Uma semana após massacre, mães vão a presídios de Manaus em busca de notícias sobre filhos presos

Uma semana após o massacre que terminou com 55 mortos em presídios de Manaus, mães ignoraram a suspensão de visitas por 30 dias, determinada pelo governo, e marcharam rumo à entrada do ramal aonde ficam as principais cadeias da capital amazonense. É ali, no km 8 da BR-174, que elas fazem plantão todos os domingos, antes de poder abraçar os filhos. Desta vez, a marcha até lá foi para buscar notícias – do lado de fora.

Uma delas, uma mulher de 55 anos, visita o filho há seis meses no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat). Ele cumpre pena por roubo e ela, desde então, faz questão de se deslocar todos os domingos para rever o filho.

Na última vez que o viu, estava em visita quando foi retirada da cadeia por agentes que pediam para que todas as famílias se retirasse. À essa altura, no Compaj, cadeia que fica ao lado de onde o filho cumpre pena, iniciava o massacre. Naquele dia foram 15 mortos.

“Encontrei meu filho na visita, ficamos juntos e não demorou nem 15 minutos. Logo os agentes mandaram os familiares saírem. Meu filho ainda disse: ‘mãe, cuidado com a senhora’. Eu respondi: ‘cuidado você aqui dentro’. E, desde então, não temos mais notícia. Ninguém fala nada. É por isso que eu vim aqui em busca de notícias dele. Só sei das notícias pelo jornal. Eu queria saber se ele realmente está bem”, relatou a mãe, que não quis se identificar.

No dia seguinte à morte de 15 detentos dentro do Compaj, outros 40 detentos morreram em quatro diferentes unidades prisionais de Manaus. Destes, 25 só no Ipat.

“Eu desabei quando vi a notícia das 25 mortes no Ipat. Entrei em desespero mesmo. Corria de um lado para o outro, gritava, chorava e minha pressão subiu. Só Deus sabe o que passei naquele dia de desespero. Quando saiu a lista do nome dos mortos eu me acalmei. Mas continuo aflita por não ter notícias do meu filho. É um sofrimento muito grande”, lamentou.

Familiares de presos aguardam notícias do lado de fora após massacre em presídio de Manaus — Foto: Bruno Kelly/Reuters
Familiares de presos aguardam notícias do lado de fora após massacre em presídio de Manaus — Foto: Bruno Kelly/Reuters

União materna

Durante os últimos seis meses, nas visitas rotineiras, ela conheceu a mãe de outro detento, preso há três anos no Centro de Detenção Provisório Masculino (CDPM I), por tráfico de drogas. Por estarem na mesma situação, elas se tornaram amigas. Agora, trocam mensagens quando podem e se fortalecem.

Neste domingo (2) as duas estavam, mesmo sabendo da suspensão de visitas nas cadeias por 30 dias, sentadas em um banco na entrada que há meses frequentam juntas aos domingos. Ao G1 elas contaram suas histórias e se emocionaram ao voltar no tempo e lembrar do que aconteceu há uma semana. Tristes, decidiram sair de casa e marchar em busca de respostas.

“Poderiam fazer uma lista [de quem está lá, e bem] só para confortar o nosso coração de mãe. Para provar que nossos filhos estão realmente vivos. Nós lemos e escutamos comentários ruins sempre. Eles falam que todos [presos] têm que morrer. Só quem sente na pele sabe o que é o sofrimento, a aflição e tristeza. Só Deus para confortar as mães que realmente sabem a dor de ver um filho preso”, expressou a mãe do detento custodiado no CDPM I, onde cinco foram mortos no massacre.

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