Sem mãos, Lúcio supera limitação com arte e talento na pintura

Por José Brilhante | Especial para o Parintins 24 Horas

Fotos: Divulgação

Ele nascia em janeiro de 1992, em Parintins, onde jamais alguém imaginaria do que poderia fazer e ser capaz. Nada o levava ao encontro com a arte, devido as circunstâncias que não eram muito favoráveis para quem não possui mãos, uma ferramenta não essencial para Lúcio, que exercita a arte de uma forma surpreendente. Até uma vantagem foi lhe atribuído, a rapidez no aprendizado, fazendo que com todas as dificuldades que poderiam vim com a falta de mãos, desaparece quase por total.

O encontro com a arte

Começou a desenhar no jardim de infância, mas o primeiro e verdadeiro contato foi com apenas 12 anos de idade, na escola Brandão de Amorim (onde os professores, segundo Lúcio Santarém, são dedicados em ajudar a quem precisa), com um colega, quando uma professora passou um trabalho de aula que se resumia a um desenho. Analisou e acabou fazendo uns rabiscos e, viu que não tinha muita dificuldade. Ao chegar em casa, estava passando Dragon Boll Z, na TV. Em seus pensamentos veio a ideia de desenhar o personagem principal da saga. “Vou desenhar esse cara”, disse Lúcio quando ainda não conhecia por inteiro seu talento, “e saiu mais ou menos e, daí comecei a desenhar”.

Para desenvolver seu dom a um nível excelente, no ano de 2016, uma instituição e um professor foram responsáveis. A proposta partiu de um amigo que mora na mesma rua de sua casa que, acabou falando do Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro e do professor Josinaldo Matos, um profissional que contribuiu muito para seu desenvolvimento como artista e pessoa.

O encontro com o professor foi cômico: talvez não acreditando em Lúcio, ao demostrar o interesse no curso de desenho, trouxe um papel e lápis para testá-lo. Quando viu um bom desenho se materializando, só confirmou o futuro aluno prodígio, fazendo o que mais gosta, desenhar e surpreender as pessoas com seu talento.  Com o egresso para o curso, no Liceu de Artes, surgiu as evoluções, principalmente na parte das técnicas de sombreamento, pintura em tela, Aquarela e Estêncil.

O amor de mãe transformado em salvação

O nascimento, segundo dona Maria Santarém, mãe de Lúcio, foi dramático. Antes do parto acabou tendo um desmaio, quando retomou a consciência, seu bebê já tinha nascido. Após acordar, viu o filho com a boca “colada”, sem  mãos e pés. Como a família ainda não possuía preparo para cuidar de um recém-nascido com necessidades especiais, os problemas apareceram. O pequeno já tinha uma semana de vida e não mamava, apenas pingos de leite materno no canto esquerdo da boca, ainda fechada, era possível.

A mãe em um ato desesperado e com muito amor, depois de vê-lo, todos os dias chorando de fome e não podendo alimenta-lo, acabou tomando uma decisão que no futuro salvou a vida de seu filho. Após ficar o dia todo em busca de alguma esperança, chamou sua filha e falou: “Irei cortar a boca dele, porque não quero ver meu filho sofrendo com dor da fome”. Assim acabou cortando a boca de Lúcio, com uma tesoura para poder alimentá-lo. Após o ato de desespero, descobriu que era apenas um véu que unia a boca, onde o corte não causou sangramento. Mas, antes de tudo, levou-o em todos os hospitais de Parintins e não conseguiu que o operassem.

Após passar tudo isso, ainda na infância, dona Maria o acompanha em todos os lugares, na escola principalmente, sendo uma apoiadora, fazendo o papel de pai e mãe em todas as dificuldades.    

Superação e preconceito

“Todas as dificuldades me fizeram ir além, concluindo várias etapas com muito esforço” desabafa Lúcio, quando chegou ao seu primeiro desenho perfeito. No dia ficou muito orgulhoso de si, quando pegou aquele rabisco feito tempos atrás e comparou com desenho atual. Percebeu a diferença e ficou mais feliz ainda, pela evolução do trabalho que estava indo adiante.  

Em relação ao preconceito, ele está arraigado na cultura brasileira e, em Parintins não é diferente, assim acontece também com Lúcio Santarém. Uma pessoa chegou perto dele e fez algumas insinuações para tentar rebaixá-lo.

– Porque você está aqui, fazendo esse curso, sem ter mãos? – perguntou com sadismo, a pessoa.  Ele simplesmente ignorou, e o tempo se encarregou de mudar as coisas. Passado um ano, a pessoa acabou vendo e ouvindo sobre o trabalho de Lúcio. Ao perceber a injustiça e preconceito que cometeu, pediu desculpas, abraçou-o e disse que errou, julgando e confundindo a ausência de mãos com a falta de talento e força de vontade.

Planos para o futuro

A vontade de fazer uma faculdade de Artes Plásticas é evidente, perante o entusiasmo demostrado, quando se falou de conhecimento aliado ao talento. Mas, seus planos para o futuro, vai além da graduação. A alma de Lúcio é solidária, não pensa somente em si, pensa em ajudar o outro que talvez esteja passando pela mesma dificuldade que já o acometeu. “Levarei minha história de vida para as escolas por meio de palestras, assim demostrando que a superação e o esforço alcança barreiras que a deficiência impõe” relata Lúcio, o artista sem mãos, ao final da conversa.   

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