Sistema Solar está a passar por nuvem interestelar local

Fig01: Sonda Espacial Ulisses.

Desde o século XX, os astrónomos estavam a insistir na idéia de que deveria existir uma poeira interestelar imediatamente fora do Sistema Solar. Parece algo trivial, porém, até o século XVIII, acreditava-se que fora do Sistema Solar teria um grande e absoluto vácuo (ausência de matéria, na linguagem daquela época.). Com o nascer do século XIX, muitos astrónomos começaram a abordar essa questão por outro ponto de vista. Após várias conferências, finalmente os astrónomos construíram um projecto para averiguar a existência ou não de um “sector” de poeira interestelar. Essa idéia ganhou força no século XX, e após muito trabalho, no final daquele século que foi lançada a sonda espacial Ulisses. Em uma parceria entre NASA e ESA, Ulisses fez a primeira descoberta de poeira interestelar.

Os resultados obtidos por Ulisses animaram a dupla (NASA/ESA) a lançarem outra sonda espacial, a Galileu, que também confirmou a descoberta de Ulisses.

Fig02: Sonda Espacial Galileu.
Fig02: Sonda Espacial Galileu.

Mesmo com o sucesso de duas missões anteriores, os astrónomos não se viram satisfeitos. E então a sonda Cassini foi lançada no final de 1997.

Fig03: Sonda Espacial Cassini.
Fig03: Sonda Espacial Cassini.

Ao longo destes anos que a Cassini está na activa, mais de uma década somente a voar a circunvizinhança de Saturno. Mais precisamente, foram       12 anos a estudar o gigante gasoso, seus anéis e satélites. Cassini tem sido uma missão muito bem sucedida.  Encontrou, também, milhões de grãos de poeira ricos em gelo, facto que foi possível graças ao instrumento CDA (Cosmic Dust Analyser). Estes milhões de grãos de poeira são de locais diferentes, porém, a grande maioria está em Encelado e o restante está a constituir um dos anéis exteriores do gigante gasoso.

Neste espaço amostral da ordem de milhões, apenas algo da ordem de dezenas (no caso, 36 para sermos mais exactos) chamaram a atenção dos astrónomos, que após uma análise detalhada, concluíram que tais grãos de poeira são na realidade provenientes de fora do nosso Sistema Solar. A Cassini, portanto, realizou a deteção a assinatura de poeira originária de fora do nosso Sistema Solar.

Alto lá! Vamos a entender toda esta história! Primeiro, foi falado que estávamos cercados pelo vácuo, se no mesmo inexiste matéria, então como poderíamos encontrar poeira oriunda de fora de nosso Sistema Solar? Segunda questão: Qual a garantia que nós temos que tal poeira é realmente de fora de nosso Sistema Solar? Terceiro: De uma amostra da ordem de milhões somente uma pouca dezena poderia ser capaz de dar-nos uma pista da vizinhança do Sistema Solar?

Vamos, portanto, tentar responder às indagações acima. E para iniciar temos que ter em mente que a poeira, em questão, foi rastreada até à nuvem interestelar local. Grosso modo, denominamos “nuvem interestelar local” a uma bolha de gás e poeira pela qual o Sistema Solar está a viajar com velocidades e direcções diferentes.

Fig04: Nuvem Interestelar Local.
Fig04: Nuvem Interestelar Local.

Dados actuais afirmam que o Sistema Solar irá ficar dentro desta nuvem por mais uns 10 a 20 mil anos. Assim, como nossa vizinhança não é totalmente desprovida de matéria, logo, o Sistema Solar captura alguns desses grãos por ano. Outro detalhe é que tais grãos, além de serem minúsculos, apresentam uma velocidade muito alta, em torno dos 72 mil km/h. Eles são rápidos o suficiente para não serem aprisionados dentro do Sistema Solar pela gravidade de Saturno e/ou do Sol.

Cassini inovou ao fazer a análise da composição da poeira (facto que Ulisses e Galileu não conseguiram fazer.). Essa análise mostrou que a poeira é constituída por uma mistura muito específica de minerais.

Todas as 36 amostras apresentaram muitas semelhanças em suas composições químicas.  Basicamente, magnésio, silício, ferro e cálcio estavam em proporções cósmicas médias. E comparado com a média, enxofre e carbono foram registados como menos abundantes, sendo classificados como abaixo da média.

Vale sublinhar que a poeira cósmica surge quando as estrelas morrem. A seguir este caminho, como há bilhões de estrelas, então, os astrónomos esperavam uma maior variedade de tipos de poiera durante ao longo desses  12 anos. Entretanto, notou-se que os grãos de poeira encontrados foram produzidos de forma bastante uniforme, o que sugere um processo repetitivo de formação de poeira no meio interestelar.

Fig05: Nossa localização na Via Láctea e na nuvem interestelar local.
Fig05: Nossa localização na Via Láctea e na nuvem interestelar local.

Actualmente, os astrónomos se questionam sobre a possibilidade da poeira, em uma região de formação estelar, ser destruída e recondensar-se inúmeras vezes à medida que passam por ela as ondas de choque produzidas pelas estrelas moribundas.

Dr. Nélio Sasaki – Doutor em Astrofísica, Líder do NEPA, Membro da AIU, Membro da ST/Brasil, Membro do PLOAD/Brasil, Membro da SAB, Membro da ABP, Membro da SBPC, Membro da SBF, Revisor da Revista Areté, Revisor da Revista Eletrônica IODA, Revisor ad hoc do PCE/FAPEAM, Coordenador do Planetário Digital de Parintins, Coordenador do Planetário Digital de Manaus, Professor Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

 

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