Quintais Urbanos – Canteiros de Bem-Viver

Os jardins reflorescem, os campos reverdejam, afastam-se as mesas, recriando-se relações sustentáveis e harmoniosas entre todos os seres. (Na fotografia Dona Cecé em imagem  de autoria de Floriano Lins/AmReal)

POR FÁTIMA GUEDES

Ei, Parente!

O cenário de incertezas relativo à questão ambiental fizera-se inquietação comum em todo o Planeta. Há uma convergência de forças sociais em permanente estado de alerta. A produtividade de alto impacto não encontra da parte de governos e das próprias indústrias, atitudes e comportamentos ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e ecologicamente corretos.

Dentre as contribuições pertinentes à conjuntura, Sônia Terra Ferraz, Doutora em Administração dos Serviços de Saúde, Universidade de Montreal, Canadá, traz ao debate o tema “cidades saudáveis” vislumbrando melhoria do meio ambiente a partir do uso de recursos comunitários visando à saúde concebida como qualidade de vida.

O conceito “Bem-Viver” é práxis das populações e comunidades tradicionais e opõem-se ao “bem-estar”, herança do modelo salvacionista de 1929. Em princípio, é uma forma de organização social, política e econômica com ênfase na reciprocidade, na fraternidade, na convivência com outros seres e no profundo respeito ao Planeta. Em suma, Bem-Viver é partilha e destino fraternal dos bens da Terra para todos.

Os Quintais Urbanos concebidos na perspectiva de “canteiros de bem-viver” constituem-se em vivências simples apoiadas em experiências da agricultura tradicional. Historicamente, são os conhecidos terreiros desenhados com árvores frutíferas, plantas medicinais, ornamentais, hortaliças e coloridos com folguedos de famílias e amigos.

Em suma, a investigação sobre os Quintais da cidade de Parintins/AM propõe analisar e visibilizar essa memória biocultural ameaçada. Sobre floridos canteiros e em lugar de arbóreos sombreiros, impõem-se agressivamente na maioria das residências, calçamentos, obras de concreto e espécies vegetais importadas (ficos, pau-pretinho, espatódia, oiti e outras), em contraste à dinâmica e à ancestralidade indígena.

Dos Terreiros aos Quintais

 

Quintal de David Ferreira de Souza Filho (Foto: Floriano Lins/AmReal)
Quintal de David Ferreira de Souza Filho (Foto: Floriano Lins/AmReal)

O Município de Parintins, a 327 km da capital, Manaus, está localizado na 9ª sub-região do baixo Amazonas. Abriga uma população estimada de 111. 575 habitantes, segundo dados do IBGE (2015), e uma área territorial de 5.951.200 km².  A sede do Município encontra-se na Ilha Tupinambarana, situada à margem direita do Rio Amazonas.

No lado norte da Ilha está a Baixa do São José: uma curva como braços abertos em acolhimento ao Rio Amazonas. É uma baixada (no popular parintinês).  Há mais de cem anos, grande parte das famílias que habitava a Ilha contava com um fator privilegiado – o tamanho da área residencial. Eram terrenos de aproximadamente 500m2, recheados por árvores frutíferas, plantas medicinais, hortaliças, pequenas criações – galinhas, patos e porcos. Até hoje, conservam-se ali tucumanzeiros, dada sua importância na alimentação dos ilhéus. Uma referência da Baixa de São José é o terreiro onde nasceu Lindolfo Monteverde, criador do Boi Bumbá Garantido.  Ali, Lindolfo plantara o broto da brincadeira, na época, despretendida de ambições. Hoje, conhecida no mundo inteiro e transformada em indústria cultural.

A partir do desenvolvimento urbanístico e expansão populacional, os amplos terreiros, a exemplo a Baixa de São José, transformaram-se em pequenos lotes, em média 300m2 ou até 80m2. A necessidade de moradia incidiu em divisão e redistribuição dos espaços entre membros da família – filhos, netos, sobrinhos e até afilhados.

A abordagem é um breve espelho da realidade e da função social e cultural dos terreiros/quintais da Ilha Tupinambarana.

Dialogando com a ciência

Relatos sobre a Amazônia descrevem plantios ao redor das casas. Para a Pesquisadora da Embrapa (Amazônia Ocidental), Elisa Vieira Wandelli, o quintal ou pomar caseiro é uma área, na ordem de um hectare, aproximadamente, onde a maioria dos nativos da Amazônia tem ao redor de casa plantação dominada por árvores.

