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Um Passado Remoto

Há anos uma pergunta tem sido frequente na Astronomia: será que o Sol não teria uma irmã gémea? Segundo os astrónomos, não somente nosso astro-rei, mas  todas as estrelas similares ao Sol  possuem uma irmã, no mínimo.

Figura 01: Cauda da Yai, região rica em binárias

Claro, não necessariamente  gémea. O certo é: estrelas deste tipo nascem acompanhadas.

Na figura 01,  destacado em azul, temos a região de estudo próximo a cauda da Yai. Um grupo de astrónomos usou ondas de rádio e constatou a existência de um jovem sistema binário naquela área. Após a ampliação do retângulo azulado (vide figura 01) percebe-se a existência de uma região amarelada a qual é o interior de um núcleo denso, também  conhecido como berçário de binárias.

Figura 02: Zoom do Sistema binário destacado na figura 01.

Embora esteja  em tons de vermelho, a região destacada pelo círculo azul, na figura 02, é uma imensa e densa nuvem molecular rica em jovens estrelas.  Chama-nos à atenção o facto do surgimento de tantas estrelas somente ter sentido e, e somente se,  levarmos em consideração que estrelas similares ao Sol nascem acompanhadas. A partir desta premissa, os astrónomos estão a dizer que possivelmente o Sol teve, em um passado remoto, alguma irmã. Claro, os estudos levaram a equipa, de astrónomos envolvidos, a afirmar que estamos diante duas  possibilidades, a saber: ou no início, os sistemas binários foram favorecidos e por algum motivo as estrelas se separaram; ou uma estrela foi vítima do canibalismo da outra, logo após a formação estelar. Uma destas duas, em tese, explica  a razão pela qual temos  sistemas estelares com número ímpar de estrelas.

Nestes termos, a separação entre as duas estrelas  seria em torno de  500 unidades astronómicas (aproximadamente 150 milhões de quilómetros, ou se preferir, 500 vezes a distância entre o Sol e a Terra). Se convertermos essa distância para os dias actuais, o valor encontrado equivaleria a 17 vezes  a distância  entre o Sol e Neptuno. Certamente que esses números abrem caminho para outra situação igualmente provável: a irmã do Sol tenha  se desgarrado do Sistema Solar e estaria a vagar, longe do nosso sistema,  juntamente com as demais estrelas da nossa galáxia.

A discussão levantada neste texto é importantíssima, pois, a maneira como se dá o nascimento estelar acarreta em influências directas na formação galáctica.

Figura 03: Imagem infravermelha da região logo acima a cauda de Yai.

A figura 03 é uma imagem infravermelha realizada pelo Telescópio Espacial  Hubble. Na mesma, temos três pontos interessantíssimos, sob os quais podemos especular algumas possibilidades.

A primeira, por ser um berçário estelar esperava-se a estabilidade das jovens estrelas. Facto que  está a ser questionado pelas evidências de canibalismo na figura 03. Outras hipóteses são, respectivamente:  a  presença de um buraco escuro nas vizinhas  (o que alteraria o balanço estelar mássico), e outra é quase uma consequência da anterior, ou seja,  a morte prematura de algumas estrelas.

 Até o momento, questões que envolvem a acreção de matéria e gás estão por ser explicadas. A ejecção de massa estelar é outro fenómeno o qual não podemos descartar. De qualquer forma, esta questão encontra-se em aberto. Uma cousa é correcta: o número de binárias é proporcional ao número de estrelas jovens.

Embora o motivo para tal comportamento ainda não esteja muito claro, a pergunta a ser respondida é: qual seria a relação entre as jovens estrelas e  o meio ao redor delas?

O nascimento estelar é um fenómeno lindíssimo. As estrelas nascem dentro de núcleos densos (que são casulos – em forma oval) que estão distribuídos  ao longo de grandes nuvens frias – ricas em hidrogénio molecular. Visto pelo telescópio, tais nuvens  lembram “buracos” no céu. Isso devido ao facto das mesmas serem ricas de  gás e de poeira, que  bloqueia a passagem da luz. Desta forma, não conseguimos visualizar as estrelas contidas dentro desta nuvem e muito menos as estrelas do plano de fundo.

Figura 04: Em destaque, nuvem molecular rica em gás e poeira.

Como mostrado na figura 04, a grande quantidade de poeira presente dentro da nuvem molecular bloqueia  a passagem da luz estelar. Entretanto, ao realizarmos o estudo na faixa do rádio a presença de outras estrelas torna-se nítida.

Figura 05: Imagem rádio de região logo acima da cauda de Yai.

A região logo acima da cauda de Yai encontra-se a cerca de 750 anos-luz da Terra, tem um diâmetro aproximado de 51 anos-luz e é um verdadeiro berçário estelar.

Os astrónomos catalogaram as estrelas daquela região (marcada em azul, na figura 01) e denominaram por “Classe 0” àquelas com idade inferior a 500 mil anos, “Classe I” àquelas com idade superior a 500 mil e inferior a 1 milhão de anos. Tratam-se, portanto, de estrelas tão jovens que elas não conseguem ainda queimarem o hidrogénio dentro delas para, assim, produzirem energia própria.

No retângulo em azul, da figura 01, foram encontrados 24 sistemas múltiplos, sendo a maioria binárias. Segundo a equipa de astrónomos, acredita-se que estrelas classe 0 se formam dentro do núcleo denso e tendem a manter a forma oval. Porém, as estrelas de classe I tendem a ficar mais próximas e não se alinham na direcção longitudinal da estrutura oval.

Ao levarmos os dados acima em consideração, resta-nos apenas uma saída, a saber: se admitirmos que todas as estrelas nascem acompanhadas e levarmos em conta que quase 60% das binárias formadas se separam (com o passar do tempo), então, concluímos que estrelas tais como o Sol (que apresentam baixa massa) não são primordiais, ou seja, são fruto do resultado da dissolução de binários.

Mas e daí? O que essa conclusão tem a ver conmigo? Se você realmente prestou atenção na conclusão, então, pare de acreditar em bobagens, como por exemplo: “a estrela, irmã do Sol,  voltará”. Entenda, de uma vez, que a existência do Sol é fruto da dissolução de binárias, logo, não existe qualquer irmã do Sol perdida pelo espaço. Em outras palavras, Némesis (como foi chamada a irmã do Sol) não existe mais. Mas como pode o Sistema Solar ter ficado apenas com uma estrela? E qual o problema? Há sistemas estelares formados por três estrelas e ninguém reclama. De facto, podemos ter tanto números pares quanto ímpares de estrelas em um sistema estelar. Mas sobre isso, falaremos em outro momento.

Dr. Nélio Sasaki – Doutor em Astrofísica, Líder do NEPA/UEA/CNPq, Membro da SAB, Membro da ABP, Membro da SBPC, Membro da SBF, membro da UAI, membro da PLOAD/Brasil e ST/Brasil, Revisor da Revista Areté, Revisor da Revista Eletrônica IODA, Revisor ad hoc do PCE/FAPEAM, Director do Planetário Digital de Parintins-NEPA/UEA/CNPq, Director do Planetário Digital de Manaus-NEPA/UEA/CNPq, Professor Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

 

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