Trio parintinense é história de superação no carnaval de São Paulo

Redação Liga SP

Foto: Divulgação Liga SP

Criativos, perseverantes, premiados e acima de tudo, apaixonados pelo carnaval brasileiro. Talvez essas sejam apenas algumas definições para o casal Neide Lopes e Carlinhos Lopes, e o artista Márcio Gonçalves. O trio, que declara ter muito do seu trabalho desenvolvido na prática, se identificou com a arte desde muito cedo, na sua cidade de origem, Parintins. Ao lado de Paulo Brasil, Neide, Carlos e Márcio desenvolvem o enredo da Mocidade Alegre de 2019, “Ayakamaé: As águas sagradas do Sol e da Lua”.

Em visita ao barracão da Morada do Samba, a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo teve a oportunidade de conhecer mais a fundo a trajetória profissional de Neide, Carlos e Márcio, além de revelações pessoais que estarão para sempre marcadas na vida desses operários da arte.

Quem pensa que a história de Neide e Carlinhos Lopes é diferente de tantas outras, se engana. O casal também chegou por intermédio de um amigo à São Paulo, mais especificamente na Nenê de Vila Matilde. “Primeiro eu vim sozinho, em 1999, e foram poucos meses de trabalho na escola da zona leste. As coisas por lá começaram a se complicar quando o assunto era dinheiro. Por isso, eu acabei migrando para a Casa Verde, vim para a Império, e minha identificação com o Seu Chico da Ronda foi imediata”, relembra Carlos Lopes.

Um ano depois da vinda do marido, Neide, resolve apostar também no sonho e embarcar para a capital paulista, junto com os três filhos do casal. “Primeiramente eu vim a passeio, mas com a possibilidade de fazer duas escolas, Império de Casa Verde, que estava no acesso, e Acadêmicos do Tucuruvi, que estava no grupo especial, acabei ficando. Mas em 2002/2003, fomos obrigados a escolher entre as duas escolas, visto que ambas estavam no especial e não era possível exercer a função nas duas agremiações. Optamos pela Império, na época o Seu Chico queria transformar a escola em grande, nos ofereceu alojamento, a possibilidade de trazer a família, enfim, uma estrutura mais organizada e digna. Mesmo com o falecimento do Seu Chico da Ronda, continuamos na Império até 2007, sempre em Comissão de Carnaval”, resume Neide Lopes.

Com a perspectiva de desenvolver um enredo que falasse de sua terra natal, Carlos e Neide decidem aceitar o desafio de arrumar as malas e mudar-se para o Rio de Janeiro, mas a atual Carnavalesca da Mocidade Alegre confessa que nada foi fácil. “Fomos para a Acadêmicos do Grande Rio, com o Roberto Szaniecki, o enredo era “Do verde de Coari, vem meu gás, Sapucaí”, o projeto deu certo e permanecemos, aliás, foram quase 10 anos de trabalho em terras cariocas, fizemos várias escolas, fomos campeões pelo Salgueiro e vice em outras escolas, mas sinceramente, só nós sabemos os perrengues que passamos, eu principalmente. Mulher, liderando um barracão, local dominado por homens… enfim. Quando cheguei na Acadêmicos do Tucuruvi, aqui em São Paulo, por exemplo, eu trouxe meus três filhos. Na época, o menor tinha três anos. Imagine como era a minha rotina”, enfatiza Neide.

