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Troianos de Marte

Figura 01: Asteróides troianos de Júpiter.

Uma das confirmações recentes no meio da Astronomia repousa sobre  o facto de que Marte está a dividir sua órbita  com outros  corpos, trata-se de   asteróides  muito pequenos, os quais são conhecidos como troianos. Na figura 01,  temos os asteróides troianos em duas posições: uma logo atrás e outra logo adiante do planeta Júpiter.

A confirmação veio após o trabalho de uma equipa internacional de astrónomos que observou  a órbita marciana  usando o VLT (do inglês: Very Large Telescope) instalado no Chile.

Figura 02: Do lado esquerdo, temos as posições dos troianos que estão à frente ou logo atrás do planeta Marte. Do lado direito, temos uma ampliação do retângulo ­­cuja linha está pontilhada.

Pergunta: E o que mudou no Sistema Solar? Do ponto de vista de definições, Marte ainda é considerado planeta. A única mudança está no facto dos troianos serem a evidência cabal de que havia  um outro planeta anão  próximo à Marte. A hipótese mais provável  afirma que  este planeta anão colidiu com Marte há muitos anos no passado. Alto lá, pá! Mas por qual razão somente agora surgiram esses troianos? Na verdade, muitos astrónomos desconfiavam da existência desses asteróides.  Entretanto, por décadas  não tinhamos  tecnologia para mapear a órbita  de Marte. Quando adquirimos tecnologia suficiente,  então, lançamos sondas e, mais recentemente,   foi lançada a missão Mars.  E desde então,  nove (09)  troianos foram descobertos.

Na figura 02,  logo à esquerda,  há uma representação dos nove troianos.  Nota-se que oito deles estão em L5 e um está em L4. Denominamos por L4 aqueles troianos que antecedem  o planeta, e por L5 aqueles  que sucedem Marte.

Na figura 01,  colocamos  os troianos que estão na órbita de Júpiter. Só para registo, há   aproximadamente 6 mil asteróides troianos na órbita jupiteriana. Neptuno é outro planeta que  tem 10 troianos.  De  certa maneira,  esse cenário  reflete  o que tínhamos nos primeiros instantes do Sistema Solar, onde a distribuição de planetas, asteróides e cometas  em nada lembrava  esta que observamos nos dias actuais. Um  detalhe interesante  é que  Marte, até o momento, é o único planeta rochoso a apresentar troianos.  Vale  sublinhar que futuramente, Marte também terá anéis.

Como falamos acima,  há muito tempo  os astrónomos desconfiavam da existência  de troianos na órbita marciana. O primeiro  troiano a ser descoberto  foi Eureka, em 20 de junho de  1990.

Figura 03: Eureka.

Para quem pensa que as surpresas acabaram, engano seu? Nossos problemas estão somente a começarem. Isto porque  estranhamente todos os troianos estão em L5, e apenas um está em L4.  Começa aqui um grandioso ponto de interrogação. Não muito contente,  a órbita de todos os demais troianos de L5 seguem Eureka, excepto um. Ainda não se sabe a razão pela qual essa distribuição  aconteceu, mas há algumas possibilidades, a saber: 1) Através de uma colisão um asteróide foi fragmentado, originando  o grupo que  notamos hoje, em L5; 2) Possivelmente,  a fissão rotacional fez com que  a velocidade de rotação de Eureka aumentasse, consequentemente,  este asteróide aos poucos  estava a liberar  pequenos   fragmentos  de si próprio. Independentemente dessas possibilidades, acreditam-se que  todos os asteróides ao redor de Eureka  fizeram parte de um mesmo objecto no passado. Mesmo que tudo  se encaixe,  a prova final ficará por conta da análise da composição  de todos os asteróides envolvidos.

