava me mexendo, não conseguia dormir, com medo de a qualquer momento cair algum míssil, alguma bomba onde eu tava. Tinha muito medo.

Reportagem: Tomou alguma atitude além de gravar o vídeo?

R.: Naquele momento, não tinha como fazer nada além de gravar o vídeo. Sei tudo que tava acontecendo, mas mandava mensagem pra outro menino. Conseguiram me tirar de lá. Outros brasileiros, que já estavam no time há mais tempo, todos conseguimos sair de lá. E dali pra frente, só andando mais e mais, até sair da fronteira.

Reportagem: O seu vídeo te ajudou?

R.: Ajudou sim, recebi muita mensagem de apoio, oração, família, amigos, acho que ajudou muito, conseguir chegar às autoridades pra observar a gente com um olhar diferente.

Reportagem: Onde buscou a força pra sair de lá?

R.: De Deus. Minha família orava. Por muitos momentos achei que iria morrer. Mas eu não podia falar com minha família. Busquei muita ajuda de Deus. Então sempre buscava força de Deus e em muitos momentos encontrei.

Reportagem: Teve algum momento que você achou que não ia escapar dessa?

R.: Teve momentos como quando cheguei ao CT do time. Eu observava as circunstâncias: “Vou morrer aqui, não vou ter como sair”. Na fronteira, falei: “vou morrer, vou morrer”. Tinha outros meninos brasileiros tentando conter, porque estavam com a namorada deles, tentando se manter fortes. Depois de uma conversa, falaram: “Acho que não vamos conseguir sair”. Mas graças a Deus, conseguimos sair.

Reportagem: Como foi o caminho de Kiev para a fronteira?

R.: Não conhecia a Ucrânia. Outros brasileiros conheciam. E fomos ao presidente [do Kolos] pra pedir ajuda, dinheiro, pra gente tentar sair da fronteira. O presidente do Kolos nos ajudou. E nós pegamos estrada, tinha muita barreira, civil armado, colocaram arma na minha cara, fiquei com muito medo. E nós continuamos a viagem, que era para ser de sete horas, durou 31 horas. Tinha muito trânsito, muitas pessoas armadas, e ainda tivemos três horas andando a pé. Pra mim, roraimense, não foi nada. Quando estávamos indo, veio o pensamento: “não vai conseguir, não vai conseguir, não vai conseguir”. Mas eu tinha um pouco de fé de que nós iríamos conseguir chegar lá. Mas tudo o que eu ouvia só era morte: “nós vamos morrer, nós vamos morrer”. Ou morreríamos de tiro ou morreríamos de frio. Vi tanques de guerra, míssil, passando por cima da minha van, quando eu estava indo pra fronteira.

Reportagem: Estava indo de van?

R.: Sim. Éramos quatro brasileiros [do Kolos] e uma ucraniana Ela namorava com um jogador brasileiro. Éramos três homens e duas mulheres.

Reportagem: Por que a viagem durou tanto?

R.: Foi por conta do trânsito, muita gente querendo sair do País.

Reportagem: Quem colocou arma na tua cabeça?

R.: Eram civis. Estavam bêbados. O consumo de whisky é muito forte lá. Eles estavam fazendo [coquetel] molotov. A Ucrânia distribuiu arma, estavam muito bem armados, fazendo barreiras nas estradas.

Reportagem: Como conseguiu apoio pra sair do País, em termos financeiros?

R.: Quando a guerra começou no País, não tínhamos como sacar dinheiro. O que tinha era o que estava no bolso. E acho que um dia antes, eu já tinha trocado o meu dinheiro pelo dinheiro deles. Quando estourou a guerra, consegui comprar algumas coisas. E no caminho, tinha algumas e só nos mantínhamos de biscoito e batatas, até chegar à fronteira. Eu tinha só cem dólares.

Reportagem: Depois, você conseguiu ir para a Romênia. Mas de lá para o Brasil, como conseguiu a passagem?

R.: A embaixada brasileira ajudou, depois que nós passamos. Quando chegamos ao aeroporto, tinha quem não tinha passagem, quem tinha, gente correndo atrás. E foi um jogador, [Junior] Moraes, do Shakhtar, que comprou minha passagem. Ele é meia-atacante. Foi Deus que colocou ele na minha vida. Ia ser muito difícil arrumar a passagem, que era cara, 13 mil reais.

Reportagem: Você não o conhecia?

R.: Não. Nunca tinha ouvido falar dele, acho que ele nunca tinha ouvido falar de mim, ele chegou e me ajudou.

Reportagem: Ficaram alguns conhecidos seus por lá ainda?

R.: Não. Quem conheci, conseguiu sair. Quem eu ouvi falar, conseguiu sair. Teve brasileiro que ficou lá. Até saiu vídeo deles falando.

Reportagem: O que você deixou na Ucrânia?

R.: Todas as minhas chuteiras, todas as minhas roupas. Trouxe pouquíssimas roupas. Deixei tudo. Moletom. Tudo, tudo, tudo novo que eu tinha comprado pra levar, deixei lá. Vim só com a roupa do corpo e a calça.

Reportagem: Você ficou quatro dias com a mesma roupa?

R.: Eu tava de calça jeans, daí botei a roupa do time, que já tava pronta.

