Parintinense com Síndrome de Down luta contra a doença que lhe tirou a mãe

Gilson Almeida | 24 Horas
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Parintins (AM) – O novo coronavírus tirou o maior alicerce da vida de Francinaldo Corrêa de Souza, 46 anos, conhecido carinhosamente como Tchanga, no dia 06 de maio. Natural de Oriximiná, Pará, radicado em Parintins desde a década de 1980, a pessoa com Síndrome de Down luta contra a doença e ainda não sabe do falecimento da mãe, Izomar Corrêa de Souza, 85 anos, vítima de Covid-19.

A irmã de criação de Tchanga, a intérprete de libras, Adriana Souza, 33 anos, diz que o momento exige preocupação redobrada, principalmente com o psicológico, para a superação das consequências do vírus. A família decidiu preservá-lo de uma forte reação emocional sobre a notícia da morte da matriarca, porque ambos tinham uma relação afetiva muito intensa e viviam 24 horas juntos.

Torcedor do Boi Caprichoso, do Flamengo, faixa roxa em Jiu-Jitsu e aluno da Escola de Educação Glauber Viana Gonçalves, da Associação Pestalozzi de Parintins, Tchanga teve diagnóstico positivo para Covid-19, no dia 12 de maio. Ao sentir sintomas da doença como tosse seca, familiares o conduziram à Unidade Básica de Saúde (UBS) Dr. Toda, no bairro da Francesa, para fazer teste rápido.

Com quadro de saúde estável, Francinaldo é do grupo de risco, por ter Síndrome de Down, e recebe tratamento domiciliar, na Rua Amazonino Mendes, no Itaúna 01. “Ele é guerreiro e forte. Já passou por tanta coisa e perdeu a mãe. É algo muito difícil, porque não podíamos chegar perto dele. Eu estava no hospital e convivo com ele, às vezes sou eu que o controlo, em algumas situações”, relata Adriana.

A irmã conta que Tchanga sente vontade de abraçar. “Como quando vi uma cena em que queria me abraçar e tive que correr para o quarto para ele não chegar perto de nós porque estávamos no hospital. Para nossa surpresa, era ele que estava positivado. Não é fácil você perder uma mãe e ter a doença. No caso dele, ainda mais por ser do grupo de risco. A gente tem fé dará tudo certo”, acredita.

Tchanga encara uma das provações mais desafiadoras da vida, diante da mudança provocada pela pandemia na família. Ele superou a perda da visão do lado esquerdo por ter sido alvejado por uma arma de fogo caseira, próximo de casa. O incidente se deu quando um homem tentou lhe tomar a chuteira, mas Francinaldo se recusou a entregar e sofreu um tiro, em meados da década de 1990.

Ele é da primeira turma da Escola de Educação Especial Glauber Viana Gonçalves, da Associação Pestalozzi de Parintins, que completou 35 anos, em 2020. Apaixonado pelo Caprichoso, brinca na Marujada de Guerra desde a década de 1990. Também é aluno da Escolinha Show de Bola, que ensina alunos a jogar futebol, e atleta da Academia de Jiu-Jitsu Rafael Team, na Avenida Geny Bentes, Itaúna 01, onde é mascote.

A Associação Pestalozzi de Parintins, apoiada pelo Projeto Criança Esperança, é uma espécie de segunda família para Francinaldo, onde tem estímulo de socialização, vida independente e autônoma. A escola de educação especial promove desenvolvimento humano de crianças, adolescentes e jovens com deficiência, por meio de atividades lúdicas, recreativas, dança e teatro.

Tchanga participa de uma oficina pedagógica de arte na qual pinta muito bem tecido, gosta de dançar, inclusive como pajé do Boi Arco-Íris. “O Francinaldo é uma das melhores pessoas para se conviver, gente boa, tem bom humor e namorador. As meninas até brigam por causa dele. Ele leva tudo na brincadeira. Ele não liga muito para as paixões que desencadeia nas meninas”, conta a professora Dalva Nascimento.

A presidente da Associação Pestalozzi de Parintins confessa que Tchanga herdou da mãe, Dona Zuzu, o amor pelo Boi Caprichoso. Outra paixão dele é o futebol e o Flamengo. Francinaldo imita o famoso gesto do atacante rubro negro, Gabriel Barbosa, o Gabigol, feito na comemoração de gols marcados. Ele veste a camisa do clube do coração e põe chuteira nos pés para ser o Gabigol de Parintins.

Porém, quando Francinaldo quebrou o isolamento social e deu um passeio nas ruas de Parintins, com o manto flamenguista, a família queimou o uniforme do atleta especial por medida de segurança contra o vírus no dia 10 de abril. Mas a tristeza durou pouca, pois Tchanga recebeu novo equipamento oficial doado pelo ídolo do Flamengo, Arthur Antunes Coimbra, o Zico.

Zico se sensibilizou com a história de Tchanga após a professora Dalva Nascimento publicar nas redes sociais um apelo por um novo uniforme para o flamenguista. A corrente de solidariedade  rompeu as fronteiras do Amazonas e chegou ao ex-jogador do Flamengo, no Rio de Janeiro. Zico gravou um vídeo e mandou uma mensagem de apoio para a recuperação de Francinaldo.

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