Financiando em 10 meses a sua passagem para São Paulo, em 2004, Márcio Gonçalves resolve deixar a família, sua namorada e assim como tantos outros tentar a sorte e investir em seu sonho na terra da Garoa. Tendo como principal desafio a saudade de casa e as dívidas que gritavam a cada segundo em seu ouvido, ele persistiu. “Um amigo me deu moradia e comida e eu de porta em porta fui tentar a sorte nos barracões, foi quando surgiu a oportunidade de confeccionar a roupa da Rainha de Bateria da X9 Paulistana, na época filha do Mestre Tornado. Só que não tinha nada, me deram uma caixa cheia de resto de tecidos, galão e penas, e eu acabei transformando lixo em luxo. Juro, foi um sucesso estrondoso, me rendeu a confiança da escola e tive a chance de conquistar outros projetos. No mesmo ano, fiz comissão de frente e ala das passistas, enfim, ganhei outras atividades dentro da escola. No ano seguinte, eu tive a oportunidade de trabalhar com o Zilkson Reis (artista parintinense que já foi carnavalesco em São Paulo), já aqui na Mocidade Alegre”, recorda Márcio Gonçalves.

Quando questionado sobre o início de sua carreira, Carlos relembra o seu primeiro sonho, integrar o Festival Folclórico de Parintins pelo Boi Caprichoso. “Eu era fanático pelo Caprichoso, e no período que abriram as inscrições para novos artistas, eu tentei apresentar uma maquete, porém, o vice-presidente na época não aceitou nem ver o meu projeto. Mas por coincidência, eu cruzei no caminho de volta pra casa com o presidente do Boi Garantido, Jair Mendes, não pensei duas vezes, em mostrar o projeto pra ele, o não eu já tenho, e não e que deu certo? Eu tive que reestruturar as cores da maquete, afinal, uma tem as cores vermelhas e outra azuis. Ele usou um termo que eu me lembro até hoje “vai ser o bicho da goiaba”, ou seja, “espetacular”. Está contratado”, relembra Carlos.

Muito ligado a família, Márcio sente a ausência dos filhos até hoje, sim, sua, agora esposa e os dois filhos, moram em Parintins. “Eu faço uma escala todos os anos, a maior parte do tempo eu fico aqui, entre julho e fevereiro/março minha vida está em São Paulo, o restou eu fico lá em Parintins, em média oito meses aqui e quatro lá. Minha esposa é maravilhosa, uma mulher honesta, que compreende o meu sonho, aceita e me apoia. O vazio as vezes é tão grande que eu saí de casa, minha filha não tinha nem nascido, voltei no nascimento, quando eu retornei pela segunda vez ela já falava mamãe, mas papai… não, e a história se repetiu com o meu filho caçula, a ausência é muito grande, hoje ela tem 14 e ele 10 anos”, se emociona Márcio.

Ex-jogador de futebol e artista plástico, Carlos se apaixonou pela artesã e contadora, Neide. Ainda jovens, eles resolveram se casar, e acredite, esse encontro não aconteceu no carnaval. “Nossa história é intensa, como eu era menor, tinha 15 anos, nem o juiz nem o padre queriam nos casar, só casava se morássemos em casas separadas, por isso esperamos eu completar 16 anos (risos). No ano que eu engravidei, ele entrou para o Festival de Paritins, 1993. Imagine o turbilhão de sentimentos, ele tinha 23 anos na época. Hoje, relembrando, eu penso nas tantas aventuras, minha filha mais velha está com 25 anos e vai me dar um neto, mas tenho outros dois filhos, uma de 22 e outro de 20 anos”, complementa Neide.

Pensando seriamente em trazer sua família em definitivo para São Paulo, Marcio Gonçalves é preciso ao dizer que a saudade dos filhos maltrata demais. “Minha esposa tem a vida dela em Parintins, além de ter um pequeno comércio que vende bolsas, bijuterias, enfim, atender os turistas da região. Ela é secretária do presidente do Boi Caprichoso. Mas hoje vivo muito cansado dessa rotina vai e volta, quero resolver a nossa vida de verdade, trazer todos para morar perto de mim aqui em São Paulo e tenho convicção que será muito melhor, até porque aqui teremos todos muito mais oportunidades”, comemora Márcio.