Reportagem: Você acha que essa guerra abalou ou acabou com o seu sonho?

R.: Não. Em nenhum momento pensei em acabar o sonho. Em nenhum momento abalou. Graças a Deus, saí bem, nada machucado e essa guerra só me deixou mais forte. Porque eu sei do potencial que eu tenho pra chegar onde eu quero. Então, em nenhum momento eu pensei. Muitas pessoas disseram: “Ah, vai desistir”. Eu não respondia nada. Agora tou no momento de falar. O meu sonho não acabou, não. Tem muita coisa por vir na frente.

Reportagem: Após sua chegada em São Paulo, quem te recepcionou?

R.: Meu amigo e minha namorada. Fiquei na casa do meu amigo, o que arrumou o clube para ir para fora, pro FC Kolos.

Reportagem: E em que momento você se sentiu realmente aliviado?

R.: Quando eu cheguei em São Paulo, eu falei, pensei para mim mesmo: “Agora estou mais tranquilo”. Mas não estava totalmente tranquilo. Eu só fiquei tranquilo depois que eu dormi. Achei que eu estava sonhando. E quando eu estava vindo no carro, tinha medo de barulho de avião, ficava assustado. De noite, eu tinha uns tiques na cama. Mas isso só durou dois dias, graças a Deus.

Reportagem: Barulho de bombardeios e aviões?

R.: O barulho de avião ficou na mente.

Reportagem: Acha que isso será um trauma?

R.: Não. Mas quando escuto barulho de avião, consigo lembrar.

Reportagem: Domingo passado foi um momento muito especial pra você, seus familiares e amigos. Quando abriram-se as portas do desembarque do aeroporto internacional de Boa Vista, você foi abraçado pelos familiares. O que passou pela tua cabeça?

R.: Que eu consegui sair vivo, ver meu pai e minha mãe. Já fazia um tempo que eu não vinha aqui por conta do futebol. Foi um momento de alívio e missão cumprida de ter conseguido sair bem. Eu estou muito feliz de ver ele [pai], abracei, já almocei, almoçamos, brincamos, tudo aquilo que uma família faz.

Reportagem: Já encontrou seus amigos?

R.: Ainda não.

Reportagem: Já pensou o que você vai fazer daqui pra frente?

R.: Treinar muito e focar no futebol.

Reportagem: E quando você ganhou essa notoriedade, chegou a receber propostas de outros clubes?

R.: De três clubes: Athletico Paranaense, Sport e Chapecoense.

Reportagem: São propostas pra jogar na base?

R.: Tem um no profissional, outro na base, tou vendo ainda.

Reportagem: São propostas formais?

R.: São propostas.

Reportagem: Você ainda está decidindo pra onde vai?

R.: Mas no momento aqui, igual eu falei pros meus agentes lá em São Paulo, agora vou curtir com a minha família, vou passar duas semanas, então vou aproveitar bem. Depois que eu for pra lá [São Paulo], vou fazer um acordo pra ver onde vou jogar.

Reportagem: Falando em futebol roraimense, em especial a escolinha onde você iniciou, o Extremo Norte, você tem uma gratidão especial pelo coordenador Marquinho Cai-Cai?

R.: Tenho sim. O professor Marquinho me ajudou, sempre me incentivou. Foi ali que ele abriu a porta do mundo pra mim. Foi dali que eu saí pra São Paulo, realizar um sonho, jogar em São Paulo, conhecer São Paulo. Tenho uma gratidão por ele, pelo Mateus, sua esposa, pelo Niltinho, pelo Baixinho, toda a escolinha Extremo Norte que tenho amor e carinho por eles. Se um dia o Extremo Norte se tornar um time profissional, voltarei a jogar lá.

Reportagem: Como foi pra você sair de Mucajaí pra jogar em Boa Vista, sobretudo, no Extremo Norte?

R.: Fui pro Extremo Norte como goleiro. Era a única posição que tinha pra mim. Fiz o teste. Fui pra Salvador. Joguei Copa Boa Vista, depois fui pra linha, onde me encaixei como defensor, joguei a Copa Roraima, outros campeonatos, com o professor Marquinho. Isso foi em 2011. Fui numa competição, fiz o teste. Era aquele pensamento: “Nossa, goleiro, não tinha noção, a bola passava (risos)! Esse goleiro é bom (risos)”. Fui pra Salvador, ficamos em terceiro lugar lá. Não lembro o nome da competição [Rede Ball Cup]. Era um torneio importante, porque tinha o Colo-Colo do Chile, Bahia, Vitória.

Reportagem: E quando se tornou zagueiro definitivamente?

R.: Tinha noção no gol. Me ensinaram, mas não aprendi nada. Mas na linha eu conseguia resolver.

Reportagem: Quais os agradecimentos especiais que você faria por ter chegado onde chegou?

R.: Primeiramente, quero agradecer a Deus por ter chegado aqui, bem, e segundo a minha família, amigos, mas eu tenho uma gratidão específica pelo Negão [primeiro treinador], o professor Carlos César, daqui de Mucajaí, o professor Marquinho, pelo Anderson lá de São Paulo, que abriu as portas pra mim. Por todos que oraram pela minha vida e pela vida de outros brasileiros que ainda estão lá, infelizmente.

 

Reportagem Especial da Folha BV

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