Polícia Federal investiga denúncias de tortura em meio a onda de violência em Nova Olinda

Ribeirinhos alegam agressões por parte de militares. Ao menos oito pessoas já foram mortas na região desde início das operações.

A Polícia Federal vai investigar denúncias de moradores de Nova Olinda do Norte, no interior do Amazonas, de que estariam sofrendo tortura de policiais militaresSegundo relatos, as agressões começaram depois que dois policiais foram mortosno último dia 3, durante uma operação da Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) na região do Rio Abacaxis, onde pelo menos oito pessoas foram assassinadas nas últimas semanas.

Depois das mortes dos policiais, mais de 50 militares foram enviados à cidade para identificar e prender os responsáveis pelos crimes. Segundo o Ministério Público Federal, as denúncias sobre os abusos começaram em seguida. A Polícia Federal foi enviada ao município no último dia 10, após uma decisão judicial, para apurar os relatos e garantir a proteção de indígenas e povos tradicionais.

Segundo o delegado da PF, Luiz Carlos Ramos Porto, a equipe tinha poucas informações sobre os crimes e agora trabalha na apuração dos homicídios e das denúncias.

“Quando nós chegamos aqui, conseguimos localizar esses corpos, fizemos perícias, iniciamos as apurações e acabou que nós conseguimos concluir que haviam vários fatos durante um laço de tempo curto de dias. Começamos agora apurar cada fato desse aí e a suspeita que existe participação de policiais nesse assunto, e buscar a responsabilização”, explicou.

Entre as denúncias de violência sofrida pelos moradores, a PF deve investigar o relato de uma mulher, que mora em comunidade ribeirinha, e diz ter sido abordada pelos militares por volta das 6h da manhã dentro de casa.

“Tava dormindo, eles chegaram puxando meu cabelo, dando porrada no meu pescoço, me acordando mesmo na bicuda mesmo … aí já começavam a jogar gasolina e pegava o isqueiro e saiam assim né?”, contou a moradora que pediu para não ser identificada.

 

Outro morador também afirmou à Rede Amazônica que foi agredido por policiais que atuam na operação contra tráfico de drogas na cidade. O homem relatou, ainda, que um filho dele também foi espancado.

A SSP confirmou que a PM fez uma operação no local no dia 5 deste mês, mas negou irregularidades. Nessa ação, um homem de 20 anos morreu em uma suposta troca de tiros.

O delegado Federal contou à reportagem que a equipe tem recebido diversas denúncias. “São denúncias de homicídios que aconteciam sempre com abordagens mais ou menos similares, com muita violência, com muita rispidez, com agressão e existem históricos de tortura. Existe histórico de muita agressão e de homicídios, pessoas que estão desaparecidas, então nós estamos agora olhando todas as informações porque a área de abrangência é muito grande. A gente vai buscar, concentrar todas essas informações buscando se houve ali realmente uma ação continuada de crimes com os mesmos autores. Seja ou não de autoria de policiais ou de traficantes que tem na área porque houve realmente um embate no início dos trabalhos antes da gente chegar que provocou todo esse problema”, disse o delegado.

Ele acrescentou ainda que o histórico na cidade tem sido de “muito terror, de violência, e que as pessoas não querem sair de casa”.

“Elas não conseguem mais navegar nos rios em razão desse pavor de serem abordados e de sofreram algum mal. Então nós estamos procurando minimizar essa parte de violência e investigar os crimes que foram acontecendo”, afirmou.

Força Nacional reforça segurança

 

Na sexta-feira (14), o Governo Federal autorizou o uso da Força Nacional de Segurança Pública em apoio à ação da Polícia Federal na região do Rio Abacaxis. De acordo com o delegado Luiz Porto, 30 homens chegaram ao município.

Força Nacional chega a Nova Olinda do Norte (AM) para combater onda de violência

Força Nacional chega a Nova Olinda do Norte (AM) para combater onda de violência

“A Força Nacional veio contribuir para a gente maximizar essa atuação dentro dos rios, pra gente conseguir adquirir a confiança das pessoas pra que elas possam transitar no Rio e a gente fiscalizar consequentemente”.

A operação da Secretaria de Segurança Pública do Estado foi iniciada na região depois que o secretário executivo do governo, Saulo Moyses da Costa foi baleado no braço enquanto pescava, no dia 24 de julho.

No primeiro dia da operação, no dia 3 de agosto, dois militares foram mortos e outros dois ficaram feridos. No dia 5, outra pessoa foi morta. O indígena Josimar Moraes da Silva também foi encontrado morto no mesmo Rio Abacaxis, no dia 7 de agosto.

Polícia Federal enviou equipes a Nova Olinda do Norte para acompanhar o caso — Foto: Divulgação
Polícia Federal enviou equipes a Nova Olinda do Norte para acompanhar o caso — Foto: Divulgação

No dia 11, três corpos de ribeirinhos mortos a tiros – que haviam sido notificados na segunda-feira (10) pela SSP – foram encontrados pela equipe da Polícia Federal. Segundo familiares, os corpos eram do casal Anderson Monteiro e Vanderlania Araújo e do adolescente Matheus Araujo, de 16 anos, que estavam desaparecidos há 10 dias. Uma quarta pessoa que estava com o trio continua desaparecida.

Segundo a SSP, os policiais mortos realizavam o trabalho de investigação de tráfico de drogas e formação de milícia armada nessa região. Eles foram vítimas de uma emboscada por membros do grupo criminoso que, de acordo com investigações do Governo, também é suspeito de promover ações violentas na área, extração ilegal de madeira e minério, além de pirataria.

Uma ação realizada por volta das 22h de quarta-feira (12) resultou nas primeiras prisões da operação: duas mulheres e um homem, apontado como familiares de um traficante local, suspeito de comandar o bando criminoso que atua na região e suspeito de homicídios que ocorreram nos últimos dias, incluindo a morte de dois policiais militares.

Ainda der acordo com a Secretaria de Segurança, ao longo da operação, até o momento, em 11 prisões e na apreensão de 13 armas de fogo e a localização de quatro plantações de maconha.

 

Com informações do g1

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