“É um patrimônio cultural importante que precisa ser valorizado, preservado e mantido não apenas pelos nativos, mas por quem chega para morar na Amazônia. Os quintais produzem alimentos sadios e livres de agrotóxicos. Além de produzirem nutrientes e vitaminas, fornecem medicamentos para toda a família. Nos quintais, os agricultores podem fazer suas experiências agrícolas, com menor risco econômico, ambiental e social e as famílias exercem deliberadamente princípios da agroecologia e da agricultura orgânica. São agroflorestas complexas, pois envolvem uma variedade de espécies nativas e exóticas destinadas à produção de frutos, madeira, sombra, medicamentos, especiarias e forragem”, dz Elisa.

 

Com base nas informações, o conceito “Quintal” amplia-se ao campo e cidade, íntimo na relação: amazônida e uso de áreas residenciais para cultivos diversos. Agrofloresta é outro conceito passivo de esclarecimentos. Segundo a pesquisadora Elisa Wandelli, trata-se de “um sistema que oportuniza o uso inteligente do solo para a produção agrícola e florestal obedecendo-se a princípios ecológicos e sustentáveis por meio da presença de árvores, interação positiva entre os componentes (florestais, frutíferas, culturas anuais, animais etc.), consideração dos processos de sucessão ecológica, eficiência na ciclagem de nutrientes e no uso dos recursos naturais, presença de espécies fixadoras de nitrogênio, cobertura de solo e da biodiversidade”.

Sob as trilhas da Agrofloresta, reafirma-se, portanto, a importância do avivamento da memória sobre Quintais Urbanos como influência positiva no equilíbrio do clima, no cultivo de frutos e verduras saudáveis, nos diálogos da chuva com os lençóis freáticos, na redução da velocidade dos ventos, no controle da erosão e por tantos benefícios ignorados.

Recriando quintais urbanos na Ilha

Artêmio Guedes (Foto: Floriano Lins/AmReal)
Artêmio Guedes de Araújo (Foto: Floriano Lins/AmReal)
A problemática ambiental da Ilha Tupinambarana somada ao êxodo rural forja a revitalização de memórias culturais – os Quintais Urbanos. A partir de diálogos e visitas em Quintais de Parintins comprova-se a possibilidade de desenvolvimento de práticas simples em agrofloresta e interações familiares mais saudáveis. Com esse propósito, elegemos quatro Quintais cujos perfis se aproximam do ideário semeando na ancestralidade amazonense.

Chegamos à Rua Padre Francisco Luppino, casa 3814, Itaúna 2. Ali, o contador e técnico agrícola aposentado Artêmio Guedes de Araújo, 73 anos, cuida do Quintal: uma área de 70m2 (fundos de sua residência).

Artêmio demonstra profunda inquietação quando o assunto aborda meio ambiente. “Me angustio e mergulho em grande tristeza quando vejo as praças, os mananciais, as comunidades periféricas da Ilha sendo destruídas. Não se ouve da parte de nenhum órgão ligado à questão interesse em dialogar com a comunidade ou desenvolver campanhas de sensibilização. A cada dia fico mais desiludido com a ignorância social. Minha compensação é este pedacinho de quintal onde planto o que dá e até mostrar que é possível melhorar a cara de Parintins começando pelos nossos quintais”.

Rememora sua origem cultural expressando saudade da relação infância e agricultura familiar. “Minha alma é interiorana. Meus pais nos ensinaram amar a terra, pois é ela quem bota comida boa em nossa mesa e garante saúde. Naquele tempo, se comia o que plantávamos – cará, macaxeira, jerimum, melancia, feijão, frutas, verduras e também criávamos galinhas, patos, porcos… é o que lembro. Só comprávamos o que não se podia produzir”.

Enquanto tecia carinhosamente as lembranças, Artêmio mostrava o Quintal. “Aqui, eu tenho lima, ata, mamão, cupu, jabuticaba, cacau e até uma figueira. Também tenho plantas medicinais – capim santo, camomila, salva de marajó, vick, arnica, hortelãzinho, elixir paregórico, marupaí, mangarataia… Tenho ainda três colmeias da espécie jupará. Se alimentam das flores daqui – ipê de salão é a preferida. E pra completar, crio um cachorro – Snupp e um casal de jabutis – Dilma e Lula que me ajudam na adubação do solo”.

