Veja o que é #FATO ou #FAKE no discurso de Bolsonaro sobre a vacina chinesa

Presidente deu declarações no interior de SP após cancelar protocolo de intenção de compra do imunizante da farmacêutica Sinovac.

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira (21) que mandou cancelar o protocolo de intenção de compra de 46 milhões de doses da vacina CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac.

Bolsonaro disse que “os números têm apontado que a pandemia está indo embora” e que “ninguém está interessado” na vacina chinesa. A equipe do Fato ou Fake checou as declarações. Leia:

“Os números têm apontado que a pandemia está indo embora”

 

 — Foto: G1

A declaração é #FAKE. Veja o porquê: Apesar de o Brasil estar há dez dias com tendência de queda nos óbitos, ainda são registradas, em média, cerca de 500 mortes diárias pela Covid-19. Além disso, uma 2ª onda da doença atinge a Europa. Para conter o novo coronavírus, países voltaram a adotar medidas rígidas, incluindo toque de recolher em cidades como Paris. França e Holanda registraram recorde diário de casos. Portugal decretou “situação de calamidade”. Na Itália e na Alemanha, houve endurecimento das restrições.

Sergio Cimerman, coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia, diz que a situação atual é melhor, mas que não é possível fazer tal afirmação. “Há uma queda expressiva no número de casos e óbitos no Brasil, mas longe de a pandemia ir embora neste momento.”

O pesquisador Diego Ricardo Xavier, do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz, que se debruça desde março sobre os dados do coronavírus, concorda e não considera que se possa falar em fim da pandemia neste momento. “Não existe como quantificar em números a expressão ‘estar indo embora’. Mas os dados mostram que o Brasil tem pouco mais de 2,7% da população mundial, e responde por 14% das mortes por Covid-19 no mundo, isso desde 11 de agosto. Em 15 de junho, esse índice era de 10%. Então estamos longe de nos vermos livres da pandemia.”

O pesquisador lembra que há diferenças entre as regiões brasileiras. “Temos platô nas regiões onde o vírus chegou posteriormente, como o Centro-Oeste e o Sul, e tendência de estabilização ou queda no Norte, Nordeste e Sudeste. Dizer que a pandemia está indo embora quando ainda registramos média de cerca de 500 óbitos diários é forçar a barra. Vale lembrar que o presidente já havia usado a expressão em abril, quando tínhamos cerca de 1.200 mortos por dia”, diz Xavier.

Para o pesquisador em saúde pública da Fiocruz Marcelo Gomes, que trabalha com modelagem de epidemia e vigilância epidemiológica e acompanha os números da Covid-19 do Brasil desde o começo da pandemia, o sinal de alerta não pode ser desligado. “Afirmações como essa, de que algo ‘está indo embora’, em geral, usamos quando os números estão se mantendo num ritmo de queda de novos casos há bastante tempo e os dados atingiram valores significativamente baixos. O que não é a situação do Brasil.”

“Quando a gente olha a curva do Brasil, vê que o ritmo da queda dos novos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) está diminuindo e o patamar ainda é elevado. Isso para o Brasil como um todo. Ressaltando que os casos de SRAG ainda estão associados aos de coronavírus, são predominantes nos registros. Ao analisar os estados, há regiões de diversos deles com retomada do crescimento. A maioria das capitais está em estabilização, algumas inclusive com nível elevado, que ainda inspira cautela, e capitais como Salvador, João Pessoa e Florianópolis com sinal forte de retomada do crescimento. Ainda estamos em momento de alerta. Nas macrorregiões de saúde, vê-se que há locais que sequer começaram o processo de queda. É importante ter cautela e informar à população que ainda temos muita gente suscetível.”

Gulnar Azevedo e Silva, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva e professora do Instituto de Medicina Social, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, também afirma que “não é possível dizer que o Brasil está livre ou tem a pandemia de Covid-19 controlada”.

“Na terça (20), o Ministério da Saúde registrou 661 óbitos e 24.818 casos nas últimas 24 horas. Continuamos a ser a 2ª nação em número de óbitos, ficando somente atrás dos EUA. Ter ultrapassado 150 mil mortes no sétimo mês de pandemia é algo muito grave. É importante entender o momento pelo qual estamos passando. Se a curva está desacelerando no geral, essa não é a realidade de todo o país. Pode ter tido desaceleração em algumas capitais, mas a situação ainda é crítica em vários municípios. Não podemos abrir mão das medidas de saúde pública e do controle rigoroso ao coronavírus, sendo necessária a integração entre governo federal, estados e municípios.”

“Estaria comprando uma vacina que ninguém está interessado por ela”

 

 — Foto: G1

A declaração é #FAKE. Veja o porquê: Não é verdade que não haja outros países interessados na vacina da Sinovac. Há testes sendo feitos na Turquia e na Indonésia. A exemplo do Brasil (onde o governo de SP já fez um contrato), na Indonésia, a Bio Farma, inclusive, já assinou um acordo para aquisição e distribuição da vacina no país.

Pelo acordo, a Sinovac se compromete a fornecer a vacina a granel à Bio Farma para permitir que ela produza pelo menos 40 milhões de doses antes de março de 2021. Depois disso, a Sinovac continuará a fornecer a quantidade necessária da vacina a granel até o final de 2021.

O CEO da Sinovac, Yin Weidong, diz que “os primeiros lotes serão distribuídos prioritariamente na China e paralelamente nos países com testes clínicos, que são Brasil, Indonésia e Turquia”.

A CoronaVac, aliás, consta da lista oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS). A iniciativa COVAX, liderada pela organização, monitora vacinas em desenvolvimento pelo mundo para que, após comprovada a eficácia, elas possam ser distribuídas aos países que aderiram à aliança. A candidata da Sinovac integra o grupo que está no portfólio da iniciativa. A vacina está na última etapa de testes.

Fato ou Fake — Foto: G1

Com informações do G1

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