Simão por Simão: mestre, simples e feliz!

A cidade? Parintins. O bairro? Palmares. No portão o curumim. O curumim? Vitor. De Vitor, a pergunta: “São vocês quem irão entrevistar meu avô?”. Do carro, a resposta: sim! Da propriedade, o encanto. Os convidados? Katiuscia Ferreira, Marilza Mascarenhas e Sinny Lopes. A bandeira (erguida no topo da árvore)? É azul. Logo, entramos em domínio Caprichoso? O lago? Macurany. O anfitrião? Simão. A família? Assayag. O prazer? Todo nosso.

Sinny Lopes | 24 horas

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Dando prosseguimento à homenagem aos 20 anos de criação do Conselho de Artes o Portal Parintins 24 horas e a coluna “Na Mira da Sinny” tem a honra de compartilhar com seus leitores esse registro histórico que é a entrevista, resultado de uma longa conversa de 02h em um fim de tarde durante o festival de Parintins, deste gênio caboclo: Simão Assayag!

Sinny: Então, é aqui nesse paraíso que você (o termo usado foi “senhor”, mas, fui gentilmente repreendido: trate-me de você, me sinto menos velho!) se refugia do mundo bovino?

Simão: Sim, esse é meu lugar de paz. Os políticos, meu amigos, todos vêm e conversam aqui, às vezes eles estão brigando, quebrando o pau, aí vem aqui parece que apazigua.

O Amazonino, ele é meu amigo e nem era governador ainda, era construtor de antes quando ele estudava no colégio estadual: ele estava saindo e eu estava entrando. Ele me chamava de caboquinho. “Caboquinho posso fazer um coquetel lá na tua casa para os operadores de turismo?” (ele estava numa porradal com o Arthur Neto), dali da entrada da Francesa o Arthur me liga: “Irmãozinho estou chegando, arruma um lugar ai pra mim?”. Ai todo mundo preocupado, o porto é ali atrás que é mais fundo e o Arthur atracada do lado do chapéu de palha onde estava o Amazonino, ao vê-lo, Amazonino dispara: meu amigo! Abraçaram-se. Vê se eu sou besta de brigar pelos outros. Convidou para o coquetel, ele ficou lá um pouquinho e todo mundo ficou esperando a bronca, tanto o pessoal de lá como o pessoal daqui.

Sinny: O que levou você a criar o Conselho Artes do Boi Bumbá Caprichoso?

Simão: Eu já ajudava no boi como um avulso, eu ajudava o Juarez [Lima] pintar por que eu era pintor. Já fiz exposição de quadro em Manaus, no Paraná e, então, ia para lá e ajudava a pintar, de intruso, até que um dia mudou a diretoria e me convidaram para ser essa pessoa [de comandar a parte artística]. Eu me articulava bem com os artistas, eu entendo a alma dos artistas, uma pessoa que não estava muito ligada em dinheiro, estava mais ligada na sua arte e de repente me levaram lá: convidaram-me e eu topei. Mas, olha tem uma coisa importante aqui pra mim: o boi está muito grande e quase impossível carregar o boi sozinho, eu tenho uma formação de descentralizar as coisas. Então, a primeira razão foi essa: vamos descentralizar e vamos criar o conselho porque no conselho a gente divide os erros, as responsabilidades, divide tudo e são mais informações. Nesse conselho tinha artistas de tribo, tinha o Arlindo Junior, o Juarez, tinha vários setores representados; a segunda foi essa: para tirar o peso e fazer com que todo mundo participasse, um planejamento participativo do boi.  Comparando aqui [casa dele] eu estou vendo o rapaz trabalhando ali, uma hora pergunto: o que você está fazendo ai, ele pode em uma hora responder que está cavando um buraco, outra hora pode dizer eu está preparando a terra para colocar um poste, então ele está empenhando no projeto aí ele vai caprichar mais, se esforçar. Então, o meu pensamento depois de descentralizar, foi de levar os artistas para participar e assim foi, pois eu sempre me dei bem com todo mundo, eu sou parintinense, morei seis anos no Paraná, em Curitiba, fiz faculdade lá, mas, nunca perdi o vínculo com Parintins: natal, carnaval, festival eu estava aqui. O principal motivo foi à descentralização, porque ao mesmo tempo em que descentralizava, a retribuição era que todo mundo ficava envolvido.

Sinny: Então já me respondeu a segunda pergunta que seria por que criar um conselho para formatar o boi?

 Simão: A maneira que eu conversava com artistas para passar as ideias que a gente concebia no conselho, e só depois levava para cada artista dos setores, era da seguinte forma assim, nunca fui muito profissional, sou muito amador. Então chamava o artista: vamos aqui, e sempre tinha um boteco na frente, ai chamava e tomava uma cerveja. O artista que iria fazer lenda eu chamava e ai contava uma história para ele, a gente se integrava ali, depois que ele entendia, ai pegava um papel, um release e dizia: “É isso aqui! Tudo que nos conversamos está aqui, isso é só para te lembrar”. Abria um leque para ele, e assim era a participação dos artistas, e aí? Eles viajavam comigo. Eles me chamavam de Simon [saimóm].

Sinny: Quem foram os primeiros conselheiros?

