UAI divulga nomes oficiais para características em Caronte

Figura 01: Plutão e, ao fundo, Caronte.

Uma das atribuições da União Astronómica Internacional (UAI) é manter a convenção de nomes astronómicos e a nomenclatura  planetária. Por exemplo, no âmbito da  Astronomia planetária,  a maior lua de Plutão foi denominada Caronte. 

Inspirado na mitologia grega, Caronte é representado como um velho  magro, alto e vigoroso. Sua face é, ao mesmo tempo, sublime e áspera e seus olhos são brilhantes. Sua barba branca, longa e espessa contrasta com seu traje sombrio e manchado pelo negro limo dos rios infernais. Corriqueiramente, ele apresenta-se em pé, a segurar o remo de sua barca – a qual conduz as almas para o inferno.

Figura 02: Caronte e sua barca.

O nome Caronte  foi oficializado pela UAI aos 3 de janeiro de 1986. Passados 32 anos, a maior lua de Plutão voltou a ser assunto na União Astronómica Internacional.  Desta vez, uma equipa  da missão New Horizons apresentou  uma sugestão de nomes para as características de Caronte. A lista de nomes é bem diversificada, em grande parte, devido às sugestões das pessoas que participaram da campanha “Our Pluto”- promovida pela  própria equipa da New Horizons.

Coube  ao Grupo de Trabalho da UAI,   para a Nomenclatura  de Sistemas Planetários, julgar  a proposta. Diga-se de passagem, os nomes sugeridos são frutos de uma mescla entre homenagem ao espírito de exploração humana e uso da mitologia.

As imagens de Caronte – um dos maiores corpos planetários da Cintura de Kuiper – revelam uma superfície rica em crateras, vales e fendas.

Em Astronomia, denomina-se Chasma à superfície que apresenta uma depressão profunda, alongada e de laterais íngremes. Crateras, montes e rochedos são designados com a terminologia em Latim – Crater e Mon, respectivamente.

Ao todo foram 12 nomes oficializados: três (03) de depressões profundas (Chasma), seis (06) de crateras (Crater) e outros três (03) para montes (Mon).  Conforme mostrado no mapa abaixo.

Figura 03: Com setas vermelhas estão indicadas as áreas de depressões e, em azul, estão os montes e/ou rochedos. Os demais são crateras de Caronte.

Resumidamente, a UAI aprovou os seguintes nomes e sua, respectiva, categoria:

  • Chasma: Argo, Caleuche e Mandjet;
  • Crater: Dorothy, Nasreddin, Nemo, Pirx, Revati, Sadko;
  • Mon: Butler, Kubrick e Clarke.

Abordaremos brevemente cada um destes nomes com o intuito de entendermos o significado e a homenagem por trás de cada um deles.

Argo  Chasma – esta região de depressão profunda  leva o nome do  navio utilizado por Jasão  e pelos  Argonautas, quando estes estavam em busca do velocino de ouro. Conforme pode ser conferido na obra de Apolónio de Rodes – “Os Argonautas”.

Figura 04: Jasão e os Argonautas.

Caleuche  Chasma –  esta depressão  leva o nome do mítico navio fantasma presente no folclore e na mitologia do arquipélago de Chiloé, no Chile. Segundo a lenda,  Caleuche  percorre os mares ao redor da pequena ilha de Chiloé. Ao longo do percurso, o navio fantasma  explora  a costa  chilena e recolhe os mortos, os quais passam a viver eternamente  à bordo de Calauche. Observação importante: o arquipélago de Chiloé é formado por um grande número de ilhas de menor tamanho.  Dentre estas, encontra-se a Ilha Grande de Chiloé, a quinta em tamanho da América do Sul – ficando atrás da Terra do Fogo e das ilhas brasileiras, na ordem: Marajó, Bananal e Tupinambarana. A propósito, a ilha Tupinambarana possui uma área de 11.850 km2, enquanto, a ilha chilena tem apenas 9.181 km2.

Figura 05: Navio fantasma – Caleuche.