Fruta do Conde ou Ata no Quintal de Artêmio Guedes (Foto: Floriano Lins/AmReal)
Fruta do Conde ou Ata no Quintal de Artêmio Guedes (Foto: Floriano Lins/AmReal)
Adubação do solo? Como desenvolver adubo orgânico naquele pequeno espaço urbano? “As lições da infância e a necessidade nos ajudam nas respostas. Preparo compostagem com as fezes dos jabutis, do cachorro, as folhas caídas e restos de comida. Tudo isso feito em buracos apropriados. Nada fica exposto. No período certo, apanho cinza nas padarias, deixo por mais um tempo até atingir o ideal. Desse jeito mantenho meu quintalzinho e alimento minhas plantas sem veneno”, diz ele.

Teceu ainda comentários sobre resíduos sólidos. “Este é outro problema sério em Parintins. A ignorância somada à irresponsabilidade administrativa não têm respostas; o que não dá pra aceitar. Parintins é uma Ilha pequena. Com vontade política isso aqui era um paraíso… Mas, sim. Nada mando pra lixeira. Recolho sacolas, papelão, plástico, vidros… e, semanalmente, entrego num dos pontos de coleta seletiva: Associação dos Catadores de Lixo de Parintins (ASCALPIN) ou na sucataria do Piauí, um ponto aqui perto”.

Era impossível encerrar o diálogo sem ouvir um último recado: “A minha relação com a terra, com a natureza é uma relação de troca: ela me dá o que lhe ofereço. Sem contar que meu quintal é minha área de lazer, minha terapia”.

Referência ambiental

Quintal do professor Paulo Roberto Macedo (Foto: Floriano Lins/AmReal)
Quintal do professor Paulo Roberto Macedo (Foto: Floriano Lins/AmReal)

Entre os bairros e o centro da cidade há sutis percepções: nos bairros, a presença de Quintais é mais visível, apesar de acanhados. No entanto, em plena Avenida Amazonas, n0 2596, uma das vias principais da cidade, o Quintal do professor Paulo Roberto Macedo, 56 anos, é referência. Paulo é graduado em Economia e Educação para o Desenvolvimento Sustentável e cuida com esmero de uma área de 180 m2.

Embora nascido e criado na cidade, já na infância, o professor Paulo manifestava afinidades com questões relacionadas à agricultura. “Foi algo muito latente em minhas vivências. Curtia minhas férias no interior ajudando meu pai em pequenos serviços como plantar, cuidar dos animais…  Porém, aquele sentimento reacendeu durante a formação em Desenvolvimento Sustentável. Ali, adquiri informações úteis para desenvolver o que tenho hoje em pleno centro da cidade. O curso apenas recriou algo que já existia em mim”.

O Quintal do professor Paulo é uma agrofloresta urbana. Ali, há uma variedade de espécies vegetais e animais em harmonia com as necessidades do solo e a qualidade de vida do proprietário. Espécies identificadas: variedade de banana, coco, manga, mamão, goiaba, biribá, cacau, cupu, macaxeira, jerimum, milho, ata, açaí, inhame, quiabo e outro tanto de plantas medicinais – alecrim, paregórico, hortelã, manjericão, corama, capim-santo, boldo, anador…  Reforça a importância do cultivo na garantia de saúde. “Como aquilo que planto e resolvo meus problemas de saúde com a fitoterapia desenvolvida no meu quintal. Enfim, garanto sustentabilidade e bem-viver”.

Frutas como o mamão são cultivas pelo professor Paulo Roberto Macedo (Foto: Floriano Lins/AmReal)
Frutas como o mamão são cultivas pelo professor Paulo Roberto Macedo (Foto: Floriano Lins/AmReal)
Dentre as espécies preferidas de seu Quintal, refere-se carinhosamente ao maracujá, banana, mamão, goiaba e jerimum.

Um dado inovador é a técnica utilizada na produção da compostagem. “A responsabilidade no trabalho com a galharia, a folhagem e os resíduos orgânicos é das galinhas, dos patos, dos jabutis e perus. Após consumirem e triturarem o que lhes interessa vem meu “trator” (o porco) que se encarrega de remexer e misturar tudo. Por fim, a combinação sol e chuva completam o serviço. O resultado está aí”.