Simão: Lembro-me que tinha o Arlindo Junior, Juarez Lima, Ronaldo Barbosa, Gil Gonçalves. O Boi cresceu muito e evoluiu para essa ideia de fazer um boi que ao mesmo tempo em que tinha o pé no chão, ele viaja na criatividade. Porque eu entendia que a apresentação do boi era um espetáculo e que se fosse aquela apresentação supérflua, ela tendia a acabar. Então, ela tinha que ter esse lado de espetáculo, como tem a Fórmula 1, como tem o carnaval do Rio, tinha que ter algo grandioso para atrair, eu acho que isso foi umas das grandes mudanças: isso foi o que deu certo. Isso foi o que puxava pela temática, aí nós passamos a montar um boi temático que era o mais difícil, que era três noites até então e o boi era solto. Apresentava umas coisas um dia, no outro dia não tinha nada a ver e eu resolvi contar uma história nas três noites: começo, meio e o fim. E ai alguém chamou de ópera, em um desses anos coincidentemente veio o Joãozinho Trinta e o barco ficou atracado aqui em casa, ele e outros carnavalescos e ali ele se empolgou, e eu já era fã dele porque que sou beija flor (sendo interrompido pelo cretino colunista também torcedor da Beija), daí nós trocamos ideias, ele era fantástico. Viajava com os ratos, urubus dele e isso me ajudou muito em termo de coragem pra ousar e não ter medo de errar, porque para acertar todo mundo tem coragem, para correr o risco de errar e aguentar as “porradas” poucos têm a mesma coragem. Eu aprendi um pouco com ele nisso aí, acho que deu certo porque o boi se renovou, se reciclou. O boi estava chato, a gente já sabia que vinha uma cobra dali, a cobra era amarela, mas, era uma cobra daí a coisa mudou, ficou uma coisa maluca.

Nas “Sete Visões de Kaniuwá”, uma maluquice, e ai entrou um pouco da fantasia, por que entra a fantasia sem perder a essência. Na verdade Kaniuwá era uma tribo, não era um tuxaua, mais aí eu já evolui, a minha mulher tem uma participação muito importante nesse meu lado etnográfico, ela é a grande pesquisadora. Então a gente pensou isso, aconteceu isso, ai eu agarrei aquilo e veio as Setes Visões, agarrei que o sete é um numero cabalístico, é um número místico, um número bíblico, e ai nessa visão ficou muito caracterizado essa “opera cabocla” por que ela foi muito contada, elas se auto contaram. Porque ele tinha uma visão em uma noite, e na última noite aquela visão dele clareou, mostrou o que era que ele estava vendo.

Sinny: Como você vê o conselho de artes hoje? Por que saiu?

Simão: Sai porque eu achei que já estava na hora. Porque estava na hora de entrar cabeças novas e está na hora de dar outra mexida que a meu ver ainda não aconteceu. A meu ver umas das razões de o boi estar cansando as pessoas é porque estão muito repetitivos, muito iguais. Os bois tinham estilos muito diferentes, o Garantido do Caprichoso, o Caprichoso você sabia que vinha com uma invenção nova, não sabia o que iria ser de onde vinha, de onde era, de como era, podia esperar que viesse uma onça descia de paraquedas, a cobra sei lá o quê, isso já eram as características fora as outras que foram se perdendo. Mas, você perguntava como eu via o conselho, depois que eu saí, espontaneamente, e por duas vezes me chamaram, eu fui participar para não parecer que eu estava me fazendo de gostoso, mas, eu achei muito diferente. Numa delas tinham uma mesa para umas trinta pessoas, e ai eu pensei aqui ninguém vai conseguir trocar ideias, muitas pessoas, deixei o conselho em 2001 na “Saga Tupinambá”, um projeto do Ciro Cabral, então ali eu já comecei aos poucos ir deixando o boi. Então, eu achei o conselho demais extenso, muito espalhado, não sei como que conseguiu reunir e manter algumas coisas, e resguardar um pouco daquelas informações, da apresentação, por que tudo vasa. A segunda vez que eu tentei já foi um pouco de pressão em cima da diretoria: “Tem que chamar o Simão”, daí eu fui e participei, mas, o boi já estava definido então, eu disse que não tinha o que fazer a não ser torcer pra da certo e nessa altura já era o Gil [Gonçalves] com o Edwan [Oliveira] e o boi já estava definido. Eu não vou interferir na criação, se precisarem de alguma ideia, alguma coisa que eu possa contribuir, mas, não precisa eu estar aqui dentro.

Sinny: O conselho completa vinte anos, nesse meio tempo ele conquistou nove títulos, achas que é um rendimento satisfatório? Quais foram os outros ganhos dessa criação além dos títulos?