Na contramão do pensamento de Márcio, Carlinhos Lopes já pensa em voltar para Parintins. “Estou vivendo de arte há 27 anos, não me arrependo de nada, mas queria ter um pouco mais de paz e tranquilidade, sair desse fervo, e acho que para isso preciso criar um pouco mais de coragem para voltar para onde tudo começou. Os filhos estão criados, minha filha mais velha é fotografa, a minha filha do meio está finalizando a faculdade de designer gráfico, e o meu caçula partiu mais para a área financeira. Que fique claro que tudo que vivemos valeu a pena, até porque abrimos as portas para muita gente de Parintins. Hoje, as escolas não vivem sem a nossa mão de obra”, descreve Carlos.

Quando questionados sobre admiração e respeito, Neide e Carlos são claros: “Seu Chico da Ronda foi uma das pessoas que mais cuidou da gente. Lembro de uma passagem que a Neide queria cozinhar uma costela e ele disse que não, que não iriamos comer algo diferenciado dos demais, ele sempre servir o melhor, sempre contra filet, o alojamento limpinho e organizado, se preocupava se estávamos com frio, com calor, bem alimentados, enfim, um segundo pai, ele foi nossa família aqui quando chegamos ”, recorda o casal.

Como um bom filho a casa torna, após três anos longe, Márcio Gonçalves retornou a Morada do Samba. O carnavalesco fez parte da comissão da Mocidade Alegre de 2009 a 2015 e participou das conquistas de quatro títulos (2009, 2012, 2013 e 2014). No Carnaval 2018, ele trabalhou na Dragões da Real e agora está de volta. “Eu não me arrependo de nada, se tivesse que sair de Parintins hoje e fazer tudo de novo, eu faria, valeu todo sofrimento, ou melhor, está valendo”, argumenta.

Neide e Carlos são bicampeões na Império de Casa Verde (2005 e 2006) e Acadêmicos do Salgueiro (2009), ao lado do carnavalesco Renato Lage. “Cada ano é um aprendizado, uma lição, como em 2018, a escola foi campeã. Só perdemos por conta do quesito desempate. A escola passou muito bonita, fizemos realmente um Carnaval magnífico e único, como tem que ser”, sinaliza.

Dividindo as funções e com a mesma identidade cultural, a Comissão de Carnaval da Mocidade Alegre chega cheia de gás para o desfile que se aproxima. “Aqui até o Paulo Brasil é neto de índio. Todos dominam um segmento dentro do Carnaval, o Carlos com a parte de desenho e a parte técnica das esculturas, o Márcio com as fantasias, alegorias e as técnicas dele, e eu nas questões de artesanato e projeção de carros, além da confecção da pasta. Já o Paulo vem com o conhecimento da moda. Juntamos tudo e o resultado será incrível, pode esperar”, promete Neide.

E quando o assunto é definir o enredo, todos demonstram muita empolgação e envolvimento. “Nosso projeto é uma grande viagem sobre as águas do Rio Amazonas, só que ele será conduzido de uma forma indígena. Esse enredo tem muito da nossa vivência, memória e da nossa identidade cultural. Acreditamos que as pessoas que vem de Parintins para trabalhar no Carnaval de São Paulo vão se ver na passarela do samba. Vamos trazer muitas cores e muitas lendas que são muito conhecidas na nossa região e tudo isso será linkado. O nosso desfile começa com o Sol e a Lua separados, porém, no desenrolar dos setores eles vão se encontrando. Esse enredo é o grande sonho das nossas vidas, Neide e Carlinhos são os atores”, festejam.

Para finalizar esse bate-papo exclusivo com Liga SP, o trio fez questão de falar o momento que vivem ao lado da presidente da Mocidade, Solange Cruz, e resumir toda admiração que sentem por essa mulher guerreira. “Somos só elogios e agradecimentos a Dona Solange, sua maior virtude é sempre querer as coisas para a sua comunidade, jamais para si, ela sempre busca o melhor para a sua associação”, finalizam os profissionais!

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