Dada a afinidade com a questão, mantém estreita relação com o campo. “É impossível isolar campo e cidade quando se desperta para modos de vida sustentáveis; é o campo quem fornece a dinâmica operacional, a memória cultural, enfim, desperta a alma para o entendimento do natural enquanto fonte de sustentabilidade da existência em todos os sentidos. Conforme enfatizam os Trabalhadores Sem Terra – se o campo não planta, a cidade não janta”.

Sobre as constantes violações ao meio ambiente, o professor Paulo considera-se “incompetente para um enfrentamento efetivo às injúrias e monstruosidades praticadas ao solo, às águas, às florestas, aos bichos… Enquanto vamos de baladeira, o mercado se arma de propagandas, tecnologias sofisticadas – dos venenos às máquinas. Apenas resisto e insisto nos conhecimentos tradicionais”.

Ressalta Paulo Roberto Macedo: “O caos socioambiental que se impõe à comunidade humana me fez optar por um relacionamento com a natureza. Saio de casa o mínimo necessário. Há um grande vazio de interlocutores para temáticas dessa natureza. Meu Quintal é minha fonte de inspiração para desenvolver criatividade, gerar renda e viver com qualidade de vida”.

As experiências ali compartilhadas são pontos de luz aos desafios na construção de bem-viver na área urbana de Parintins.

Heranças do campo

O Quintal de David Ferreira de Souza Filho (Foto: Floriano Lins/AmReal)
O Quintal de David Ferreira de Souza Filho (Foto: Floriano Lins/AmReal)
Continuamos nossa busca em direção ao Bairro Itaguatinga, norte da Ilha. A cerca de estações irregulares protegida por variação de flores contrastava com a sarjeta fétida inundando a rua. Aquela resistência agroflorestal urbana de apenas 100 m2, na Rua Raimundo Almada, n0 3806, pertence ao trabalhador rural aposentado Davi Ferreira de Souza Filho, conhecido como Vivi, 80 anos, e ensino médio completo.  

Comprovadamente, reminiscências de Quintais Urbanos de Parintins são heranças do campo. Vivi expressa essa relação com muito sentimento. “Tudo o que tem aqui vem das lições de meus pais e avós. A terra onde nasci era toda plantada e ajardinada. Vem de berço esse cuidado. Antigamente, havia diálogo dos pais com os filhos sobre a importância da terra pra nossa sobrevivência. Assim, há 35 anos, quando me mudei pra cá por conta da morte de minha esposa, insisto reproduzir um pouquinho do que vivi no interior”.

O Quintal do Vivi é uma mini-agrofloresta urbana. A variedade de espécies vegetais cultivadas mantém o equilíbrio do solo, da temperatura além de fornecer alimentos saudáveis advindos de adubação natural produzida a partir da troca entre os saberes dele e a sapiência da natureza. É indescritível a harmonia vivenciada naquele terreno: flores se entrelaçam com bananeiras, laranjeiras, cacaueiros; o aroma do manjericão, do hortelã, da erva cidreira mistura-se à salva-de-marajó divinizando o ambiente. Na mesma sintonia, o balcão com couve, maxixe, tomate, pimenta e cheiro verde comprova a saúde e vivacidade daquele neocitadino. “Minha vida e minha saúde estão aqui. Com meus pais aprendi que sou natureza. Já nasci natureza. Violentar qualquer ser por menor que seja – formigas, fungos – é violência a mim mesmo. A natureza devolve o que recebe”.

David Ferreira de Souza Filho, o Vivi (Foto: Floriano Lins/AmReal)
David Ferreira de Souza Filho, o Vivi (Foto: Floriano Lins/AmReal)
Vivi não esconde os sentimentos cultivados com o interior: “Guardo uma imensa saudade das memórias do campo. Conservo aqui no peito a mesma amizade pela terra, pelo Paraná do Ramos e pelas pessoas que conviveram comigo. Quando converso com algum deles, recomendo que não troquem o interior pela cidade. Lá, a vida, o ar, enfim, tudo é mais puro… O amanhecer do campo me acompanha todos os dias. Lá, tudo é mais humano”.