Simão: Era uma das coisas que eu era muito criticado, uma era que eu quase não usava azul, eu era o diretor de artes: só não usava vermelho! Eu não fazia aquela coisa que ter que ganhar de qualquer maneira, eu pensava o seguinte: se a gente fizer um grande espetáculo competitivo, surpreendente a vitória vinha naturalmente, as pessoas às vezes vinham me contar: “Olha o garantido está fazendo isso” e eu dizia: “Olha rapaz eu prefiro não saber. Têm outras pessoas no conselho, fala pra eles. Eles entendem melhor isso, irão contribuir”. A gente sabe que precisa, na arte da guerra você tem que conhecer seu inimigo, mas, ficava difícil eu mudar aquela linha, que já tinha traçado. Eu não gostava muito da espionagem, no fundo era isso. Eu acho que o boi nesses anos, se eu entendi bem a pergunta: mudaram muito pouco, os bois estão muito parecidos, às vezes eu estou escutando uma música aqui eu penso que é de um boi, ai é do outro porque o estilo, as batidas são iguais. Veio o Baleinha para cá, veio o David, que já tinha ido daqui, o David tem muita influencia sobre o ritmo, não é só a voz dele. Um ano ele veio para o Caprichoso e fez algumas mudanças no ritmo que nos tentamos fazer com o Arlindo Jr. e ninguém conseguiu, pois já era muito forte aquela maneira.  As coisas, que eu não músico, uma batida mais acelerada e havia uma lenda de que o garantido microfonava surdo, e eu tinha amigos lá, sobrinhos que diziam: “Não tem nada disso!”. Mas, porque que o som deles fica mais forte? Tem mais swing? E eu conversava muito com o Arlindo, com Nill [Armstrong], e depois eu descobri que era a maneira de bater, que o caprichoso dava uma batida em cima da outra, ele [marujeiro] batia e quando o coro voltava com o som ele abafava e lá no garantido a batida era mais lenta, por ser mais cadenciada: esse era o grande segredo! Então, nisso quando o David voltou o Caprichoso corrigiu isso. Era aquela de “não ninguém vai mudar!”, mas, não era pra mudar: era para aperfeiçoar! Bate da mesma maneira, mas, deixando o coro fluir, o ar expandir o som. Então, essas coisas eu observava com muito jeito, e dizia: “E aí Vela o que tu achas isso e tal?”.

Sinny: Se você pudesse alterar algo dentro do conselho de artes o que seria? Se é que precisa de uma alteração.

Simão: Eu não posso falar muito, pois há uns quatro anos não tenho acompanhado muito. Teve um ano que não fui ao Bumbódromo; teve outro que nem pela televisão eu assisti e em outro ano eu fui uma vez só. Então eu meio que me desliguei, mais, uma coisa que eu não ia aceitar era essa coisa que têm essas denuncias, se é que procedem. Essa coisa de esquema eu estou fora, essas coisas eu não aceito nem que seja para ganhar, então é uma coisa que não iria aceitar. Eu já iria ter um problema com as pessoas da diretoria que querem ganhar de qualquer jeito. Entendo que é importante à vitória para o boi, mas, tem que ganhar na legalidade: “Ah, mais o outro faz isso também se a gente não fizer!”. Eu não concordo com isso!

Sinny: Eu ouvi relatos de artistas que trabalharam com você e dizem que tinhas o boi totalmente na cabeça. Você não usava papel, se perguntasse: “Simão o que vai aparecer aqui? Aqui vem quem?” Tudo estava na sua cabeça, não tinha papel, por isso os segredos ficaram bem mais preservados, mais bem guardados e as surpresas eram maiores?

Simão: Isso é verdade! Porque no primeiro ano que eu fiz, era uma mudança radical no boi, o boi saiu de um esquema que era solto, ou seja, você podia entrar com a alegoria que quisesse para ficar uma coisa na sequencia. Então, a alegoria que era de um dia, não serviria para o outro porque não fazia parte da historia e essa disciplina obrigou logo a gente introduzir umas plaquinhas lá pra eu me comunicar com o Arlindo.  Às vezes quebrava uma roldana lá, que era a numero cinco e eu entrava com a placa número nove, um exemplo, ai eu apontava pra ele falar (eu estou contando isso agora, nos tínhamos que administrar as vaidades de arena, uma vez a marujada, eu tinha tudo cronometrado, eu sabia que uma volta, naquele tempo tinha a volta olímpica, a marujada ficava do lado da galera do Caprichoso, dava aquela volta, uma volta levava 10 minutos. Ela era uma senhora volta: lenta. Era uma exibição do ritmo, das pessoas, com muita justiça queriam aparecer para sua família, para sua torcida e numa dessa faltava quatro minutos, o boi tinha dado a volta e ai a linha de frente queria dar mais uma volta: iria estourar em seis. Eu me meti na frente: “Não vai!” e quase que eu levava uma baquetada do Plínio, que batia o surdão na frente, e seguraram-no. Outra vez foi com o Edwan [Oliveira], ele fazia aquelas tribos maravilhosas, sempre foi muito criativo. Além de criativo era muito dinâmico, ele era e ainda é espetacular na direção de arena. Ele tinha feito uma tribo linda e a tribo dele não concorria e o tempo estava esgotando: se a tribo dele se apresenta a gente perdia quatro pontos. Entra não entra, e eu era meio duro: “não pode entrar!” como é que eu iria explicar, depois que perdemos, porque uma tribo entrou? Ai depois ficamos amigos, quando ele foi ser diretor ajudei lá, me coloquei à disposição, mas, foi assim mudanças, barreiras que nós encontramos. Eu fui barrado pelo “Paquita”, que fazia tribo, ele não admitia que o Diretor de Artes fosse ver a tribo que ele estava fazendo porque era segredo. Foi preciso o Carmona, diretor administrativo à época, ir lá e explicar, então teve esses ajustes.

Sinny: Houve muito desentendimentos com artistas, itens? Como você administrava os egos na sua época de conselho? Como lidava com isso?

Simão: O Juarez Lima quase me deu porrada na arena, mas, isso é fato mesmo. Depois me contaram, nesse tempo eu estava na UEA e tinha um pessoal que era meu fã lá, e estavam tudo no Garantido e o Juarez para cima de mim e eles estavam de olho lá. Nós éramos amigos e continuamos amigos.

