Parodiando Bandeira

desinfetantes caseiros

Fátima Guedes | Plantão Popular

– Disinfetanti casero! Baratinho! Mata micóbrios! É discunforme cheroso! Só cinco a garrafa!…

É a tentativa diária de Carlos e Pedrinho (12 e 10 anos respectivamente), por sobrevivência “digna” na cidade de Parintins/AM.  O descrito, a seguir, traz até nós a denúncia poético-dialógica de Manoel Bandeira, em Meninos Carvoeiros: “Pequenina, ingênua miséria!… Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis…”

Desde a madrugada o Bairro União, na pressa por pão e vida, cotidianamente, acelera o parto das manhãs. A concorrência por uma ‘oportunidade de negócio’ é grande entre os vários “exércitos de reserva”, crescendo aceleradamente em volume e necessidades. Por sua vez, em plena sintonia, o sol impõe-se às omissões e prevaricações institucionais avermelhando o céu da folclórica Ilha como a instigar aos ilhéus enfrentarem a acomodação, o conformismo e ao mesmo tempo lançarem-se na construção de uma Parintins alicerçada na Justiça Social e na efetivação do Bem-Viver.

Na condição de neo reservistas, os irmãos Carlos e Pedrinho, moradores daquele bairro, arriscam-se nas fileiras desse volumoso exército, colocando no mercado seu “disinfetanti casero”…

Por um acaso, ou quem sabe, naqueles dias em que a vida nos proporciona choques de realidade, encontramos os pequenos vendedores na Praça dos Bois, por volta das dez da manhã, negociando a produção sobre um triciclo bastante castigado. Pela expressividade espontânea e descontraída dos ensaístas de marketing, fora nítida à nossa compreensão que aquela força produtiva assim como seus meios, na prática das duas crianças e de tantas outras, em princípio, constitui-se uma mistura de trabalho e brincadeira. Vale chamar atenção para o imenso vazio de espaços e oportunidades neste Município para que os pequeninos possam desenvolver o lúdico de forma digna e saudável, conforme o que estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Retomando: apesar da situação de vulnerabilidade, do sol escaldante, da fome expressa no rosto e dos olhares hipócritas de passantes, os pequenos vendedores não se intimidavam. A compra do tênis preto exigido pela escola pública era a meta daquela oportunidade de negócio…

Disinfetanti baratinho! Mata micóbrios e é discunforme cheroso! Só cinco a garrafa!…

Nisso, a abordagem da autoridade competente dá um banho de água fria naquele ingênuo entusiasmo:

Quero o endereço e o nome dos pais de vocês. Seus pais não sabem que trabalho infantil é crime?…

Surpresos e, ao mesmo tempo expressando medo, Carlos segura o triciclo, manda Pedrinho ‘agasalhar’ as seis garrafas restantes e encara a autoridade:

Dona, lá em casa mora 10. A mamãe ganha de faxinera. O papai limpa quintal. De noite, nós se reúne pra fazer disinfetanti. Eu e o Pedrinho precisa de um tênis preto se não nós num entra na escola. Vocês dizem que é crime nós trabalhar. Mas quem vai dar os tênis pra nós? Robar nós num vai. Proibiram o Raizinho, aquele nosso colega – a senhora deve lembra – de ajudar o pai dele vender banana frita e o olha só! Se junto com os passador lá do bairro e na persiguição da pulícia mataram ele. Nós só ajuda lá em casa, dona. Nós não roba nem vende droga.

Por uns instantes, a Agente simulou anotar o endereço e o nome dos pais… Sumira na esquina, certamente sem respostas coerentes frente às contradições do Estado Democrático de Direito: de um lado o determinismo da Lei; do outro, a realidade nua e crua da grande maioria de crianças e adolescentes sem perspectivas humanizantes, em situação de vulnerabilidade social.

O flagrante delito inibiu o lúdico comercial dos curumins. Não havia mais clima para continuar brincando de trabalhar sério naquela manhã. As horas avançavam. Era quase meio-dia… Mais uma tarde sem aula. O dinheiro arrecadado para a compra do tênis preto não atingira o valor…

Pra enganar a fome, dividiram entre si um pão e uma banana escondidos numa surrada mochila acondicionada num canto do triciclo. Seguiram viagem até os perdermos de vista…

Na incerteza dos rumos que essa estrada pode levar, nossos protagonistas enturmaram-se a tantos outros pequenos vendedores, parceiros dos mesmos dramas, das mesmas histórias.

Por fim, ficamos a matutar sobre nossa impotência político militante: “como conciliar nossos propósitos sobre os desafios da nova manhã e construir o jeito novo de acolher, de proteger quem pede vida decente pra se desenvolver?…”. Além do tênis preto, há outras tantas necessidades gritando por urgência e emergência sem que haja respostas concretas, justas, coerentes e humanas no entremeio das constantes orgias e do ufanismo inconsequente daquela que se autodenomina “capital brasileira do folclore”. 

E lá se vão os pequenos vendedores trabalhando como se brincassem…

– Olha o disinfetanti casero!!!…

(Os nomes dos personagens são fictícios; o fato, porém é real, assim como os diálogos.)

Maria de Fátima Guedes Araújo

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). Foi fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã e Militante da Marcha Mundial das Mulheres.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here