O boêmio da praça

Segue o treicheiro, caixeiro viajante das paragens do Xingu, descendo o mapa tupiniquim na megalópole paulistana. Ah homem de coragem, esse aos seus 48 anos, sentado como estátua viva, quase um patrimônio histórico na ilha em que ele diz estar satisfeito com o banho quase que diariamente na torneira perto do ponto de táxi em frente a agência do Banco do Brasil. O nobre homem também mandado de Deus ao mundo, filho de um antigo 2º sargento da marinha, morto aos seus 7 meses de vida e tomado no colo de sua mãe Antônia Dias Calandrini Azevedo. Antes mesmo de partir com suas tatuagens feitas em Salva Terra, situada na ilha do Marajó- PA, deixando um nunca mais como sua marca no seu leito maternal chamado Ponta de Pedras.

Há 2 anos e meio em Parintins, chegou este sábio homem com a fala mansa e rica de sensatez, a educação de um verdadeiro descendente da dinastia de Baden, pequeno, inteligente e corajoso como um Napoleão Bonaparte.

Deveras o senhor da barba branca suja, com os cabelos secos e ralos, a perna inchada, um calção de cor azul da seduc (Secretaria de Educação do Estado do Amazonas), sandálias havaianas azul marinho e uma camisa no ombro queimado pelo sol, um tom de pele ilustrado pelo suor, a sujeira da sua cama de papelão com cabeças de peixe e uns bagos de farinha espalhados em sua volta.

Se sentir bem e está vivo parece ser o seu único lema, mesmo que já tenha sido vítima de tentativa de homicídio por um “tal” de Pio do bar da lama com uma barra de ferro; os dois pontos que levou no braço e outro à altura do supercílio retratam a imagem do quanto este bravo homem está a mercê da violência urbana todos os dias. A serenidade de contar um pouco da sua história sem pedir nada em troca, mesmo com sua dor constante na perna direita coberta de violeta, uma planta medicinal daquelas que avó faz como remedinho pra passar na curuba do neto ouriço, se pensar de forma relativa talvez alguma alma bondosa com jeito de avó tenha feito isso. O inchaço chamado também de elefantíase clama por tratamento pelo homem que sofre calado, assim como a silenciosa epilepsia que o acoberta e ninguém sabe.

Este senhor também já amou, duas mulheres o qual cuidou de seus filhos como se fossem os seus. As donas Rosilene e Francimar, nos respectivos 1 ano e 10 meses e os 5 anos e 10 meses. Sempre bem vivido amante de um bom “índio muchacho”, ou melhor uma cachacinha; grande admirador dois bois, o cara que vendia material educativo nas escolas e ficou sem dinheiro e imergiu na solidão, o desbravador Montgomery Dias Calandrini de Azevedo, mais um daqueles que grita por dentro, no vazio dos pesadelos dos surdos e na cegueira branca de quem diz ser gente. Fica lá o nobre homem no banco da praça, olhando em linha reta o que passa por perto e na conversa com seus amigos. Talvez à espera de alguém, um certo alguém.

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