Sinny: O Ronaldo Barbosa era seu grande parceiro dentro do Boi? Fale um pouco dessa parceria.

Simão: O Ronaldo além de ser um músico excelente, criativo, ele tem uma cultura. Ele me ajudava demais no conceito de arte, ele tinha um conhecimento porque trabalhou na FUNAI, então ele conhecia muito da cultura indígena. Nesse tempo o índio era muito valorizado, ele juntava o talento com o conhecimento, nós fizemos Bicho-Homem, Catedral, Amazônia Ayakamaé, Ritual da Vida, Chamamento. Às vezes acontecia uma situação assim, ia fazer apresentação e faltava uma música e ai eu acabava fazendo a letra e procurava várias, para não ficar aquela coisa viciada, tanto uma maneira política de administrar isso, para não ficar o mesmo estilo. Nominação foi com o Alex [Pontes], o Mailson [Mendes] e com o Alceo [Anselmo], foi o canto da mata dividido em dois, um ficou com Nominação e outro ficou com Oração da Montanha, mas, com o Ronaldo foi uma parceria mais próxima, que eu já trocava algumas ideias com ele, desde Réquiem, eu dei algumas sugestões: o título da música “Réquiem”, ele adorou, aí eu disse: “A ideia foi da Graça [esposa de Simão], agradece para ela!” “Unankié”, “Pesadelo dos Navegantes”, aquele trecho lá dos joelhos, aquele verso lá, é quase todo meu, mas não tinha parceria. A nossa parceria começou com a “Catedral Verde”, foi um negócio totalmente místico: eu fiz aquela letra dormindo. Eu não gosto de contar: mandaram ela! Aqui [apontando para o grande jardim] dava muito aquelas pererequinhas, um dia eu acordei com aquela coisa gosmenta, fria e eu acordei. Dei um pulo, acendi a luz ai veio àquela coisa sabe, veio à música. Eu voltei a dormir, mais, aquela coisa não saia da minha cabeça, ai eu dormindo, meio em transe, anotei na costa do cheque. De manha, quando eu acordei com aquilo na minha cabeça e a música também, eu não sou músico e eu não conseguia ficar assim, e aquela coisa gostosa, eu chamo de sorriso interior. Aquela coisa gostosa, eu com medo de olhar lá para vê se não tinha sido só um sonho, mas, eu fui olhar e estava lá, saindo pedaço da letra tudo torto. Ai eu liguei pro Ronaldo.

Ronaldo aconteceu uma parada, ele só acordava 10h e nesse dia ás 6h ele já estava de pé, parece que estava esperando:  “O que está fazendo Ronaldo?”.  Ele disse: “Cara, não consegui dormir!”. Então pega teu violão e vem aqui rapidão que tenho um negócio para gente. Ai eu mostrei para ele na costa do cheque, ele disse: “Rapaz que coisa bonita. Bora fazer junto!”, Daí eu cantarolei aquele comecinho “onde estão os teus templários” em 10 minutos ele fez a música.

Sinny: Foi uma toada que não entrou no CD oficial, mas, que aconteceu tanto quanto como se tivesse entrado. Daí vem a força dessa toada. Eu lembro bem que vocês deixaram pra lançar um mês antes do festival.

Simão: O que fez também sair do boi e que eu pegava uma tosse que eu só ficava bom em setembro, uma intolerância aquela tinta, cheiro muito forte. O galpão era de terra, então isso fez também eu me afastar. Então, o Ronaldo veio e fizemos em 10 minutos. “Ronaldo vamos atrás de um gravador, mas, da minha cabeça isso aqui não sai mais” então foi assim, Amazônia Ayakamaé foi na mesma pegada, mas, foi construída: eu fiz a letra em cima da história do Rio Amazonas. Eu tinha um fascínio em saber como era a história do Rio Amazonas com o surgimento da Cordilheira dos Andes que levou milhões e milhões de anos, como é que os índios daquela região contavam? O negócio que eles viram falar que a cordilheira era para separar o sol da lua, que eram irmãos, e Tupã não queria esse amor proibido: fez o muro. Então fizemos logo essas duas de cara! O Arlindo fez uma produção espetacular: foi tudo novo.

Sinny: Como você vê a toada hoje?

Simão: Eu acho que as toadas estão muito repetitivas, eu sei que vou apanhar um pouco por causa disso. Mas, eu acho que elas estão sendo feitas para consumo rápido e também esquecer rápido. Você não sabe cantar a toada de dois anos, é uma coisa do mundo moderno, uma coisa de consumo mesmo, essas músicas que cantam ai, amor rima com flor, uma coisa fácil que agrada. Então eu acho que nossas musicas estão assim. E quando vão pesquisar mais [a fundo] caem no exagero do indígena, de palavras indígenas, fica tipo um dicionário, superpoluído, para dar um toque aqui e ali: eu vejo assim. Está muito parecido Caprichoso com Garantido por que foi compositor daqui pra lá, de lá pra cá, então isso foi misturando os estilos, mas, eu acho que tanto as músicas do Caprichoso quanto do Garantido estão precisando de uma coisa nova que não fosse de consumo.

Sinny: Em sua opinião, quem são os melhores compositores e o maior do festival?