Nos vigorosos oitenta anos, Vivi angustia-se por não encontrar interlocutores receptivos (vizinhos e conhecidos) à troca de vivências com influências na melhoria da paisagem urbana e ainda na perspectiva do bem-viver. “A ignorância se apropriou do ser humano de tal forma que essas informações entram por um ouvido e saem pelo outro. Quem comanda essa gente é a televisão e as tecnologias perversas que destroem saberes e o senso de humanidade. Não percebem que esse descaso com os saberes do campo fazem mal a eles mesmos”.

Entre o concreto e as plantações

A magia daquele Quintal nos distraiu em relação à noite que chegava… Na despedida, Vivi nos deixa uma mensagem: “Para ter quintais organizados com flores, frutos e plantas medicinais; sem água empossada, sem lixo acumulado depende de educação não só da escola, mas das famílias; também exige seriedade e compromisso dos governantes. Esses assuntos estão se perdendo. É obrigação de cada ser humano fazer a sua parte e bem feita. A construção divina que cura pela natureza será sempre formada e por mim sempre adorada”.

A inquietação por mais referências agroflorestais urbanas aponta o Quintal da cozinheira aposenda Maria da Conceição das Neves. Dona Cecé, 77 anos, reside na Rua 7 de Setembro, n0 2132, uma área de 150 m2, dividida entre o concreto e as plantações.

Sintonizando nossa surpresa sobre a forma como organizara sua vida naquele espaço misturado, foi logo puxando conversa: “O que vocês estão vendo aqui vem comigo desde o interior. Desde os sete anos trabalhava na roça com minha avó. Sem isso aqui, adoeço. Nossa vida no Paraná do Espírito Santo era muito feliz; tinha muita fartura. Meu pai era pescador e também plantava milho, macaxeira, jerimum, melancia, verduras… Também tinha um grande cacoal entremeado por taperebazeiros, mangueiras, jenipapeiros… É o que lembro”.

Imagem do Google Maps
Imagem do Google Maps

O Quintal de Maria da Conceicão das Neves. Dona Cece (Foto: Floriano Lins/AmReal)
O Quintal de Maria da Conceicão das Neves. Dona Cecé (Foto: Floriano Lins/AmReal)

Ansiosa para falar de seu Quintal, conduz nossa atenção para os espaços que sobrara do concreto. “Isso aqui era tudo terra; aí, meu filho casou e queria fazer a casa dele. Permiti, mas não deixei que ele tirasse todas as minhas plantas. No início, foi uma teima. Se ele não deixasse o espaço da horta, o pau ia cantar. Aí, as plantas ficaram misturadas com a calçada e a casa. Mesmo assim, ficou um pé de manga, laranja, ata, acerola, araçá, coco, jabuticaba, urucu. Ficou também os vasos com as flores e a outra parte pras minhas plantinhas medicinais e meu balcão de cheiro verde”.

Refere-se às plantas com muito carinho. “Todas essas plantas são muito importantes e queridas. São minhas filhas. Quando meu filho vai desgalhar as árvores é muita briga. Quando sinto algum probleminha de saúde, meu hospital é o meu quintal. Tenho hortelã, manjericão, boldo, arruda, elixir paregórico, cidreira, sândalo, alecrim… Não gasto um dinheiro na farmácia. Aqui eu tenho saúde”.

Da relação com o campo, Dona Cecé perdeu a ligação e é no Quintal que compensa a saudade. “Nunca mais fui ao interior. Já não dá mais vontade. Não é mais do jeito que foi. Pra matar a saudade dos bons tempos, cuido do meu quintal e do quintal da minha nora, um pouquinho afastado da cidade. Do jeito como eu cuido e planto aqui eu faço a mesma coisa no quintal dela”.

As mudinhas de Dona Cecé (Foto: Floriano Lins_AmReal)
As mudinhas de Dona Cecé (Foto: Floriano Lins_AmReal)

Não esconde a dor, quando se depara com a destruição do meio ambiente e a morte dos Quintais urbanos. “Fico sem palavras… Sinto uma grande dor. Ninguém planta mais nada… Essas coisas estão se perdendo. A gente vê quintais abandonados e o lixo tomando de conta… Por mais que a gente queira conversar e ajudar, eles não querem. Fazem ouvido de mercador. Nem as autoridades nem as escolas fazem alguma coisa. Só fazem falar, mas não fazem nada. É muita tristeza…”.

Encerramos nossa visita com a mensagem de Dona Cecé. “Falem pra esse povo cuidar melhor dos seus quintais. É o que ainda resta pra nós da cidade. Isso tudo é importante pra nossa vida, pros nossos filhos, netos; pra nossa saúde e também pro mundo”.

