Salve, Jorge!

Nos anos 90, era Juiz de Direito, em Parintins, Dr. Jorge Alberto Mendes Júnior: amado pelos empobrecidos e suportado pela turma que mandava e desmandava. Mendes Jr. levava vida simples e discreta. As amizades mais próximas eram cidadãos comuns com quem dialogava assuntos de interesse coletivo – o que talvez tenha contribuído para desmerecer o título de “cidadania parintinense”.

Na relação com a Justiça, Jorge Alberto inaugurara um novo tempo na Ilha. Assim, sua partida para Manaus deixou não apenas saudades, porém muita falta…

De sua estada entre nós, há fatos dignos de registros; são testemunhos de coerência, autenticidade e autonomia no exercício das funções públicas.

Certa vez, reagiu com determinação, quando o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) desconsiderou a prisão de um infrator culhudo desta Ilha, prisão decretada pelo Meritíssimo. Impondo-se o merecido respeito e ao mesmo tempo em cumprimento ao princípio constitucional – “Todos são iguais perante a Lei, sem distinção de qualquer natureza…” – dirigiu-se ao presídio público (onde miseráveis pagam caro por transgredirem a ordem e o progresso que lhes tira o pão) e com firme suavidade determinou a soltura de todos os infratores ali encarcerados. De cela em cela, cumprimentava os condenados com tapinha nos ombros: “vá pra casa, meu filho, crie juízo. Amanhã, compareça no Fórum, às 8 da manhã”. Era 25 de junho, seu aniversário. Melhor presente já conquistado em sua jornada histórica.

O fato sacudiu a sonolência da Freguesia…  Em resposta, o Pincel Irreverente do Artista Plástico, Augusto Simões, congratulara-se à ação do Juiz expressando-a através do painel – Se todos fossem iguais a você! – exibido em um dos muros do Palmeiras Clube de Parintins.

A relação do Magistrado com os movimentos sociais era visivelmente solidária. Seu gabinete era passaporte dos sem voz e sem vez, quando as omissões e incoerências do Estado Democrático impunham trancas. Em igual sentido, acolheu a Associação das Mulheres de Parintins na defesa da adolescente “Rosana” (12 anos, na época), vítima de tráfico para garimpos de Peixoto de Azevedo (PA). Dr. Jorge agiu com altivez no resgate da menor. No caso da adolescente, mais uma vez, mostrava o Poder da Instituição quando a Balança é equânime independentemente de quaisquer diferenças. Demonstrara a prevalência da Justiça sobre o poder da grana.

Sobre o tráfico: a garota fora levada de Parintins sem o consentimento da família. Ficou sem notícias por quase dois anos. No bordel onde era mantida em total vigilância, “Rosana” rabiscou uma carta à família relatando a própria situação. Sigilosamente, confidenciou a carta a um cliente do bordel e, este, sensibilizado com a história da vítima, fez a carta chegar ao destino.

Ciente dos fatos, sem delongas ou burocracias, Jorge Alberto acionou a Comarca de Alta Floresta (PA); esta, por sua vez, mobilizou a polícia e o Serviço Social local para o resgate de “Rosana”.

Na sequência, Mendes Jr. articulou a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas para cobertura de passagens e hospedagem da agente designada por Ele, Professora Halana Jória Teixeira, parintinense, no traslado de Rosana a Parintins. Assinale-se: toda a ação resolvida em menos de um mês.

No retorno a Parintins, “Rosana” e a acompanhante foram recebidas no Aeroporto Júlio Belém com muita alegria por familiares, pela Associação das Mulheres e comunidade.

Considere-se: na época, não havia internet; celular era coisa das elites do sul do País… No entanto, para o Humano Juiz, Lealdade aos valores Jurídicos era o alimento comum de seu Ministério.

Sem dúvidas, os tempos eram menos perversos…  Corrupções e prevaricações aconteciam sim, mas sem a inescrupulosa banalização… Enfim, na perspectiva do Profeta Karl Marx, já alcançamos “o tempo da corrupção geral, da venalidade universal, onde tudo é levado a leilão e adquire preço de mercado…”. No entanto, para O Juiz, “uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa”, costumava descontrair.

 Um último lembrete: o legado do Meritíssimo é digno de divulgação e imitação… Seu nome sobressai entre outras poucas Figuras Públicas que serviram a este Município com ilibadas conduta e dignidade, e mais: sem a mácula dos perversos segredos de Justiça.

Rosana – Nome fictício da personagem em questão.

Ilha- Referência à cidade de Parintins, situada na Ilha Tupinambarana.

Culhudo- No coloquial parintinês, mandatário.

Palmeiras Clube- Clube onde aconteciam festas e ventos sociais.

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). Foi fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã e Militante da Marcha Mundial das Mulheres.

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1 COMENTÁRIO

  1. Fátima Guedes sempre me surpreendendo com o seu brilhantismo e merecido reconhecento ao mencionar o Magistrado.
    Dentre os muitos feitos dignos de louvor, esse Juiz fez questão de cumprimentar o Sr. Francisco Castro Ferreira (seu Chiquinho) pela humilde contribuição literária “Experiencias e sonhos de um amazonense”. O escritor (que nunca frequentou uma escola oficial – aprendeu a ler e escrever com seus pais) ficou muito admirado e lisongeado com a presença desse grande Magistrado em sua casa.

    Grande abraço: Gilmar Ferreira, de Natal/RN.

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