Simão: Bem tem os clássicos, que acho que são os maiores Chico da Silva, Ronaldo Barbosa, Emerson Maia: eu acho que eles estão em um patamar. Ai depois vem outro grupo bom também: Tadeu Garcia, Paulinho Dú Sagrado Cesar Morais que é muito bom, às vezes o compositor entra em uma fase ruim, como jogadores de futebol, Mas, depois volta: não perde o talento.

Ai tem dos novos o Adriano Aguiar, o menino do Garantido: o Demetrios que é fantástico em temas Amazônicos.

Ainda nas músicas que eu participei, tem um fato curioso até para quebrar o sério da entrevista. A toada “Boi de Santo”, fiz sozinho, e como eu queria (e quero) fazer uma parceria com o Chico da Silva e mandei o CD para ele, para que a retocasse. Ele me liga e diz: “Simão, não tem o que mexer aqui. Está ótima, não posso aceitar a parceria”. Então falei: “Chico se ela passar te entrego o prêmio pela consulta, está bom?”. Ele, com aquele gingado responde: “Bem mano, aí eu topo!”. E assim, foi feito. (riso geral)

Sinny: Achas que o caprichoso deveria reconhecer seu trabalho, contribuição e criação nesta data tão importante que passou em branco na temporada.

Simão: Olha o boi hoje esta muito envolvido na política eleitoral, mas, muito mesmo! Vou citar o exemplo do Caprichoso que eu acompanho mais: hoje os três candidatos à presidência cada um é de um grupo político, então eu acho que aquele que ganhar já entra comprometido: já não vai ter liberdade. Isso é uma das coisas que eu não ia aceitar no boi, não ter liberdade de misturar as coisas, mas, assim de ter compromisso político partidário, nisso eu sou meio intransigente. Acho que não da certo, acho inclusive, que esse é um dos fatores que está prejudicando o boi. Muito o Garantido também: a mesma coisa, e acaba que não dá certo.

Sinny: De onde surgiram as ideias que permeiam a memória do torcedor?

Simão: Eu pesquiso muito, eu andava em Museus à procura de temas, histórias. A Fundação Joaquim Nabuco, uma fundação só de folclore, nos trocávamos figurinhas. Mandavam muitos livros, então isso facilitava muito, enriquecia a criação. Depois, em um momento, vinha um lance desses que você já conhecia, com muito cuidado para não dar fora. Eu tinha muito cuidado com esse lado da história: um espetáculo artístico, mas, também didático. A primeira fundação com missa foi inspirada na “fundação” do Brasil, ao lado da fantasia. Em 1995 fizemos a introdução do erudito na popular brincadeira de Boi. Tudo começou em 1995 quando concebemos o primeiro Teatro Amazonas e uma Chatinha (barco regional) era a História da Amazônia no festival. Bem, como os artistas de ponta estavam envolvidos com suas alegorias chamei um novato que estava meio perdido no galpão, mas, que logo percebi seu talento. Era nada mais, nada menos que o “Considerado” Júnior de Souza que estava no galpão ensinando nossos artistas a fazer pintura com pistola e compressor (a família dele trabalhava com pintura de carros). Juntos, com a mão na massa, fizemos a chatinha e o Teatro: deu certo! Pouco tempo depois, com o artista Ito [Teixeira], então o “cara” das tribos, fizemos uma grande cúpula do Teatro e dela surgiu a Mini Orquestra do Teatro Amazonas: estava feito o casamento do popular com o erudito.

Sinny: Nesses vinte anos você pode destacar uma satisfação e um arrependimento?

Simão: satisfação teve muitas a começar do lado pessoal que minhas filhas [Dunya e Camila foram Rainhas do Folclore] foram itens. O momento máximo foi quando a Camila surgiu na torre da Catedral como Santa [Nossa Senhora do Carmo], aquilo pra mim foi demais, eu chorei na arena, foi emocionante, foi o momento máximo; as “Sete Visões de Kaniuwá” foi fantástica; Amazônia Quaternária; Pesadelo dos Navegantes, aquela caravela estilizada, a marujada era a caravela. Eu acho que essas coisas estão faltando, hoje o boi está muito preocupado com mecanismos e falta o lado de alegorias humanas: isso toca! E na época, por sorte, eu fui o responsável ou irresponsável pela introdução do teclado, e quando ele entrou ele casou com as músicas.

O Arlindo era meio doido, o Gil, o Ronaldo e eu. Disse para o Arlindo: “Vamos pôr o som de umas formigas saindo no CD!’, Ronaldo pulou: “Mas, Simon colocar som de formiga não vai colar, nós vamos apanhar”. Eu disse: “Ronaldo eu já pesquisei isso com o papa do folclore Câmara Cascudo, eu vou lê para ti. Ele diz que qualquer coisa que passe a fazer parte da cultura daquele povo, aquilo é folclórico. Ele cita como exemplo, uma usina nuclear: se ela esta integrada na vida daquele povo, então, o teclado está na Zona Franca, então ele está integrado na vida do amazonense, do parintinense mais do que integrado. “Se a gente apanhar, pelos menos a gente tem o que dizer”. O Arlindo acionou o Alceo Anselmo, do Canto da Mata, para inserir o teclado na música do boi. Foi este baixinho quem tocou pela primeira vez na arena e apanhou comigo. Quando chegou “na” arena, na primeira noite metade gostou a outra metade não gostou: o Garantido bateu que só na gente. Na segunda noite já estavam todos gostando; na terceira noite o Garantido colocou também. Ai me perguntaram e eu disse isso: está integrado e aquelas músicas deram certo.