Utopia em construção

Em desafio à morte dos Quintais Urbanos, forças sociais da Ilha se unem e tecem a TEIA (Teia de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta). É uma iniciativa socioambiental amanhada entre profissionais, universitários e militâncias populares com objetivo de trocar informações e experiências em agrofloresta a partir de saberes tradicionais. A princípio, as ações são tecidas em rodas de conversa nos Quintais, obedecendo-se objetivos e princípios norteadores.

A TEIA confronta ao monopólio WEB (Mundo em Rede), haja vista, conforme herança cultural indígena, ‘rede’ é instrumento de descanso e repouso. Já a TEIA faz associação ao habitat da aranha cuja construção flui de um núcleo biótico e se expande para o adiante, num perene vir-a-ser. Via teçume sutil, criativo e habilidoso a aranha oportuniza a sustentabilidade da espécie, do habitat e da vida. Identifica-se também símbolo de feminilidade: organiza o espaço, protege a comunidade em diálogo perene e harmonioso com a Grande Deusa.

Embora tímida a experiência, frente às demandas, já se comprovam vivências na cidade de Parintins cuja amplitude e eficácia vem sensibilizando amigos, vizinhos, educadores, ambientalistas a mudanças significativas nas relações com o ambiente urbano.

Um dos idealizadores, professor da UFAM – Edilson Costa Albarado, 37 anos, pedagogo, especialista em Educação Ambiental Urbana, mestrando no Programa Sociedade e Cultura da Amazônia e Pesquisador de Sustentabilidade Socioambiental na Amazônia, tece considerações: “Falar de Quintais Urbanos, recorda meus pais, avós e a qualidade de vida que se tinha. Parintins retrocedeu nesse sentido. É escasso o cultivo de árvores no espaço urbano. Percebe-se, gradativamente, a redução de espaços disponíveis ao cultivo de árvores. Daí a necessidade de trazer a memória dos terreiros, os conhecidos Quintais Urbanos; resgatar a cultura dos antepassados: para onde iam levavam suas plantas, suas sementes, suas frutas que podiam reproduzir. Apesar do enfraquecimento dessa memória, muitas famílias da cidade ainda resistem concretar seus terreiros, principalmente os mais velhos. A TEIA, esta célula em construção, é uma saída inovadora de Bem-Viver”.

Quando se refere à TEIA, os olhos do professor Edilson Albarado se iluminam: “A TEIA é prática; é troca de experiências e cuidados com a vida. É educação ambiental aplicada cujos reflexos são visíveis na vida e na cotidianidade dos adeptos. Adere à TEIA quem acredita que é possível viver de forma saudável com árvores e calçadas; quem se compromete em dar vida aos Quintais a partir do cultivo de frutos, flores, verduras, plantas medicinais… Por se tratar de uma ‘semeadura’ simples e exequível a espaços e a públicos, já se verificam adesões entre os de boa vontade, embora em processo ensaísta. Já é um avanço. A TEIA não se volta apenas ao cultivo do Quintal: o lixo é uma das grandes preocupações, haja vista a omissão institucional sobre a Política Nacional dos Resíduos Sólidos. Via TEIA, as embalagens são recolhidas e selecionadas semanalmente por cada ‘aranha’ e entregues aos catadores. É isso: a TEIA é Bem-Viver”.

O professor Edilson Albarado em seu quintal (Foto: Floriano Lins/AmReal)
O professor Edilson Albarado em seu quintal (Foto: Floriano Lins/AmReal)
O professor Edilson Albarado compartilha os primeiros momentos de semeadura: “Plantamos as sementes da TEIA durante o II Fórum Ambiental promovido pelo Projeto de Extensão – Arborizando o ICSEZ para uma Vida Sustentável, na Universidade Federal do Amazonas/Parintins. Sensibilizados pela objetividade da experiência, participantes elegeram-se ‘aranhas’ de seus Quintais. Nas rodas de conversas socializaram-se saberes, trocaram-se experiências e realizaram visitas a Quintais Urbanos na busca por referenciais compatíveis”.

