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Schiaparelli – parte 1

Fig01: Local de aterragem do módulo Shiaparelli.

A sonda MRO (Mars Reconnaissance Orbiter) capta imagem em alta resolução da área onde o módulo Schiaparelli (da ExoMars) caiu. A imagem mais recente deixa à mostra marcas na superfície de Marte.

Vale lembrar que as câmaras foram programadas para varrerem o centro  da elipse de aterragem após uma actualização  no software realizada depois da separação  do Schiaparelli do TGO (Trace Gas Orbiter). As fases de entrada atmosférica hipersónica e guarda-quedas ao longo da descida do Schiaparelli correram conforme o planeado. Embora a fase final tenha apresentado algumas turbulências, o módulo conseguiu ficar dentro da pegada principal da câmara.

Fig02: Par de imagens a mostrar o antes-e-depois da aterragem.
Fig02: Par de imagens a mostrar o antes-e-depois da aterragem.

Uma mancha escura e difusa de, aproximadamente,  15m x 40m  foi a principal marca  das imagens coletadas, claro,  o surgimento da mancha  está atrelado  ao impacto  do próprio  Schiaparelli. Vista em alta resolução, a imagem está a mostrar uma mancha enegrecida logo ao centro com 2,4 m de diâmetro. Trata-se, de facto, de uma cratera que fora criada pelo impacto de um objecto de 300 kg a uma velocidade da ordem de algumas centenas  de quilómetros por hora. A profundidade  da cratera foi estimada em 50 cm, o que poderá ser confirmado em  imagens futuras.

Há também marcas enegrecidas assimétricas na superfície marciana. Neste caso, é difícil fazer uma interpretação  clara e precisa. Mas, alguns dados podem nos ajudar nessa tarefa, por exemplo, um meteorito que colide frontalmente com a superfície a 40mil – 80 mil km/h apresenta ângulo de entrada baixo e os detritos são projectados para fora, na direcção do movimento.

Fig03: Imagens da MRO a mostrar o local de aterragem.
Fig03: Imagens da MRO a mostrar o local de aterragem.

Como Schiaparelli viajava  a uma velocidade baixa e   sua descida fora   planeada de forma descendente (quase vertical), pode ser  que  os tanques propulsores de hidrazina  do módulo tenham explodido  em uma direcção – no momento do impacto, consequentemente,  detritos da superfície marciana foram arremessados  na direcção da explosão.  Esta seria a primeira tese, a qual carece de confirmação.

Na figura 01, ainda notamos um  risco longo e escuro no canto  superior direito da mancha escura.  Embora  sua existência  possa estar relacionada com o  impacto e uma provável explosão, não há até o momento alguma explicação para esta marca. Outro detalhe é a presença de alguns pontos brancos na imagem perto do local do impacto – estes podem ou não ter ligação com  o provável impacto, como  são pequenos  não  tem como  clarear essa questão  com precisão. Em princípio, trabalha-se como a hipótese de ser apenas  “ruído”. Neste caso, a utilização de imagens extras irão ajudar na identificação  de sua origem.

O guarda-quedas   de 12 m de diâmetro   também aparece nas imagens, 900 m a Sul de Schiaparelli. Este guarda-quedas foi  usado  ao longo  da segunda fase da descida do módulo, depois  da entrada  inicial do escudo térmico na atmosfera marciana. Também está visível o  escudo térmico traseiro. A propósito,  o guarda-quedas  e o escudo térmico traseiro  foram  ejectados do Schiaparelli antes do previsto. Acredita-se que o Schiaparelli tenha disparado  seus propulsores  alguns segundos  antes de cair  no chão marciano, a uma altura  entre 2km e 4 km (não se sabe ao certo) e beijou o solo marciano   a mais de 300 km/h.

Fig04: Imagem obtida pela CTX da MRO para localizar o módulo Schiaparelli.
Fig04: Imagem obtida pela CTX da MRO para localizar o módulo Schiaparelli.

Um terceiro elemento foi confirmado no local de impacto do Schiaparelli: o escudo térmico frontal, que fora ejectado aproximadamente na altura dos      4 min, em uma descida planeada de 6min. A aparência brilhante e escura da mancha deste elemento está directamente ligada aos reflexos do isolamento térmico de várias camadas que cobrem o interior do escudo térmico frontal. Acredita-se, também, que as características escuras ao redor do escudo térmico frontal sejam poeira da superfície marciana, a qual foi levantada durante o impacto.

Nos próximos dias, está prevista a chegada de novas imagens que ajudarão a determinar as alturas locais dos elementos e, assim, termos uma análise mais detalhada do que seja cada um desses elementos. Toda essa discussão se originou após as falhas na fase final do Schiaparelli.

As investigações somente começaram, ou seja, voltaremos novamente a esse assunto. Os últimos estágios da sequência de descida (parte da liberação do escudo e guarda-quedas) até à activação e desactivação antecipada dos propulsores, não foram explicados ainda.

A avaliação é feita por telemetria, isto é, uma produção valiosa da demonstração da entrada, descida e aterragem do módulo Schiaparelli. Diga-se de passagem, o principal objectivo deste elemento da missão ExoMars 2016. As medidas foram realizadas nos dois escudos (dianteiro e traseiro) ao longo da entrada na atmosfera marciana.

Outro ponto que será estudado é como se deu a segmentação do módulo ao se separar da sonda. Facto que ocorreu na fase de entrada atmosférica hipersónica e desdobramento do guarda-quedas a velocidades supersónicas, e na posterior desaceleração do módulo.

Vale sublinhar que todos os dados acima contribuirão  significativamente para  o planeamento de missões futuras que  envolvam módulos de aterragem.  Portanto, somente o módulo de pouso foi afectado. A sonda em si está a funcionar bem e já iniciou a fazer algumas medições previstas.

Dr. Nélio Sasaki – Doutor em Astrofísica, Líder do NEPA/UEA/CNPq, Membro da SAB, Membro da ABP, Membro da SBPC, Membro da SBF, membro da UAI, membro da PLOAD/Brasil e ST/Brasil, Revisor da Revista Areté, Revisor da Revista Eletrônica IODA, Revisor ad hoc do PCE/FAPEAM, Director do Planetário Digital de Parintins-NEPA/UEA/CNPq, Director do Planetário Digital de     Manaus-NEPA/UEA/CNPq, Professor Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

 

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