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Solo Marciano – Parte 01

Fig01: Mapa topográfico da superfície marciana. À direita, a depressão na região Galaxias Fossae. À esquerda, a depressão na região Hellas.

Astrobiólogos vivem a expectativa de encontrar informações preciosas em Marte desde a partida da sonda MRO (Mars Reconnaissance Orbiter).  Recentemente, uma equipa de investigadores afirmou que os estudos sobre a superfície do planeta vermelho trouxe-lhes um grande ponto de interrogação, afinal, Marte apresenta depressões incomuns. Acredita-se que estas sejam locais ideais para se começar a busca por sinais de vida.

Na figura 01, estão representados os mapas topográficos de duas depressões, a saber: uma na região Hellas (à esquerda) e outra na região Galaxias Fossae (à direita).

Fig02: Gráfico da profundidade da depressão x distância.
Fig02: Gráfico da profundidade da depressão x distância.

Na figura 02, temos os gráficos da profundidade versus distância para as duas depressões mostradas na figura 01.  Respectivamente, à esquerda é o gráfico para a depressão na região Hellas, ao passo que, à direita temos o correspondente para a depressão na região Galaxy Fossae.

A tese vigente é que tais depressões tenham sido formadas devido ao vulcanismo, ou seja, um vulcão por baixo de um glaciar tenha produzido tais depressões. A se confirmar esta tese, pode ser que – no passado – Marte tivesse ambiente quente e rico em produtos químicos, os quais provavelmente eram favoráveis para o surgimento de vida microbiana.

A equipa se embasou em três factores: água, calor e nutrientes para chegar à conclusão que a busca por vida tenha que começar pelas depressões marcianas. Vale sublinhar que os elementos listados são essenciais para o processo de habitabilidade planetária. E essas depressões se encaixam perfeitamente nessa descrição.

Fig03: Depressão dentro da cratera na orla da Bacia Hellas.
Fig03: Depressão dentro da cratera na orla da Bacia Hellas.

A figura 03 mostra em detalhes a depressão localizada dentro de uma cratera na orla da Bacia Hellas. Se for confirmada a tese inicial, então, provavelmente tal depressão seja consequência da acção vulcânica por baixo de uma camada de gelo.  Este cenário é propício para o surgimento da vida microbiana, haja vista que esta região é ladeada por antigos depósitos glaciais. Mais ainda, nas imagens captadas pela MRO, saltam-nos aos olhos estruturas que lembram fissuras (algo similar às caldeiras de gelo cá na Terra) que são facilmente encontradas na superfície gélida da Islândia e Gronelândia – e nestes dois casos em particular, as fissuras são justamente por actividades vulcânicas abaixo da camada de gelo.

Fig04: Depressão na região de Galaxias Fossae.
Fig04: Depressão na região de Galaxias Fossae.

Na figura 04 temos outra depressão marciana, embora seja muito parecida com aquela da região da Bacia Hellas, essa tem um histórico diferente. Trata-se da região Galaxias Fossae, este nome não é à toa, afinal, as evidências indicam que tal depressão se formou devido ao impacto de um asteróide.

Tanto Hellas quanto Galaxias Fossae apresentam fraturas concêntricas que lembram e muito a um alvo. Essa característica se repete também nos padrões dos materiais terrestres.

O caminho para dar sequência às investigações foi analisar a quantidade de material perdida necessária para se formar as depressões. Em seguida, fazem-se dois testes: um com vulcanismo e outro com impacto.  Esse estudo mostrou que as duas depressões apresentam uma forma tipo-funil, com um perímetro amplo que paulatinamente está a se estreitar à medida que aumenta a profundidade.

Se tudo começou com acção vulcânica, então, acredita-se que tenha havido um aquecimento intenso no centro destas regiões, consequentemente  o gelo  foi removido  e  os materiais   existentes  na redondeza   ficaram livres para se moverem.

Por outro lado, se tudo iniciou com um impacto, o mais provável  é que tenha surgido  uma pequena cratera que  através da sublimação do gelo  foi crescendo  até atingir o tamanho actual. Particularmente, essa hipótese é muito interessante.  Mas, ela não explica o surgimento de mais de uma cratera e/ou a existência de crateras em locais distintos.

Fig05: Caldeiras de gelo, na Islândia.

A figura 05 mostra erupções vulcânicas por baixo do gelo, facto que pode dar origem à formação de “caldeiras de gelo”, como essa situada na região Vatnajökull, na Islândia. Acredita-se que a depressão marciana na região Galaxias Fossae também seja uma caldeira de gelo.

Após várias análises, a equipa de astrónomos chegou à conclusão que ambas as hipóteses são igualmente prováveis e, portanto,  nenhuma delas poderá ser descartada. Assim, embora os detritos espalhados nos arredores da depressão de Galaxias Fossae  tenha dado pistas  que trata-se de uma depressão originada por  um impacto, não há como  rejeitar o histórico da superfície marciana. Neste caso, temos que levar em consideração, também, possíveis contribuições devido às acções vulcânicas.  Em princípio, este caminho explica as duas depressões. Claro, com maior ou menor contribuição de um processo ou doutro.  Mas, na região da Bacia de Hellas inexistem sinais de impacto, há sim a presença de um padrão de fraturas, o qual está atrelado à remoção concentrada de gelo por fusão ou sublimação.

As pesquisas estão a avançar. Espera-se encontrar sinais de interacção de lava e gelo, na região de Hellas, e se isso acontecer, esse facto abriria caminho para um ambiente contendo água líquida e nutrientes químicos. Ambos indispensáveis para o surgimento da vida. E então, teríamos que quantificar o teor de água e de nutrientes. Por ora, as possibilidades de vida (microbiana) em Marte são significativas.

Dr. Nélio Sasaki – Doutor em Astrofísica, Líder do NEPA/UEA/CNPq, Membro da SAB, Membro da ABP, Membro da SBPC, Membro da SBF, membro da UAI, membro da PLOAD/Brasil e ST/Brasil, Revisor da Revista Areté, Revisor da Revista Eletrônica IODA, Revisor ad hoc do PCE/FAPEAM, Director do Planetário Digital de Parintins-NEPA/UEA/CNPq, Director do Planetário Digital de     Manaus-NEPA/UEA/CNPq, Professor Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

 

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