A consolidação da TEIA na Ilha Tupinambarana exige desafios, afirma o ambientalista. “Não é preciso recorrer a novos modelos. A herança indígena presente em nossas vivências já aponta o Bem-Viver como caminho de sustentabilidade e equilíbrio ambiental. É imprescindível investir em educação ambiental aplicada na perspectiva da construção de cidades sustentáveis. Que os Quintais se transformem em espaços de acolhimento, fonte de alimentação e convivência saudável; socialização e preservação de memórias bioculturais visando à continuidade pelas futuras gerações”.

Entusiasmo e amor à causa não se esgotam nos acúmulos acadêmicos. O militante professor Edilson Albarado vai além. “A racionalidade produtiva era a preocupação desses povos: tirava da natureza apenas o necessário; o excedente era pra suprir o que a natureza não podia dar. Se a própria Ciência se apropria de saberes tradicionais para nutrir suas pesquisas, por que não fazermos uso do Bem-Viver ancestral e o reproduzimos nos espaços urbanos? É preciso entender que as cidades inculturaram os povos que migraram do interior. Podemos até não alcançar o ideal contido na memória dos Quintais Tradicionais, mas estamos teimoseando na construção desse caminho”.

Nos 80m2 de seu Quintal, Rua Urucará, n0 1452, Bairro Palmares, goiabas, abacates, graviolas, atas, bananas contribuem na economia do professor Edilson Albarado. Ali também absorve energias de flores, plantas medicinais e da sombra de um frondoso pé de moringa que abriga a calçada e, aos finais de tarde, compartilha das conversas triviais da curuminzada vizinha.

Em suma, a TEIA é um ‘canteiro’ para semeadura de qualidade de vida, de Bem-Viver a partir da recriação de Quintais, de ruas e praças onde adultos, jovens e crianças de boa vontade se elegem aranhas da agrofloresta urbana.

Matutações e repensar

Os encaminhamentos dirigem-se à necessidade de se revitalizar hábitos agrícolas tradicionais e aproveitamento prazeroso dos Quintais Urbanos.

Sob as mesmas trilhas, as matutações também se oferecem a um repensar problematizador sobre o volume de mazelas advindo de parâmetros desenvolvimentistas do sistema capitalista.  Comprovam-se tais reflexos na substituição do verde dos Quintais por calçadas e concreto, no uso indiscriminado de agrotóxicos com graves impactos à vida. Por fim, tais reflexos impõem o memoricídio biocultural aos cabocos amazônicos.

O desafio está posto: urgência de debate público, protagonismo popular, sensibilização e senso de pertencimento à causa, adoção e aproveitamento dos Quintais Urbanos para cultivo de hortas, jardinagem, plantas frutíferas, medicinais e outras.

Matutando a Temática de forma responsável e comprometida certamente Parintins revitalizará seus Quintais com flores, frutos, sombra, folguedos reafirmando relações sustentáveis e harmoniosas entre todos os seres.

Quintal de Artemio Guedes (Foto: Floriano LinsqAmReal)
Quintal de Artemio Guedes (Foto: Floriano LinsqAmReal)

Notas:

Tucumanzeiros Astrocaryum aculeatum – Palmeira nativa do norte da América do Sul, da família Arecaceae. Também conhecida como acaiúra, acuiuru, coqueiro tucumã, tucum, tucumã açu e tucumã arara.

IlhéusDenominação aos nativos da Ilha Tupinambarana, sede do Município de Parintins/AM.

Baladeira – Estilingue.

Estacões – Estacas rústicas usadas em cercas de quintais.

Cacoal – O mesmo que cacaual – Plantação de cacau.

Grande Deusa Na Mitologia Irlandesa, a Deusa Mãe Terra que, por sua fertilidade gera o alimento de todas as espécies, possibilitando assim a existência da vida, é vista, por conta disso, como criadora dos povos. Uma vez que a agricultura e muitas das artes estavam a princípio aos cuidados das mulheres, as deusas da fertilidade e das culturas precederam os deuses, e ainda mantiveram sua posição quando os deuses caíram. (QUINTINO, CROW CLÁUDIO, A Religião da Grande Deusa)

Curuminzada – Coletivo de curumim (menino em Tupi)

Memoricídio Biocultural – Definição para caracterizar a morte dos saberes tradicionais, produzida pelos efeitos perniciosos da modernização agrícola. (TOLEDO, VÍTOR e BARRERA-BASSOLS, NARCISO, A Memória Biocultural)

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). Foi fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã e Militante da Marcha Mundial das Mulheres.

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