Sinny: Me fale um pouco do projeto “O Boi de Parintins”.

Eu morava em Manaus, na Djalma Batista em frente o Millenium. Quando nós construímos era capoeira. Um dia abriu e ali eu comecei levantar uma bandeira imensa e o boi não tinha muito conhecimento, o Gilberto Mestrinho era Governador e um dia ele me parou: “Assayag, Assayag”,ai eu fui lá na janela do carro dele, ele era ateu, e usou a expressão “pelo amor de Deus o que é essa bandeira?”. Eu disse: “isso é o Boi- Bumbá de Parintins! Essa é a bandeira do Caprichoso, tem o outro que é vermelho”. Rapaz, outro dia eu passei a maior vergonha, estava com o embaixador e ele me perguntou de onde essa bandeira, eu fiquei gaguejando e não sabia responder. “O senhor precisa conhecer”, falei para ele. Então, eu participo do Bar do Boi desde a Ica da Maceió, nos participávamos disso, nesse lado da criação. Encontrava muito apoio para dividir as responsabilidades comigo, se fosse o caso de apanhar: apanhávamos juntos. Incomodava-me muito que o Garantido tinha uns símbolos, eles faziam um marketing e eu ficava com raiva doida disso, eu sempre dizia e o povo: ninguém vai copiar e, eu dizia não é cópia.

Nesse ano abriu o concurso para tema, ai eu coloquei “Caprichoso, o Boi de Parintins” entrei concorrendo sem dizer que era eu meu nem nada, pois fazia frente com o “Boi do Povão”. Então qual era a minha ideia: o Garantido o boi do povão, mas, da cidade e o boi de Parintins era o Boi Caprichoso: era abrangente. Só precisava de uma marca, aí procurei o Juarez [Lima] que me ajudou, e indicou o Luciano, que era irmão dele, então ele criou a estrela com o boi estilizado, da estrela em boi. Os bois do Nordeste quase todos tem estrela, porque os bois de verdade quando nasce ele tem uma marca que se assemelha muito a uma estrela: eu sou criador de gado!

Fui com o Juarez, que era meu parceiro de maluquice, e disse: “Esse boi está com a cara muito lisa” e nesse tempo o Silvio Santos tinha um programa o Qual é a Música, que tinha um casal: ol Pablo e não lembro o nome da mulher. Ele tinha uma tatuagem de estrela e inspirado nisso eu disse para o Juarez: “pinta um boi na parede do curral um boi com a estrela, para eu ver a reação nesse ensaio”. Ele pintou o boi de perfil, que a inspiração era o Pablo, ai eu fui para o curral e fiquei só ouvindo o povo frescando: “Esse fresco pintou essa estrela no boi, parece o Pablo, o nosso boi é macho!”, o Caprichoso tinha essas coisas de ser um boi machão, o Garantido era um boi mais de “brincadeira”. Tem algumas coisas que eu não gosto, pra mim o boi é brincadeira e ficou muito profissional.

Ouvia o povo dizer: Essa estrela ai se fosse ao menos no ferro do boi, mas, na cara do boi. Ai eu percebi que a reação não era pela marca, era pelo local. No outro sábado: “Juarez vamos botar esse boi de frente e com a estrela na testa” o Juarez:  “P… Simão tua não achas que a gente já apanhou muito?” e eu disse: “Não sabem que foi a gente!”. Colocamos o boi de frente, ai a reação foi outra, realmente.

Quase todos os bois do nordeste tinham estrela. Uma época tinha um diamante que a gente tinha meio que vergonha, porque a gente era o boi da elite e o Garantido explorava muito isso, era o boi da elite, eles eram o boi pobre e isso sensibilizava, ainda sensibiliza os jurados, então a gente não usava o diamante. Não tinha na testa, mas, era o símbolo do boi. Mas a gente tinha vergonha da nossa marca e depois com a estrela não: todo mundo gostava, achava bonito, uma coisa que todo mundo gostou e gosta até hoje.

Pois é, eu vivi intensamente no boi, sou engenheiro de formação, coincidentemente eu fui ser fiscal da construção do Bumbódromo, da minha amizade com Amazonino: “Caboclo tu quer me ajudar lá, ser o fiscal?” respondi: “Vumbora!”. Só que o Zé Walmir não deixava entrar lá pra vê a obra: “Ei, tu está misturando as coisas não? Tu és de lá [Francesa e do Palmares]”? Aí puseram outro só para lá [Baixa do São José], o nosso projeto era igual ao do Garantido, ai eu disse não vamos fazer o seguinte: “Com o mesmo dinheiro vamos dividir e vamos criar uma sede”, pensei que se fizermos um curral muito grande quase todo tempo vai ele vai ficar vazio e fica muito feio. Curral é igual comício: o bom é aquele que fica gente reclamando que foi empurrado, que não tinha lugar para por o pé. Show o bom é esse! Daí fizemos, então o Zé Walmir foi se queixar para lá que não fizeram a sede (não quiseram…risos), o Miguel Biango que era o chefe. Fizemos o banheiro lá em cima [na área dos camarotes], o fiscal de lá [Garantido] era o meu sobrinho o Fernando Elias, vamos fazer um banheiro lá, pra ficar mais cômodo para as pessoas.

Sinny: Ano passado o senhor fez uma postagem no seu face que foi até polemica, dizendo que tinha vergonha do resultado do festival, o senhor ainda sente essa vergonha?