Mandjet Chasma – esta área de depressão  leva o nome do barco que  transportava  diariamente o deus do Sol (denominado “Rá” na mitologia egípcia) através do céu. É um dos primeiros exemplos de navio que viaja pelo espaço. Observação importante: há alguns documentos que registam o nome do deus Sol com a grafia “Ré”. Entende-se que seja uma variação do nome “Rá”. Mandjet é o barco que leva o deus Sol  ao longo do céu. Há outro barco – chamado Mesektet- que leva o  deus Sol até o submundo.

Figura 06: O deus Sol (Rá) a cruzar o céu no barco Mandjet.

Agora, vamos explanar os nomes das crateras de Caronte:

Dorothy Crater – esta cratera é uma homenagem à protagonista  da série de livros infantis escritos por L. Frank  Baum. O qual narrou as aventuras e viagens  de Dorothy Gale no mundo mágico de Oz.

Figura 07: A capa original da edição de 1908 (assinada por John R. Neill) e, à direita, L. Frank Baum.

Nasreddin Crater – esta cratera homenageia o protagonista de milhares de contos humorísticos contados em todo o Médio Oriente, Europa do Sul e partes da Ásia.

Figura 08: Nasreddin e seu inseparável burrico.

Nemo  Crater – esta cratera  leva o nome  do capitão do Náutilus –  o submarino dos livros “Vinte mil léguas submarinas” (1870) e “A ilha misteriosa” (1874). Essas duas obras são de autoria de Júlio Verne.

Figura 09: Júlio Verne e suas obras.

Pirx Crater – esta cratera leva o nome do personagem principal das estórias de ficção científica  assinadas pelo escritor  polaco Stanislaw Lem. Ao longo da jornada, Pirx viaja entre a Terra, Lua e Marte.

Figura 10: Stanislaw Lem e sua obra “Solaris”.

Revati Crater – a  homenagem  vai para  o personagem principal da obra hindu Mahabharata. Diga-se de passagem, esta obra é considerada  a primeira da história (por volta de 400 a.C.) a dar vida ao conceito  de viagem no tempo. Revati é, no hinduísmo, a filha do rei Kakudmi e consorte do deus Balarama, o irmão  mais velho  de Krishna.

Figura 11: Revati (à direita) com Balarama.

Sadko Crater –  esta cratera faz homenagem herói do ciclo de Bylina da Novogárdia. Sadko é um dos maiores  heróis  populares na mitologia  russa antiga.

Figura 12: Sadko no reino submarino (1876), de Ilia Repin. No Museu Estatal Russo de S. Petersburgo.

Por fim, vamos aos montes e rochedos:

Butler Mons – é uma homenagem para Octavia E. Butler –  a primeira escritora de ficção científica a ganhar  a bolsa MacArthur e cuja trilogia “Xenogenesis” descreve a saída da Humanidade da Terra e o seu posterior regresso;

Figura 13: Octavia E. Butler e sua obra “Xenogenesis”.

Kubrick Mons –  essa região montanhosa  leva o nome do diretor de cinema Stanley Kubrick – quem  assina a obra “2001: A Space Odyssey”. No enredo é abordado, entre outros tópicos, a história da evolução  da humanidade desde  a utilização das ferramentas  até  a exploração espacial.

Figura 14: Stanley Kubrick – diretor do filme “2001: a space odyssey”.

Clarke Montes – homenagem ao escritor de ficção científica Sir Arthur C. Clarke.  Em suas obras (com destaque para 2001: Uma Odisséia no Espaço) nota-se a presença de um jeito mavioso e engenhoso de descrever a exploração espacial.

Figura 15: Sir Arthur C. Clarke – escritor de ficção científica.

         Observação: O roteiro do filme “2001: a space odyssey” foi co-escrito por Kubrick e Clarke.  A trama baseia-se no conto de Clarke “The Sentinel” de 1951. O filme foi lançado no Brasil em 1968. Meio século se passou e, hoje, a humanidade presencia de forma corriqueira várias missões espaciais.

Dr. Nélio M. S. A. Sasaki
Coordenador do Núcleo de  Ensino  e  Pesquisa  em  Astronomia-NEPA
Professor e  Pesquisador  Adjunto da  Universidade  do  Estado  do  Amazonas (UEA)

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