Para a felicidade geral,  essa análise química pode ser feita através  do estudo  do espectro  de cada asteróide. E assim, a equipa internacional o fez, concluindo que  há  dois gémeos de Eureka. Além desta excelente notícia, foi divulgado também que  todos esses asteróides  saõ formados, em sua grande maioria, por olivina. Esta informação é particularmente  muito  importante, afinal,  olivina é um mineral que se forma geralmente  dentro de objectos muito  grandes e  sob condições de alta pressão e alta temperatura. Neste sentido,  a presença de olivina  faz com que  esses  troianos sejam tratados como relíquias, remanescentes do manto, de um planeta anão que existiu no passado. Tal como a Terra, esse planeta anão desenvolveu  uma crosta, um manto e um núcleo através  do processo  de diferenciação, porém,  devido às  colisões – tudo foi  destruído.

Claro, há muitos asteróides  na cintura de asteróides, localizada entre Marte e Júpiter, entretanto,  mesmo entre os troianos de Júpiter, nenhum deles  é composto por olivina. Damos um nome para isso: “o problema do manto em falta”.  Sim,  na ausência de um manto, consequentemente, há uma  diferença  de material depositado no asteróide, logo, podemos concluir que  os troianos  jupiterianos não  originaram de um planeta anão desenvolvido. Diferentemente dos troianos marcianos. A descoberta da presença de olivina  nos troianos marcianos não  põe  fim ao problema  do manto em falta, mas certamente, afirma que  o material do manto estava  próximo de Marte, no começo da formação do Sistema Solar. A dúvida agora é:  “Esse material participou directamente da formação de Marte. Teria ele também participado da formação da Terra?”

O Núcleo de Ensino e Pesquisa em Astronomia – NEPA  trouxe para si mais detalhes sobre a olivina, acompanhe:

Figura 04: Olivina.

A olivina  recebe esse nome em virtude de sua cor característica que é o verde-oliva. Entretanto,  ela poderá   aparecer na cor  amarelo-claro e até mesmo avermelhada, após um processo de  oxidação  do ferro. Sua composição química é  (MgFe)2SiO4, ou seja, olivina é um mineral composto por silicatos de magnésio e ferro.

Figura 05: Estrutura da olivina à escala atómica.

Na figura 05, mostramos  uma ilustração da  estrutura da olivina à escala atómica, onde   o oxigénio está representado  pela cor vermelha,  o silício em rosa, e o ferro e magnésio  em cor azul. O rectângulo  em preto  indica  a projecção de uma célula unitária. Em termos gerais,  este mineral  dá o nome a um grupo de minerais com  estruturas semelhantes (o grupo da olivina) que inclui  minerais  monticellite  e kirschsteinite. Ainda do ponto de vista estrutural,  eles se cristalizam  como  ortorrômbicos – uma das redes de Bravais. Por fim,  trata-se de um dos minerais mais comuns  na Terra e que, “coincidentemente”  tem sido encontrado na Lua, em meteoritos e recentemente em Marte.

Do ponto de vista da astrobiologia, o NEPA esclarece que as evidências estão apontando para um elo muito forte entre Marte e Terra. Vale lembrar que a Terra do início do Sistema Solar era bem parecida com Marte, a riqueza em magnésio e ferro, as condições de formação para olivina, entre outros factores  somente reforçam  e aproximam  a história da formação destes dois planetas. Claro, ainda é cedo para afirmamos algo. Entretanto,  a missão Mars está a nos entregar todas as peças deste quebra-cabeças. Certamente a astrobiologia tem um papel primordial na construção e recontrução  das teorias que  irão explicar a formação do nosso Sistema Solar, em particular, dos planetas rochosos.

Dr. Nélio Sasaki – Doutor em Astrofísica, Líder do NEPA/UEA/CNPq, Membro da SAB, Membro da ABP, Membro da SBPC, Membro da SBF, membro da UAI, membro da PLOAD/Brasil e ST/Brasil, Revisor da Revista Areté, Revisor da Revista Eletrônica IODA, Revisor ad hoc do PCE/FAPEAM, Director do Planetário Digital de Parintins-NEPA/UEA/CNPq, Director do Planetário Digital de Manaus-NEPA/UEA/CNPq, Professor Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

 

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