Simão: Eu fiquei com vergonha com a maneira que se conseguiu isso. Eu entendi que se o Caprichoso mereceu ganhar, isso poluiu a vitória e ganhar assim pra mim não tem graça. Eu em muitos aspectos sempre muito diferentes, o boi às vezes se apresentava sempre certinho, e a gente se reunia para tomar uma cerveja e eu dizia: “faltou sal, faltou pimenta, foi muito monótono”. Para mim parecia que quando as coisas não iam dá certo isso mexia mais com o boi, mais com a galera. No meu amadorismo tinha que ter certo improviso para poder dar aquele sabor, aquela apimentada, o nosso pensamento era muito eclético, todo mundo argumentava, eu aprendi que às vezes eu tinha uma ideia, para mim era a melhor eu a levava e não era assim. Eu quero o boi, está faltando amor! As pessoas estão muito materialistas, eu gastava para estar no boi, uma vez o Joilto [Azêdo] mandou consertar uma Pick Up que eu usava para o boi. Outra vez o Dodozinho [Carvalho] foi pagar o Gil [Gonçalves] na minha frente e ficou meio que com vergonha, deu R$ 5 mil para o Gil aí ai ele me deu o mesmo valor. Foi o que eu recebi do boi. Eu não tinha contrato e nem nunca fiz questão, então eu acho que isso que falta: mais amor!

Sinny: Como o senhor analisa o momento atual do Festival?

Simão: É uma crise ética! Claro, no meu entender foi uma “puta” sacanagem do governador, principalmente porque foi em cima da hora. Se há um ano ele dissesse: “Olha o negócio está russo, não vai ter dinheiro” ainda continuava sendo uma sacanagem. Mais ainda seria bem menor, porque os bois iriam se programar para fazer seus projetos, previsão de gastos, agora os bois também estão com falta de credibilidade. Entendo que o boi quer ganhar, o artista quer se superar, o artista muitas vezes, não é sempre e também não são todos, mas, ele está muito preocupado com o trabalho dele e coloca isso na frente do boi e eu batia muito nisso. Olha o boi está em primeiro lugar, é difícil porque o patrimônio do artista é esse. Naquela época, as fontes de renda dos bois era o Governo do Estado e o Bar do Boi entrava com o dobro, o MAG do Garantido ainda não tinha pegado corpo. Mas, eles sabiam explorar isso. E o boi vinha bonito, com mais emoção, mais vontade e mais garra. O boi ficou muito caro, eu acho que os bois tem uma participação nisso, agora é briga na justiça, justiça do trabalho, enche [o boi] de funcionários que são seus eleitores, pega um funcionário, dois de família grande que é pra votar, ai depois leva na justiça do trabalho, mas, não justifica a sacanagem do governador.

Sinny: Houve um ano que o senhor fez um artigo para o jornal A Crítica contestando a nota dos jurados?

Simão: Era “Chega o título”. Teve a história da barra do amo do boi que o jurado disse que estava três centímetros abaixo, do tradicional, ele enxergou isso, mas, não enxergou a galera pegando fogo, o garantido ganhou em organização: Os Bombeiros entrando! Já se suspeitava da manipulação do festival e naquele tempo vinham mais barcos aqui pra casa, vinha gente do Garantido, e eles comentavam: “Esse ano é pra nós!” E o Garantido ganhava com a diferença “monstra”.

Sinny: Hoje haveria chances de o Simão Assayag retornar ao conselho de artes?

Simão: Não, eu acho que já passou do meu tempo, tem que surgir cabeças novas, tem que aparecer alguém e uma diretoria que seja receptiva a isso, pra correr o risco de ousar, eu acho que a hora que os pensadores do boi, artistas do boi se sentirem seguros e respaldados pela diretoria, vai abrir a cabeça, vão ousar, eu acho que a gente tem que  saber a hora de parar nas coisas, por razões até mesmo de resistência física, negocio de galpão. Eu me dedicava, largava minha família aqui, eu vivia para o boi, depois que eu parei fiquei mais próximo, eu faço músicas, mas nem estou concorrendo.

Eu já faço música por diletantismo, procuro mudar de parceiro. Eu não iria pôr a música/toada Acalanto, a Criação da Amazônia, é um gênese, eu fiz com o Cesar Morais. Eu não iria pôr, mas, aí o Mauro [Antony]: “Não Simão, põe, é linda!” e eu coloquei, quase não passa, passou puxada. Bombou na arena, na mídia, mas, é isso a mudança. Penso que se o Caprichoso parte para uma história de representar a criação, a origem da Amazônia, procriação: um deus lá na forma indígena criando, eu acho que era uma forma diferente.

Este ano eu procurei o Sidney Rezende, eu não o conhecia, eu sabia que ele tinha o Vermelho e Branco [antigo grupo musical do Garantido] e era um ganhador do Fecani. Inclusive, as maiores notas que já houve no fecani foi de uma musica dele, ai eu conversei com o Neil [Armstrong] que é meu parceirão, disse:  “Neil eu estou atrás de um parceiro para musicar, mas, eu não queria esses que estão muito na mídia, alguém novo ou que está meio esquecido”. Eu procurei uns novos, uns três mais não toparam. Sou muito aberto, aprendi que se tinha uma ideia melhor que a minha, eu fechava com grupo porque eu sabia que aquela ideia iria crescer, que todo mundo iria se envolver com ela e se eu, burramente, insistisse na minha eles iriam trabalhar. Mas, não teriam aquela alma. Trabalhariam mecanicamente, então aquela que para mim poderia não ser a melhor, ela iria crescer. Aprendi muito cedo isso, abrir mão na hora: isso era o espírito do grupo, ninguém tinha essa vaidade. Se ganhar fui eu, se perdeu fui eu. Eu tinha muito isso e ninguém tinha medo em dar palpite, de expor ideia: podia ser aceita ou não.

