Rios na Terra Yanomami tem 8600% de contaminação por mercúrio, revela laudo da PF

Um laudo da Polícia Federal sobre contaminação dos rios na Terra Indígena Yanomami, maior reserva do Brasil, revelou que quatros rios da região tem alta contaminação por mercúrio: 8600% superior ao estipulado como máximo para águas de consumo humano.

Foram analisadas amostras das águas correntes dos rios Couto de MagalhãesCatrimaniParima e Uraricoera, próximos a garimpos ilegais onde os invasores usam produtos nocivos à natureza, principalmente o mercúrio, durante a extração de minérios.

Em relação às águas que podem ser destinadas para irrigação de culturas arbóreas, cerealíferas, forrageiras, a pesca amadora e a navegação, as amostras apresentaram um teor de mercúrio de 860% nas amostras.

O objetivo da perícia, obtida com exclusividade pela Rede Amazônica, era identificar e quantificar a presença e concentração de contaminantes relacionados a atividade de extração do ouro nos garimpos ilegais dentro da Terra Indígena Yanomami.

Altamente tóxico, o mercúrio é usado pelos garimpeiros para separar o ouro de outros sedimentos e, assim, deixá-lo “limpo” (entenda mais abaixo). Após isso, a substância é jogada nos rios, causando poluição ambiental e impactando na saúde dos indígenas. Semana passada, foi apreendido 1Kg do metal na operação Xapiri, de combate ao garimpo na Terra Yanomami.

Uma pesquisada Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado em 2016, revelou que indígenas de comunidades próximas ao Uraricoera tinham alto nível de mercúrio o organismo, com 92,3% de contaminação.

O estudo deste ano da PF também mencionou um aumento das áreas afetadas pelo garimpo. Entre 2018 e 2021, os peritos identificaram que na região do rio Uraricoera, um dos mais afetados pelo garimpo, houve um aumento de 505% da área garimpada. Em 30 anos, a Terra Yanomami vive a pior devastação da história, com aumento de 46% de degradação da floresta em um ano.

Atividade garimpeira tem provocado a poluição dos rios na Terra Yanomami.  — Foto: © Bruno Kelly/HAY/Arquivo
Atividade garimpeira tem provocado a poluição dos rios na Terra Yanomami. — Foto: © Bruno Kelly/HAY/Arquivo

 

‘Potencial destrutivo’, diz procurador

 

Na avaliação do procurador da República que atua no Ministério Público Federal (MPF) em Roraima, Matheus de Andrade Bueno, como a Terra Yanomami é uma das mais afetadas pelo garimpo, a única alternativa é retirar os garimpeiros que exploram ilegalmente a reserva.

“Ela têm sido atingida de forma gravíssima pelo garimpo. E, coincidentemente, nessas áreas estão sendo detectadas presenças superiores de mercúrio, que a gente sabe que tem o potencial destrutivo muito grande e também de causar vários problemas de saúde”, disse.

Ele disse que a destruição de maquinários usados no garimpo, como já ocorreram em operações deflagradas pela PF e outros órgãos de fiscalização, é importante para a contenção dos crimes ambientais, mas a retirada dos garimpeiros é uma medida emergencial.

“Não há para o Ministério Público Federal nenhuma medida de saúde pública mais emergencial, mais importante para a garantia da saúde dos indígenas do que a retirada dos garimpeiros da área”, pontuou.

Em maio deste ano, a Justiça Federal determinou o retorno das operações para retirada de garimpeiros da Terra Indígena Yanomami. O pedido foi feito MPF.

Contaminação no corpo humano

 

O mercúrio é o único metal líquido em temperatura ambiente que se une facilmente ao ouro, formando uma liga metálica. Esse material, então, é aquecido, o mercúrio se evapora e o ouro se funde sozinho. O excesso de mercúrio restante desse processo é lançado diretamente nos rios e entra na cadeia alimentar, por meio da ingestão de água e peixes.

Segundo o laudo da PF, todas as amostras analisadas apresentam teores anormais do metal. O doutor em geologia e pesquisador da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Vladimir de Souza, explica que, no corpo humano, a contaminação é acumulativa e ocorre de médio a longo prazo.

“Quem está em contato direto, já está contaminado e isso tende a aumentar porque é acumulativo e lento. Você não vai ter contato com o mercúrio e se contaminar logo em seguida, é uma questão de médio a longo prazo.”

 

“Mas, as questões são muito graves nas pessoas que estão mais próximas, talvez eles vão adquirir doenças que nem suspeitam que esteja relacionadas ao mercúrio. Ele ataca principalmente o sistema nervoso central”, explicou.

 

Barco carrega petróleo no rio Uraricoera — Foto: CHRISTIAN BRAGA/Greenpeace via BBC/Arquivo
Barco carrega petróleo no rio Uraricoera — Foto: CHRISTIAN BRAGA/Greenpeace via BBC/Arquivo

Na avaliação do pesquisador, os números do relatório são “gravíssimos” porque os rios contaminados formam o rio Branco, o principal do estado, e, com isso, o mercúrio usado nos garimpos chega até a capital Boa Vista.

“A gente sabe que o mercúrio está dissolvido na água e ele não vai, na verdade, depurar. Ele vai chegar até Boa Vista e vai vir contaminando ao longo do caminho. Não há como depurar isso ao longo do caminho mais próximo, essa contaminação está chegando até a nossa capital”, disse.

A ingestão de alimentos contaminados não é a única forma de transmissão. Segundo Vladimir de Souza, o metal entra no corpo humano pelo tecido adiposo, fazendo com que a gordura se torne o abrigo ideal.

“O mercúrio entra no nosso tecido adiposo, na nossa gordura e não sai mais. Antigamente, se pensava que era só consumindo peixes que você se contaminava, mas já se sabe que o mercúrio fica na água em suspensão. Então, até no ar e no contato você já está se contaminando com o mercúrio, ele é muito volátil”, destacou.

O mercúrio tem a venda controlada no Brasil, mas toneladas chegam ilegalmente aos garimpos todos os anos. O Fantástico mostrou no passado como toneladas do metal entram clandestinamente no país.

A fronteira com a Guiana é uma das duas portas de entrada de mercúrio ilegal no país mapeadas pela reportagem. A outra é Guajará-mirim, na fronteira da Bolívia com Rondônia. O contrabando da Guiana entra por Bonfim, em Roraima, e acaba na Terra Yanomami, onde houve uma disparada no número de garimpos ilegais nos últimos anos.

Draga de garimpeiros no rio Parima, na Terra Yanomami — Foto: Alexandro Pereira/Rede Amazônica/Arquivo
Draga de garimpeiros no rio Parima, na Terra Yanomami — Foto: Alexandro Pereira/Rede Amazônica/Arquivo

 

 

Terra Indígena Yanomami

 

Maior reserva indígena do pais, a Terra Yanomami tem quase 10 milhões de hectares distribuídos no Amazonas e em Roraima, onde fica a maior parte. A região é formada por 371 comunidades de difícil acesso. Mais de 28 mil indígenas vivem na reserva.

A área é alvo do garimpo ilegal de ouro desde a década de 1980. Mas, nos últimos anos, essa busca pelo minério se intensificou, causando além de conflitos armados, a degradação da floresta e ameaça a saúde dos indígenas.

A invasão garimpeira causa a contaminação dos rios e degradação da floresta, o que reflete na saúde dos Yanomami, principalmente crianças, que enfrentam a desnutrição por conta do escasseamento dos alimentos.

 

Com informações do g1 Roraima

 

 

 

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