Sinny: Você me falou de um momento marcante que foi a aparição da sua filha de nossa senhora. Ao longo de todos os anos que dirigiu a parte artística do Caprichoso houve outro momento tão marcante quanto?

Simão: Bem e se tiver é do caprichoso mesmo por que eu não assistia o Garantido. É um erro meu, eu tinha que conhecer as coisas boas que eles fizeram e procurar melhorar, mas, não ficar em cima disso porque o caprichoso já andou meio assim querendo só melhorar as coisas que já foram feitas. Mas, outro momento marcante, muitos momentos, mas, assim que me diferenciou só me lembro desse.  Talvez, a dança das fibras de arumã quando começou a rodar aquelas luvas porque não estava programado. Elas entrariam [paradas] aí Juarez põe para rodar: sem ensaio!

Sinny: O que achas da área artística do Boi nos dias atuais?

Simão: Hoje os itens são remunerados o que acho muito justo: São atores. Mas, ficou muito preso a isso e ninguém quer largar. As minhas duas filhas, elas pediram pra sair. A Daniela [Assayag], minha sobrinha, também, pediu para sair. Hoje, para mexer com item a vaidade não deixa, não há quem pense mais no boi.

Como eu trabalhei muito tempo como administrador, fui secretario de obras da prefeitura de Manaus e do Estado do Amazonas, então nos vivíamos muito isso. Terminava o mandato [prefeito/governador] todo mundo entregava seu cargo e o sucessor, se quisesse ficar com algum, ele ficava. Mas, o administrador ficava a vontade, então devia ser: mudou a diretoria, abrisse mão.

Sinny: Gostaria que você se alto definisse, Simão Assayag por Simão Assayag.

Simão: Eu sou uma pessoa que procuro ser simples, hábitos simples. Minha vida é aqui com minha família e me dou muito bem com isso, acho que a simplicidade da gente é uma coisa muito forte da gente.  Esse cenário aqui ajuda muito a inspiração, o contato com a natureza, com os pássaros, eu caminho aqui e vou conversando com os passarinhos. A Graça que reclama: “Assim não vale, para demais!”. Sou um homem simples de hábitos simples.

Sinny: Das opiniões que colhi a seu respeito com personalidades dos bois, dois termos estiveram presentes em todos eles: gênio e mestres. Esses adjetivos lhe deixam envaidecido ou não lhe agradam?

Simão: Eu acho que é muita generosidade deles. O adjetivo mestre eu aceito melhor, porque eu procurava passar aquilo que eu sabia. Dei aula na UFAM por seis anos e procurava passar tudo que eu sabia, tem aqueles caras que escondem: Eu não. Nesse sentido, mestre eu aceito bem, acho que cabe bem. Tenho paciência de explicar, eu converso com pedreiro, se tu fizer assim fica melhor e aceito a opinião deles também, por que eles sabem muita coisa que eu não sei.  Então, eu tenho essa paciência, a única coisa que eu não faço é emprestar livro, mas, eu tiro copia e dou. Quando é muito grosso, traz uma máquina fotográfica e fotografa página por página. Não deu certo emprestar e eu também já andei roubando livro, eu roubei o livro da Diocese, mas, eu confessei depois (risos). Eu roubei da biblioteca do Dom Arcangelo, meu amigo, meu padrinho, depois eu contei para um padre e ele disse fizestes bem que acabaram com a biblioteca do Dom Arcângelo. Eu falei para ele que eu queria devolver, era um livro do Artur Cesar Ferreira Reis, era a “Cobiça Amazônica” eu era doido para ter esse livro, aí não resisti.

A entrevista é encerrada com o chamado de D. Graça para sentarmos à mesa, pois a merenda estava servida. Entre filhos, netos e parentes, o cardápio: Café com leite, suco de frutas regionais, tapioca, tucumã fresquinho, banana da terra frita, pão de queijo, pé de moleque, bolo podre e frios. No jardim, o barulho da molecada correndo de um ponto a outro. É Dunya que chega, é Camila que sai.

Da varanda gourmet ao seu canto sagrado, na sala aconchegante, a sua fonte de saber e lazer: uma pequena biblioteca a qual me apresenta orgulhoso de suas “crianças”. Nos móveis, uma curiosidade me chama a atenção: papéis determinando o lugar dos objetos e informando o repouso de cada um [curumim e cunhatã] no ambiente. O método “Dunya” de educar e organizar a casa: a disciplina vem de berço e a arte de comandar, também.

No olhar acolhedor e terno de D. Graça, no sorriso reluzente de Dunya, na timidez encantadora de Camila, na energia de Vitor, na hospitalidade e sabedoria de Simão uma certeza: pessoas simples, de hábitos simples, porém, felizes! Não mais felizes do que o cretino colunista, que já pode morrer em paz por ter realizado um sonho de curumim: conversar com o seu grande ídolo e responsável pela sua paixão: O Boi Caprichoso de estrela na testa, o Boi de Parintins!

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